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Início Português no mundo Contextos Africanos: Costa do Marfim
Contextos Africanos: Costa do Marfim Imprimir E-mail
Escrito por Aléxis Kouamé*   

1. Contextualização do ensino de línguas na Costa do Marfim

A COSTA DO MARFIM, capital Abdijan, é um país francófono da África ocidental com uma superfície de 322.462 km2 e uma população que ultrapassa os 17 milhões de habitantes. O país tem uma política aberta a estrangeiros com uma população externa que chega a quase 30% do total de habitantes. É um país democrático, independente desde agosto de 1960, ou seja, tem a idade de Brasília.

A economia está voltada para a agricultura e, principalmente, para a produção de cacau (1ª produtora mundial), café (3ª mundial), banana, dendê, abacaxi, borracha, caju, etc. Lingüisticamente falando, o francês é a língua oficial devido à colonização francesa (fim do século XIX). Além disso, de acordo com os pesquisadores e etnolinguistas, existem sessenta línguas locais que cabem dentro de quatro subgrupos: KRU, MANDÊ, GUR e KWA. O país celebra a Deus por meio de três principais religiões: católica, evangélica e muçulmana. A população da Costa do Marfim é essencialmente cristã (principalmente católica apostólica romana), possuindo a maior Basílica do mundo, a Basílica de Nossa Senhora da Paz, localizada na cidade de Yamoussoukro, capital oficial do país.

O sistema educativo é semelhante ao da França. O ensino primário (básico) dura seis anos, o ensino secundário de sete anos se divide em dois ciclos de três e quatro anos, e o ensino superior se divide em 3 ciclos .

O aluno marfinense aprende pelo menos quatro línguas, a saber, o francês, língua oficial do país, o inglês, que ele aprende desde o 1º ano do ensino secundário, e o alemão ou o espanhol, a partir do 3º ano do ensino secundário.
A COSTA DO MARFIM tem cinco principais Universidades e várias escolas e centros de formação profissional assim como importantes escolas Politécnicas Internacionais na área da tecnologia.


2. O Ensino de Línguas Estrangeiras (LE)

Fora a aprendizagem das línguas européias estrangeiras (inglês, alemão, espanhol) no ensino secundário, o aluno marfinense pode estudar uma delas de maneira aprofundada na Universidade, caso queira se tornar professor dessa língua. Assim, ele ingressa numa Universidade após o vestibular (que acontece no sétimo ano do ensino secundário) enquanto estudante do Departamento de Inglês, Alemão ou Espanhol. Existem duas (2) categorias de professor de línguas no ensino secundário. A primeira é a daquele aluno que se torna professor depois de três anos na faculdade e dois outros numa escola especializada, a chamada ENS (Escola Normal Superior) onde adquire durante um ano as bases teóricas da pedagogia de ensino de língua e mais 1 ano colocando essas bases em prática sob a forma de estágio numa escola secundária. Ao cabo desses últimos 24 meses, ele tem mais um diploma (além da Licenciatura que teve na faculdade) chamado de CAPES (Certificado de Aptidão Profissional do Ensino Superior) que tem um valor internacional. No total, o professor da 1ª categoria estuda durante cinco anos desde o 1º ano da faculdade até o último da ENS.

A segunda categoria de professor de línguas diz respeito ao aluno que permanece por apenas dois anos na faculdade onde ele adquire o DEUG ( Diploma de Estudos Universitários Gerais), antigamente denominado DUEL (Diploma Universitário de Estudos Lingüísticos) e os dois anos da ENS que lhe dá o CAP (Certificado de Aptidão Profissional). Cabe salientar que no passado, só o professor titular do CAPES tinha de passar pela faculdade, o do CAP ingressava diretamente na ENS devido à necessidade de professores na época.

A partir da década de 90, por causa da crise econômica do país e o número cada vez maior de jovens qualificados, o professor de CAP passou a estudar também na Universidade com a novidade de que doravante, para se tornar professor, o jovem qualificado devia enfrentar o concurso dito de integração e muito seletivo em ambas as categorias devido ao número insuficiente de vagas. Então, o aluno titular de licenciatura da Universidade, para ingressar na ENS devia enfrentar o “concurso de integração” assim como o de DEUG. Além disso, é bom lembrar que o professor do CAPES tem por requisito a licenciatura do ensino superior e o do CAP, o DEUG. Portanto, na nova legislação, o jovem qualificado que tem a licenciatura pode se candidatar aos dois concursos de integração ao passo que o de DEUG tem apenas uma opção. Aliás, hoje, quase a maioria dos professores de CAP é titular da Licenciatura sendo que nenhum fica só dois anos na faculdade.
Na realidade, esses requisitos do professor de língua dizem respeito a qualquer outro professor de qualquer outra área: matemática, história, geografia, física, química, ciências naturais (biologia e geologia), exceto a área de filosofia que tem apenas uma opção, a do professor de CAPES.


3. O Português no sistema educativo da Costa do Marfim

Conforme já se pode notar, até agora ainda não foi mencionado em momento algum neste artigo, assunto que diga respeito ao português na medida em que o português como LE na Costa do Marfim tem uma história um pouco diferente das outras línguas estrangeiras.

Com efeito, a introdução do Português como LE no currículo marfinense data de 1977. De fato, a partir dessa data, devido à independência conquistada por vários países africanos de expressão portuguesa, o Governo Marfinense resolveu instituir estruturas concretas para incentivar e acelerar o processo da criação de um Departamento de Estudos Ibéricos no país. Assim, no mesmo período, o Reitor da Universidade de São Paulo (USP) visitou o colega marfinense da Universidade de Abidjan e participou da assinatura de um convênio cultural interuniversitário que confirmou oficialmente o ensino da língua portuguesa na Universidade Nacional da Costa do Marfim (hoje Universidade de Abidjan-Cocody).

No início, o Português evoluiu dentro do Departamento de Espanhol e continuou como disciplina optativa para inúmeros estudantes da antiga Faculdade de Letras, Artes e Ciências Humanas (FLASH) que o tinham como L2. O interesse por essa segunda língua cresceu rapidamente.


3.1 A evolução do PLE na Costa do Marfim e a primeira turma de formandos nessa língua como disciplina plena

A língua portuguesa como LE/L2 no país continuou a crescer até tornar-se uma disciplina plena em 1999 quando o Governo, seduzido pelo sucesso da língua, decidiu transformar o seu status através de um decreto que visava à criação de uma Licenciatura em Português, sempre dentro do Departamento de Espanhol que passou a ser, por causa do novo “vizinho”, o Departamento de Estudos Ibéricos e Latino-Americanos com referência à Espanha e Portugal na Europa, e Brasil e países hispanofalantes da América Latina. Atualmente se encontra sob o comando da grande UFRLLC (Unidade de Formação e Pesquisa em Línguas, Literaturas e Civilizações) que abrange os departamentos de Inglês, Alemão, Lingüística e Letras Modernas. O novo Departamento tem um só Diretor, mas um coordenador para cada uma das duas línguas, isto é, Espanhol e Português. Os estudos de Português estão divididos em 4 opções: estudos brasileiros, estudos portugueses, lingüística e estudos da África lusófona. A norma reconhecida de forma provavelmente não-oficial é da variante brasileira. O Departamento de Português tem uma biblioteca abastecida com livros de gramática, literatura e civilização do mundo lusófono e continua sendo apoiada, embora não seja ainda a ajuda milagrosa que se podia esperar de Portugal e do Brasil.

O curso de português enquanto área autônoma teve início com cinco alunos e três professores: um marfinense, uma brasileira e uma portuguesa. A cada ano, o número de alunos vai crescendo assim como o de professores graças à cooperação entre a Costa do Marfim e os dois líderes do mundo lusófono, Brasil e Portugal.

Embora tenha sempre existido, a Cooperação Brasileiro-Luso-Marfinense se consolidou propriamente a partir da instituição dessa licenciatura. Com efeito, Portugal apóia a Costa do Marfim com bolsas anuais e de verão pela via do Instituto Camões ao passo que o amparo do Brasil consiste em bolsas do Ministério da Educação e Cultura através da CAPES e do CNPq que atendem, a cada ano, em média, dois alunos marfinenses buscando ingresso nas Universidades brasileiras.

Tendo sido criada a Licenciatura em Português, só faltavam, então, os alunos. É assim que foi lançada uma campanha de sensibilização e de motivação para "arrecadar" alunos. No término da campanha, só cinco jovens se ofereceram como “cobaias”. Sem contar com a quantidade, o Professor Tougbo e sua equipe começaram a dar as aulas no curso regular de Português em 11 de janeiro de 2000. Era o ponto de partida para uma nova aventura no ensino de línguas estrangeiras na Costa do Marfim.

No início, devido à urgência do momento, o corpo docente se resumia a três: um marfinense, o Professor Doutor Dominique Koffi Tougbo, formado em Lingüística e Filologia pela USP, atual coordenador do curso, uma leitora brasileira, a Professora Maria José dos Santos que já lecionava o Português desde a época de mera L2 optativa, e uma leitora portuguesa, a Professora Bemvinda Lavrador, enviada por Lisboa através do Instituto Camões. Cada um deles dava aulas de acordo com sua norma ou variante do português, seja ela européia ou americana (português brasileiro).

Hoje, com o tempo e o número cada vez maior de alunos, foram contratados novos professores marfinenses que se formaram majoritariamente no Brasil. Cabe salientar que com a Cooperação Brasileira, jovens marfinenses continuam ingressando nas universidades brasileiras por meio do Programa de Estudantes-Convênio em Pós-Graduação mantido pela CAPES (doutorado) e pelo CNPq (mestrado), ambos órgãos do Ministério da Educação (MEC) com o apoio do Ministério de Relações Exteriores (MRE).

Geralmente, o corpo docente ganha apoio dos alunos já formados no Mestrado que dão aulas enquanto aguardam para voltar ao Brasil com o propósito de cursar o Doutorado. Atualmente, o Instituto Camões mantém mais um leitor, o Professor José Horta, de Portugal. Depois de concluir o doutorado em literatura brasileira pela Universidade do Rio Grande do Sul, a Professora Doutora Anasthasie Brou hoje ministra aulas no Curso de Português. Dois doutorandos marfinenses, um em Lingüística e outra em Literatura Brasileira, e mais cinco mestrandos, todos no âmbito da linguagem e língua portuguesa, são esperados como reforços ao Curso após a sua volta à Costa o Marfim no futuro próximo.

Conforme já se sabe, o curso de português na Costa do Marfim teve desde o início as duas variantes lingüísticas do idioma. Assim, cada professor tinha e ainda tem a liberdade de escolher o material que desejar. Assim, utilizava-se o conhecido livro “Avenida Brasil” que os alunos partilhavam entre si, unidade por unidade, já que não havia a possibilidade de encontrá-lo no mercado comercial de livros. Por outro lado, a variante européia se aprendia por um livro do qual só o professor sabia o nome já que o alunado recebia cópias já feitas pelo professor.


3.2 O estado atual da língua portuguesa e perspectivas

Atualmente, todos os dados relativos à língua mudaram. De fato, com cinco estudantes no início, o curso conta hoje com mais de uma centena de alunos devido à boa campanha sobre a língua que informa aos recém titulares do "baccalauréat" – exame de conclusão do ensino secundário que autoriza o aluno a escolher a área que pretende cursar na faculdade – sobre a existência do português na Universidade e também sobre a necessidade crescente da coordenação do curso de determinar e propor um número de vagas à Comissão de Orientação .

O curso de português respeita o sistema global do ensino superior do país baseado no modelo francês (que vai mudando consideravelmente), isto é, o percurso universitário dividido em três ciclos conforme explicamos no início deste trabalho. Um problema que permanece é o da não existência do terceiro ciclo do curso. Outra limitação está no corpo docente exíguo que se dedica especificamente ao Português. Os mesmos professores precisam se desdobrar ensinando disciplinas de serviço de outros departamentos que têm o Português como disciplina eletiva. O decreto de ensino com essas providências, que desse estrutura completa e estatuto oficial cabal a essa língua, aguarda ser efetivado.

 

*O Professor Aléxis Kouamé á associado à SIPLE, ensina Português Língua Estrangeira em Abidjan, na Costa do Marfim, e deve obter em 2008 o título de Mestre em Lingüística Aplicada pela Universidade de Brasília-UnB. End-el para contato: Este endereço de end-el está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

 

 

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