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Aprendizagem de uma segunda língua e identidades: uma abordagem discursiva das identidades de haitianos aprendentes do português como língua acolhimento Imprimir E-mail
Escrito por Denilson Silva (UEPA/Pós-Graduação USP) e Rosane de Sá Amado (USP)   

Resumo:

Este trabalho tem como objetivo analisar discursivamente, as identidades construídas por quatro haitianos que vieram para cursar o ensino superior no Brasil. Para tal, lançamos mão de uma abordagem dialógica dos estudos do discurso, bem como de reflexões dos Estudos Culturais e de outros autores das ciências humanas sobre as identidades. Também, partimos do princípio de que há uma forte relação entre a aprendizagem de uma nova língua e as questões identitárias no processo de acolhimento. Os sujeitos do discurso mostraram, a princípio, um desejo de conhecer o Brasil pela imagem que já tinham de uma “identidade brasileira”. Entretanto, ao longo do processo de aprendizagem, observaram a complexidade das identidades brasileiras reveladas por meio de choques culturais e da diversidade cultural e linguística do país.

Palavras-chave: Discurso, Identidades, Aprendizagem, Diversidade Cultural, Língua de Acolhimento.

Abstract: This paper aims to analyse, in the discourse, the identities presented by four haitians who came to be college students in Brazil. For this purpose, we use a dialogical discourse approach, as well as the Cultural Studies and other human sciences theories about identities. Also, we consider that there’s a strong relationship between learning a new language and the identity issues in process of welcoming. The discourse subjects showed, at first, a desire to know Brazil through the image they had about a “brazilian identity”. However, through the learning process, they obseverved how these identities are complex. This was revealed through cultural shocks and through the cultural and linguistic diversity of the country.

Key-words: Discourse, Identities, Learning, Cultural Diversity, Welcoming Language.

 

  1. Introdução

A chamada globalização traz fronteiras cada vez mais tênues e identidades cada vez mais móveis.  No campo social, o mundo moderno apresenta incertezas e angústias. Para o sociólogo Zygmunt Bauman (2005a), o Estado perdeu suas forças estabilizadoras e o poder de aplacar as incertezas trazidas pela globalização. Dessa forma, o foco da angústia moderna é direcionado para um objeto alcançável. Ora, “refugiados, pessoas em busca de asilo, imigrantes- os produtos rejeitados da globalização- se encaixam perfeitamente nesse papel” (BAUMAN, 2005b, p. 84). Tais outsiders podem facilmente ser vistos como responsáveis pelas mazelas sociais, tornando-se assim, “vozes excluídas”.

Segundo reportagem da “Voz da América[1]”, o número de imigrantes no Brasil cresceu 160% em dez anos. Dentre os grupos de maior expressividade estão os haitianos. Segundo a socióloga Patrícia Villen, na referida reportagem, o Brasil atraiu estes imigrantes nos últimos anos devido à projeção internacional do país, o que faz com que estas pessoas venham em busca de melhores condições de vida.

Ao chegarem em um outro país, imigrantes e refugiados enfrentam um dos desafios para a convivência social: a comunicação na língua local. Como aponta Amado (2013, p. 7), “as perspectivas individuais sobre a língua-alvo, a sua autoimagem, os planos para o futuro [...] podem criar dificuldades no processo de aprendizagem”.

Este trabalho tem como objetivo analisar discursivamente, as identidades construídas por quatro haitianos que vieram para cursar o ensino superior no Brasil, três estudaram o Português Brasileiro (PB) em Belém, Pará, e uma em Belo Horizonte, Minas Gerais. Para tal, usamos uma abordagem dialógica dos estudos do discurso, bem como de reflexões dos Estudos Culturais e de outros autores das ciências humanas sobre as identidades. Também, refletimos sobre a relação entre as identidades construídas no discurso e a aprendizagem de uma segunda língua.

  1. Sobre as Identidades

“Quem sou eu?”, “quem somos nós?” são perguntas presentes nas mais diversas situações do cotidiano. Sempre houve e haverá uma busca por uma definição da identidade. Ultimamente, questões relacionadas ao gênero, à raça e à religião têm posto o debate sobre as identidades em pauta, evidenciando o fato de que as identidades podem estar em “xeques”. 

Para alguns estudiosos, a instabilidade no trato com as questões identitárias está diretamente ligada à concepção de sujeito pós-moderno. Stuart Hall (2000), por exemplo, em “Identidade Cultural na Pós-modernidade”, mostra como a concepção de sujeito passou de um sujeito centrado para um sujeito cujas identidades são fluidas e em constante transformação. Para o referido teórico, na chamada pós-modernidade, o sujeito torna-se deslocado e suas identidades passam a ser

formadas e transformadas continuamente em relação às formas pelas quais somos representados [...] nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida historicamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em diferentes momentos [...] (HALL, 2004, p. 13).

A pós-modernidade, período no qual o sujeito pode ligar-se a diferentes centros de identificação e no qual ele se torna uma “celebração móvel” (HALL, 2000, p.13) traz encarnações mais aguçadas, mais profundamente sentidas e perturbadoras da ambivalência” (BAUMAN, 2005a, p. 38). Tal ambivalência se dá pelo fato de o indivíduo, em nossa sociedade moderna[2], poder trocar uma identidade por uma “rede de conexões”.

Para Charaudeau (2015), as identidades apresentam uma tensão entre o individual e o coletivo, uma vez que pelo olhar do “outro” somos etiquetados e marcados. Dessa forma,

a identidade é, assim, um problema complexo, pois ela não é apenas um problema do individuo, mas também dos outros ou, mais exatamente, o problema de si através do olhar dos outros (2015, p. 15-16).

Essa tensão provocada pelas formações identitárias pode fazer com que grupos e pessoas operem um movimento de retorno em direção às suas supostas origens, o que cria, nas palavras do referido autor, uma tentativa imaginária de reaver um “paraíso perdido”.

  1. Identidade, Diferença e Aprendizagem de Línguas

Conforme dissemos alhures, o chamado sujeito moderno vê-se diante de identidades voláteis. Tais identidades, muitas das vezes conflituosas, são flagradas no discurso.  

Nesta seção, consideraremos a formação da identidade como um constructo discursivo indissociável da diferença[3]. Trata-se do princípio da alteridade. Nas palavras de Charaudeau (2015, p. 18), “a percepção da diferença do outro constitui, antes de mais nada, a prova da própria identidade”. Ao perceber o outro como diferente, o sujeito pode apresentar um duplo movimento: de atração e de rejeição ao outro (2015, p. 18). No primeiro movimento, haveria um desejo de apreender o outro e com ele partilhar algo em comum e no segundo movimento, haveria uma rejeição dos valores e dos hábitos do outro, criando assim estereótipos, clichês e preconceitos.

Para Silva (2000), identidade e diferença são inseparáveis. Tais conceitos não são, portanto, autossuficientes e são criações linguísticas, sociais e culturais. O estabelecimento das identidades e da diferença é sempre marcado por uma relação de poder. Como nos diz o autor (SILVA, 2000, p.81),

A identidade e a diferença estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais amplas de poder. A identidade e a diferença não são, nunca, inocentes.

 Por isso, a relação identidade x diferença traz sempre uma inclusão e uma exclusão. Tal relação apresenta a classificação “Nós” e “Eles” que não são simples categorias gramaticais, mas posições-de-sujeito fortemente marcadas por relações de poder(SILVA, 2000, p. 82).

A relação identidade x diferença também evidencia o processo de “normalização” feito pela sociedade. Normalizar, nas palavras de Silva (2000, p. 83) é eleger - arbitrariamente - uma identidade específica como parâmetro em relação ao qual outras identidades são avaliadas hierarquicamente. A normalização, portanto, cria “identidades hegemônicas[4]” que são sempre assombradas pelo “outro”, pelo diferente.

A normalização, portanto, estabelece sistemas binários que garantem a ordem social. Dessa forma, O criminoso é um ‘forasteiro’ cuja transgressão o exclui da sociedade convencional, produzindo uma identidade que, por estar associada com a transgressão da lei, é vinculada ao perigo, sendo separada e marginalizada” (WOODWARD, 2000, p. 46).

Destarte, em um sistema binário, um dos termos é visto como mais valorizado e o outro como “desviante”, como “o de fora”.

Há ainda as pessoas denominadas de “subclasse”. Para Bauman (2005a), são as pessoas

exiladas nas profundezas além dos limites da sociedade- fora do conjunto no interior do qual as identidades (e assim também o direito a um lugar legítimo na totalidade) podem ser reivindicadas e, uma vez reivindicadas, supostamente respeitadas (2005a, p. 45).

Dentre as pessoas que estão nessa “subclasse”, estão os mendigos, sem-tetos, ex- viciados e também muitos refugiados e imigrantes em alguns países. Trata-se de indivíduos “sem rosto”, sem direito a uma identidade.

A identidade e a diferença estão relacionadas a sistemas de representações sociais participantes de uma rede discursiva que as define e as reforça. Conforme Silva (2000, p. 94- 95), o reforço de uma identidade é feito pela repetição discursiva e pelo processo de “corte e colagem”, isto é, tudo o que dizemos é é apenas mais uma ocorrência de uma citação que tem sua origem em um sistema mais amplo de operações de citação, de performatividade e, finalmente de definição, produção e reforço da identidade cultural”.

Relacionando esta afirmação de Silva (2000) aos estudos do discurso a que se propõe este trabalho, diríamos que as identidades são formadas no discurso, mais especificamente em um processo interdiscursivo.

Retornando aos sistemas de representações nos quais as identidades são construídas, Woodward (2000, p. 17) nos diz queos discursos e os sistemas de representação constroem os lugares a partir dos quais os indivíduos podem se posicionar e a partir dos quais podem falar.”. Um exemplo interessante dado pela própria autora é a do papel da mídia na construção desses lugares sociais, assim, os meios de comunicação nos dirão, por exemplo, que posição-de-sujeito poderemos ocupar: a do “adolescente esperto”, do trabalhador em ascensão ou da mãe sensível. Como nos diz Woodward (2000, p.17), a representação como processo cultural estabelece identidades individuais e coletivas e os sistemas simbólicos nos quais ela se baseia fornecem possíveis respostas às questões: Quem sou eu? O que poderia ser? Quem quero ser? Os discursos e os sistemas de representação constroem lugares a partir dos quais os sujeitos poderão se posicionar e a partir dos quais poderão enunciar.

Cumpre-nos ressaltar que, como as identidades estão sempre em transformação, não há uma simples aceitação passiva de certos grupos no estabelecimento das identidades hegemônicas. Poderão ocorrer questionamentos e contestações. Um exemplo moderno são os movimentos feministas que põem “em xeque” não só as identidades de gênero, mas também as de classe, as de posição no trabalho, dentre outras.

Segundo Block (2007), há um número crescente de publicações sobre a relação entre identidades e aprendizagem de uma segunda língua. Tal interrelação se dá, na literatura das Ciências Sociais, com uma abordagem pós-estruturalista[5].

Segundo o referido autor, as identidades não têm mais sido trabalhadas como algo fixo, mas como algo fragmentado e não essencialista. As identidades se tornam assim evidentes

when individuals move across geographical and psychological borders, immmersing themselves in new sociocultural environments, they find that their sense of identity is destabilised ant that they enter a period of struggle to reach a balance” (BLOCK, 2007, p. 864).

Para Revuz (1998), a aprendizagem de uma outra língua traz sempre um confronto que não tem sido trabalhado tradicionalmente pelo ensino/aprendizagem de línguas. Tal confronto diz respeito ao que o aprendente já traz de sua primeira língua, nas palavras da autora (REVUZ, 1998, p. 217), “toda tentativa para aprender uma outra língua vem perturbar, questionar, modificar aquilo que está inscrito em nós com as palavras dessa primeira língua”. Como a língua está associada também às questões identitárias e culturais, a aprendizagem de uma língua estrangeira ou de uma segunda língua traz este olhar do “outro” pelo qual nossa identidade é sempre confrontada. Cabe-nos, portanto, analisar como as identidades são construídas no discurso na relação entre aprendente e língua alvo.

  1. Metodologia

Este trabalho propõe-se a analisar o discurso de quatro haitianos que estudaram o PB no Brasil, dois deles em Belém do Pará e um em Belo Horizonte, Minas Gerais, e verificar como as identidades são construídas no discurso. Para tal, seguimos uma abordagem dialógica do discurso que nos mostra que não há separação entre ideologia e realidade material do signo nem dissociação entre o signo e suas formas concretas de comunicação e tampouco dissociação entre a comunicação e suas formas de base material (BAKHTIN, 2010, p. 45). De um modo geral, diremos que não há separação entre o contexto social e as formas linguísticas do enunciado. Dessa forma, consideramos que um enunciado fará sempre referência a enunciados anteriores e repercutirá em enunciados subsequentes. Também, consideraremos que as escolhas lexicais feitas pelo sujeito do discurso sempre trarão uma valoração social e ideológica.

Consideraremos, na formação das identidades no discurso, a interdiscursividade. A relação dialógica entre os discursos é chamada de interdiscursividade e os casos em que a relação entre discursos é materializada em textos é a intertextualidade. “Isso significa que a intertextualidade pressupõe sempre uma interdiscursividade, mas que o contrário não é verdadeiro” (FIORIN, 2012, p. 153).

Como instrumento de pesquisa, utilizamos um questionário com perguntas abertas que foi respondido pelos quatro colaboradores da pesquisa. O questionário, além de dados pessoais, continha as seguintes perguntas abertas: 1) Por que você veio ao Brasil e como se sentiu logo ao chegar ao país; 2) De que forma você aprendeu o português do Brasil (doravante PB)? (Aqui você pode mencionar não só um curso de português mas outras formas que utilizou para aprender[6] a língua); 3) Aprender o PB foi difícil para você? Caso sim ou não, explique o porquê; 4) Como você se sentiu durante o período de aprendizagem do PB?;  5) Relate uma experiência, que na sua opinião, marcou a aprendizagem do PB; 6) Como você se sente hoje em relação ao PB e ao Brasil? O objetivo era obter respostas que pudessem suscitar questões identitárias no discurso. Tentou-se também dar um tom mais pessoal que gerasse respostas mais narrativas, uma vez que as histórias dos aprendentes têm sido uma rica fonte de informação nos estudos que relacionam aprendizagem e identidade[7] (BLOCK, 2007). Para análise das identidades relacionadas às identidades do aprendente do PB, fizemos alguns recortes no corpus. Por isso, algumas perguntas não foram exploradas e poderão ser estudadas em futuras pesquisas sobre a aprendizagem do PB.

Por questões éticas, os colaboradores da pesquisa serão referidos aqui como C1 (tem 30 anos e está há 8 anos no Brasil), C2 (tem 27 anos e está há 4 anos no Brasil), C3 (tem 30 anos e ficou 6 anos no Brasil) e C4 (tem 25 anos e está há 4 anos no Brasil). Todos vieram para fazer um curso superior no país e precisaram estudar a língua em uma universidade antes. C1 é médica veterinária, C2 é estudante de engenharia, C3 é engenheira agrônoma e C4 é enfermeira.

  1. Análise
  • Uma identidade brasileira?

Ao responderem a primeira pergunta, “Por que você veio ao Brasil e como se sentiu logo ao chegar no país?”, de um modo geral, os colaboradores responderam que vieram para estudar. Entretanto, há a menção de querer conhecer o país. Para C1, sempre houve curiosidade em conhecer o Brasil. Trata-se de um movimento de atração pela “identidade brasileira”, como nos diz C3:

Como Brasil e conhecido como pais do futebol e de muitas belezas... tive curiosidades de sempre conhecer...ai surgiu a oportunidade e fui ao Brasil para estudar e conhecer (...)[8]”.

Quando C3 se refere ao Brasil com as escolhas lexicais “País do futebol” e “de muitas belezas”, percebemos o imaginário de uma identidade paradisíaca que tem o estrangeiro em relação ao país. Há aqui uma interdiscursividade, uma vez que tal discurso pode ser resgatado em outros contextos. Trata-se, também, do processo de “corte e colagem” (SILVA, 2000) que busca em outros discursos uma suposta identidade brasileira. Tal fato é evidenciado quando o sujeito enuncia “O Brasil é conhecido (...)”.  A curiosidade se dá por meio do contato com os discursos que tem o estrangeiro sobre o país.

Entretanto, ao se deparar com a diversidade cultural existente no Brasil, o aprendente do PB passa a perceber a complexidade das identidades que existem no país. Observemos a seguinte resposta de C2 quando relata uma experiência importante que marcou o aprendizado do PB para ele:

Uma experiência que marcou a minha aprendizagem do PB, foi quando eu viajei para o Recife, percebi que o sotaque das pessoas era muito diferente do de Belém. Isso me deixou mais curioso pra procurar entender a diversidade que existe no sotaque dos diferentes regiões do Brasil, o português formal e informal e o português antigo em que as pessoas falam expressões que já não se fala nos dias de hoje. Isso foi muito interessante para mim.

O enunciado acima revela o contato do sujeito com as diferentes identidades brasileiras evidenciadas em “a diversidade que existe no sotaque das diferentes regiões do Brasil”, “o português formal e informal” e o uso do “português antigo”. Nessa resposta, o aprendente mostra como teve de lidar com as diferentes identidades relacionadas aqui diretamente à língua. Ora, a língua promove um imaginário que se relaciona diretamente à identidade de uma nação. Entretanto, quando nos deparamos com as variações linguísticas e os diferentes registros, observamos como as identidades são diferentes dentro de um mesmo país. Nas palavras de Charaudeau (2015, p. 27):

Não são tanto as palavras na sua morfologia nem as regras de sintaxe que são portadoras de cultura, mas sim, as maneiras de falar de cada comunidade, as maneiras de empregar as palavras, os modos de raciocinar, de relatar, de argumentar para fazer rir, para explicar, para persuadir, para seduzir.

Ou seja, as identidades serão percebidas no discurso por meio das formas como as pessoas usam a língua em diferentes contextos sociais e culturais.

  • A identidade na presença do “outro”

Dissemos anteriormente que as identidades são sempre formadas na presença do “outro”, portanto, identidade e diferença são inseparáveis.

Em relação à primeira pergunta do questionário, no que diz respeito a como o estrangeiro se sentiu ao chegar ao país, foi unânime o uso de “choque cultural”. Por se tratar de um termo que pode ser aplicado a vários eventos, pedimos esclarecimentos aos colaboradores sobre tais escolhas lexicais. Eles apontaram “o modo de se vestir” e “perguntas pessoais invasivas” como exemplos desses choques. Nas palavras de C4,

No inicio me senti invadida ao ser questionada por todo mundo sobre tudo, até mesmo assuntos que eu considero pessoais, independentemente do local que eu estivesse, teria alguém querendo saber algo.

O enunciado de C4 revela uma identidade agredida pelo “outro” quando enuncia “invadida”. O olhar de curiosidade do “outro” revelado em perguntas pessoais ameaçou a identidade desses haitianos que já traziam todo um arcabouço cultural de seu país. Em esclarecimentos posteriores, C1 revelou que perguntar a idade, por exemplo, não é um traço da cultura haitiana. Portanto, a escolha lexical “invadida” nos mostra como a identidade cultural trazida pelo aprendente pode ser ameaçada diante da cultura do “outro” quando chega ao país para estudar a língua.

  • A identidade do aprendente face à língua-alvo

Já falamos anteriormente sobre a relação entre as identidades e a variações linguísticas. Importa-nos também ressaltar como o aprendente pode apresentar uma identidade ambivalente em relação à aprendizagem da língua-alvo. Observemos a seguinte resposta de C3 para a pergunta sobre a dificuldade ou não para aprender o PB:

Nao acho que foi dificil, porque usei muitas ferramentas e tive ajuda de outras pessoas ,cheguei ate a esquecer meu idioma nativo. Consegui comunicar bem, nao demorei muito, apenas o sotaque sempre foi meio carregado...

O enunciado acima nos mostra como o estrangeiro pode imergir na cultura do “outro”, como pode apreender este “outro” (CHARAUDEAU, 2015). Neste caso, C3 utiliza as escolhas lexicais “esquecer meu idioma nativo” para relatar essa imersão. Conforme dissemos anteriormente, a língua é uma das marcas de identidade do sujeito. Dessa forma, ao enunciar que esqueceu seu idioma nativo, podemos ter um certo sentimento de “perda de identidade”. Por isso, como nos diz Revuz (1998, p. 227), “Aprender uma língua é sempre um pouco tornar-se um outro”. Entretanto, ao mesmo tempo, C3 diz que “o sotaque sempre foi carregado” o que nos remete novamente a sua identidade haitiana. Mais uma vez a língua marca as questões indentitárias. No enunciado em foco, o sujeito, ao mesmo tempo em que imerge na cultura brasileira e esquece seu idioma, mantém traços de sua identidade por meio do sotaque.

  • O que traz a aprendizagem de um novo idioma

Aprender uma segunda língua pode ser uma experiência prazerosa e satisfatória. Ao responderem a última pergunta Como você se sente hoje em relação ao PB e ao Brasil?, os colaboradores haitianos utilizaram escolhas lexicais como “satisfeito” e “contente”. Nas palavras de C4:

Satisfeita, pois eu consigo conversar com qualquer um ou mesmo lendo um livro sem necessidade de consultar dicionário.

C4 enuncia a satisfação por meio de atividades de como conversar com qualquer pessoa e ler um livro em português sem precisar consultar um dicionário. O mesmo é evidenciado no enunciado de C1:

Gracas a Deus hoje sei mais um idioma, mas ainda tem muita coisa pra aprender e melhorar, isso fez com que me sinta realizada.

Ao enunciar que se sente “realizada”, C1 mostra como a aprendizagem pode trazer uma satisfação pessoal para o aprendente de uma segunda língua. Podemos notar a presença de uma nova identidade que traz confiança e mudança. Tal fato é notado na seguinte resposta de C2 depois destes quatro anos no Brasil:

Estando em sétimo semestre do meu curso na faculdade, tenho me aperfeiçoando muito na língua portuguesa brasileira, por estudar na mesmo, ler livros e artigos, fazer trabalhos acadêmicos e seminários. Hoje eu me sinto diferente do que como eu era quando eu cheguei no Brasil “um estrangeiro ignorante em relação ao PB”, eu tenho plena segurança quando eu me expresso em português. Em relação ao Brasil, eu me sinto infectado pelo carisma e a hospitalidade desse povo, eu me sinto encaixado mesmo que seja por um tempo limitado.

O enunciado acima nos mostra uma primeira identidade de C2 ao chegar ao Brasil, “um estrangeiro ignorante em relação ao PB” e uma outra posterior “eu me sinto diferente do que eu era”, o que evidencia como a aprendizagem de uma segunda língua e o contato com outra cultura pode promover o desenvolvimento de novas identidades.

  • Algumas Considerações...

A análise discursiva do questionário aplicado aos quatro aprendentes do PB nos mostrou como as identidades são fluidas e complexas no que diz respeito à aprendizagem de uma segunda língua.

Os sujeitos do discurso mostraram, a princípio, um desejo de conhecer o Brasil pela imagem que já tinham de uma “identidade brasileira” formada no interdiscurso.  Entretanto, ao longo do processo de aprendizagem, observaram a complexidade das identidades brasileiras reveladas por meio de choques culturais e da diversidade cultural e linguística do país.

Aprender uma segunda língua traz uma nova construção das identidades. Por isso, é necessário que o professor de Português como Língua de Acolhimento esteja também atento a essas construções no que diz respeito às diferenças entre as identidades trazidas pelo aprendente e as identidades locais. É importante também que o professor tente, na medida do possível, mostrar ao aluno estrangeiro o quanto as identidades se transformam dependendo da região e do grupo onde se está.

A formação da identidade sempre se dá na presença do “outro”, o que traz “choques” inevitáveis. É necessário dar voz a esses imigrantes para que possam expressar como se sentem nesse deslocamento indentitário.

 Por isso, é salutar também que o professor de Português como Língua de Acolhimento tente promover um ambiente mais acolhedor para os estrangeiros, diminuindo tal tensão e facilitando a aprendizagem para que assim, como disse C2, o aprendente se sinta “infectado pelo carisma e a hospitalidade desse povo”. As identidades serão sempre pontos de apego temporários assumidos em diferentes momentos pelo sujeito mas, como nos disse C2 em nossa pesquisa, é importante se sentir “encaixado mesmo que seja por um tempo limitado”. Tal temporalidade não deve excluir o estrangeiro aprendente do PB mas pode ser usada pelo professor para facilitar a aprendizagem da língua.

Referências

  • AMADO, R.S. O ensino de português como língua de acolhimento para refugiados. Revista da Sociedade Internacional Português Língua Estrangeira. Edição 7, Ano 4, Número 2, 2013. Disponível em: http://www.siple.org.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=70&Itemid=113. Acesso em: 09 maio 2017.
  • BAKHTIN, Mikhail (Volochínov). Marxismo e Filosofia da Linguagem. Tradução Michel Lahud & Yara Frateschi Vieira. 14. ed. São Paulo: Hucitec, 2010.
  • BAUMAN, Zigmunt. Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005a.
  • ______. Vidas Desperdiçadas. Tradução Carlos Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2005b.
  • BLOCK, David. The Rise of Identity in SLA Research, Post Firth and Wagner. The Modern Language Journal. Focus Issue, v. 91, p. 864-876, 2007.
  • CHARAUDEAU, Patrick. Identidade Linguística, Identidade Cultural: uma relação paradoxal. Tradução Clebson Brito e Wander de Souza. In: BARROS, Diana Pessoa de et al (org). Discurso e (Des) Igualdade Social. São Paulo: Contexto, 2015. p. 13-30.
  • FIORIN, José Luiz. Da necessidade da distinção entre texto e discurso. In: BRAIT, Beth; SOUZA-E-SILVA, Maria Cecília (org). Texto ou discurso? São Paulo: Contexto, 2012. p. 145-166.
  • HALL, Stuart. A Identidade cultural na Pós-Modernidade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva e Guaciara Louro. Rio de Janeiro, DP & A, 2004.
  • ______. Quem precisa da identidade. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Identidade e diferença: a perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 103-133.
  • REVUZ, Christine. A língua estrangeira entre o desejo de um outro lugar e o risco do exílio. In: SIGNORINI, Inês (org.). Língua(gem)e identidade: elementos para uma discussão no campo aplicado. Campinas: Mercado de Letras; FAPESP, 1998. p. 213-230.
  • SILVA, Tomaz Tadeu da. A Produção Social da Identidade e da Diferença. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 73-102.
  • VOA PORTUGUÊS. Número de imigrantes do Brasil cresceu 160 por cento em 10 anos. Disponível em:<http://www.voaportugues.com/a/imigrantes-brasil/3392603.html>. Acesso em: 15 jul. 2017.
  • WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: SILVA, Tomaz Tadeu da (org). Identidade e diferença. A perspectiva dos Estudos Culturais. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 7-72.


[1]
Ver: http://www.voaportugues.com/a/imigrantes-brasil/3392603.html . Acesso em: 20 ago. 2017.

[2]Dependendo do autor, há terminologias diferentes para se referir a nossa sociedade. Já foi mencionado aqui o termo “pós-modernidade”. O termo comumente usado por Bauman (2005a) é “Modernidade Líquida”. Não pretendemos fazer aqui uma discussão sobre a terminologia. Por isso, ficaremos com termo modernidade, considerando o fato de as identidades serem móveis e fragmentadas em nosso tempo.

[3]A diferença será aqui vista como “aquilo que separa uma identidade da outra, estabelecendo distinções, frequentemente na forma de oposições nós/eles.” (WOODWARD, 2005, p. 41).

[4]No caso do estabelecimento das identidades, os grupos que detêm o poder irão representar e definir uma certa identidade.

[5]Não pretendemos aqui analisar as definições do pós-estruturalismo. Para Block (2007), o pós-estruturalismo pode estar associado a uma variedade de questões, dentre elas, a centralidade da linguagem, dos discursos e dos textos nas pesquisas, o que se coaduna com nossa proposta de pesquisa.

[6]Uma vez que estávamos lidando com pessoas que não eram da área de Ensino/Aprendizagem de línguas, não fizemos aqui a diferença entre aquisição e aprendizagem para facilitar a compreensão das perguntas.

[7]No artigo de Block (2007), o autor aponta duas formas de construir histórias de aprendentes de uma segunda língua. A primeira seria através de relatos autobiográficos e outra seria por meio de pesquisa de campo e entrevistas. Admitimos que entrevistas pessoais e presenciais para maiores esclarecimentos das respostas dos colaboradores teriam apurado mais nosso trabalho, o que não nos foi possível, uma vez que os questionários foram respondidos por e-mail.  Entretanto, por meio de algumas redes sociais, conseguimos obter mais esclarecimentos das respostas para a primeira pergunta.

[8]Mencionamos as respostas da forma como elas foram escritas sem alterações.

 

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