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Receber ou Implantar Políticas de Ensino de Línguas Imprimir E-mail
Escrito por José Carlos Paes de Almeida Filho (Universidade de Brasília-UnB)   

1.      Situando políticas de ensino de línguas

Interessam-nos aqui dois pontos: primeiro, a localização da área de Políticas de Ensino de Línguas na grande operação de ensino e aprendizagem de línguas reafirmando pressupostos, e, segundo, delinearmos uma minuta de política para orientar e inovar o ensino de línguas nas escolas brasileiras.  O quadro da instrução escolar de idiomas, vamos resumir, é preocupante, possui especificidades importantes e sofre, em boa medida, com os males da educação como um todo. Os desígnios de uma política de ensino de idiomas no país estão inscritos como uma das cinco dimensões em que se discutem a formação e atuação de professores e aprendizes no contexto escolar e universitário. São elas (1) o contorno e raízes de uma tradição espontânea na forma de uma cultura de ensinar e aprender idiomas, (2) o confronto da tradição de crenças e memórias com uma teoria relevante de ensino de línguas e de formação de professores, (3) a interpretação da história de ensino e aprendizagem de línguas no país, (4) a construção de um código de ética orientador da profissionalidade e suas práticas e, (5) a operação de uma política de ensino de línguas, esta última objeto específico deste trabalho. Vejamos no gráfico a seguir os fatores incidentes na formação de agentes e ensino-aprendizagem de línguas.

                

Uma política de ensino de línguas poderia ser parte orgânica de uma política linguística, se houver uma instalada. Entendo por política linguística uma intervenção informada, deliberada e sistemática concebida e acompanhada por especialistas da área da Linguagem (linguistas e linguistas aplicados) nas questões afeitas à convivência entre línguas e o status relativo delas no espaço nacional. Arnoux (1999) reconhece que:

O estudo das políticas lingüísticas constitui um campo complexo em que a descrição e a avaliação de situações sociolinguísticas são estimuladas por necessidades sociais e, em grande medida, tende a propor linhas de intervenção”.  Por isso mesmo, aqueles que se interessam por política linguística “devem aderir a certos princípios políticos, éticos, ideológicos que vão orientar sua pesquisa e suas propostas” (Arnoux, 1999, p. 13).

O termo indica, portanto, uma operação sistemática e explícita para propor soluções consistentes e estáveis a problemas envolvendo línguas em contato num país ou região e tentar alcançar objetivos envolvendo o uso público de recursos em iniciativas institucionais. Os traços distintivos de uma política são (1) a intervenção, (2) a explicitude, (3) os fins políticos, sociais e econômicos, (4) a escolha entre alternativas e, (5) a institucionalização.  Uma intervenção dessa natureza costuma começar por tratar do status e das funções de uma língua ou mais línguas na sociedade de um país, de mudanças necessárias ou meramente de exercer influência no código de um idioma.

Segundo Bićanić (1967, apud RUBIN, 1971, p. 236), para se chegar ao plano de uma política linguística são recomendáveis ações em quatro estágios: o de levantamento de dados, a especificação da política propriamente dita, a implementação da política adotada e, finalmente, o da avaliação ou controle dos resultados.

O caso do Brasil ilustra bem a categoria de um país grande sem planejamento explícito regular, nomeado e deliberado de política geral de língua. Não é discernível igualmente uma política de oferta e gestão de idiomas no sistema escolar além da sua introdução e algumas providências básicas. Estou me orientando pelo texto de Bangbose (2003) para analisar o quadro brasileiro. Quando não há planejamento linguístico geral ou de suas partes, podem ocorrer instâncias de medidas e ações ocasionais que se acumulam por decisões pontuais motivadas por urgências e eventualidades. Isso acaba sendo a política que se tem no país.                                                            

Nosso grande interesse no campo das questões de Planejamento Linguístico diz respeito ao cenário da escola. No Brasil, não é de praxe tratar sistematicamente as questões de acesso à L nacional, o Português, a exceção de casos de grupos minoritários autóctones que ainda preservam suas línguas nas aldeias em sítios geralmente mais remotos, a educação bilíngüe (salvo em alguns pontos de fronteira), a luta por direitos lingüísticos de minorias, a escolha da língua que será o meio de instrução escolar, as questões da língua através do currículo (na interface com as outras disciplinas) e da oficialização do status de variantes nacionais do Português. Mesmo a questão estratégica de fortalecimento do uso do Português na vida nacional não tem merecido políticas, mas essa questão pode ser mais bem tratada por políticas de ensino de línguas no país, seja em contextos escolares, seja na cultura, na ciência e no âmbito do trabalho. Ocasionalmente podemos assistir a arremedos de propostas de ações de política linguística como no episódio mal colocado e mal resolvido dos estrangeirismos na língua portuguesa no Brasil ocorrido no Congresso Nacional na década passada.

2.      Planejamento linguístico e planejamento da oferta e do ensino de línguas

Planejamento linguístico e planejamento da oferta e do ensino de línguas são iniciativas relacionadas, mas não idênticas. O primeiro termo é mais abrangente e inclui o segundo.  Planejamento indica, como afirmamos antes, premeditação e explicitação de ideais e medidas concretas propostas na implementação de uma política aprovada. No âmbito do ensino de línguas em contextos escolares, para que ocorra aquisição de novos idiomas em condições otimizadas, recorre-se a um planejamento que pode ser oficial em nível de estado nacional ou regional, estadual, municipal ou institucional (escolas, redes particulares, empresariais, pessoais).

A Área de Aquisição com Ensino de Línguas precisa de ambos, política e planejamento, acoplando à deliberações de uma política as ações instauradoras e reguladoras ao nível da implementação. Não praticar isso implica perdas em vários sentidos: no desperdício de recursos, no atraso nacional pela incapacidade do manuseio de idiomas de contato internacional, nos negócios que não se consumam, na incompleta educação linguageira dos cidadãos, entre outros. Mas, há sempre espaço para adiantarmos ou, pelo menos, incentivarmos essas ações sem políticas e, em alguns casos, até para substituirmos o planejamento e as políticas oficiais. Tem sido assim no Brasil: não se paralisa, avançam-se medidas isoladas, mas os resultados podem ser muito menores do que os desejados e bem mais dispendiosos e lentos no cômputo final. Veja-se, por exemplo, as contorções para driblar as limitações nas línguas por parte de alunos universitários no Programas Ciência Sem Fronteiras desde 2004.

3.      Políticas pontuais           

Alguns casos de indução de pontos de uma política de ensino de línguas são possíveis, ainda que com resultados apenas parciais. Por exemplo, o governo já implementa, através de órgão específico, uma política de exames nacionais em massa no âmbito do INEP. Especialistas da área de AELin, via de regra mal representada nas questões de políticas,  se aproximam do órgão num jogo não muito previsível e oferecem possibilidades de melhoria da prova de línguas estrangeiras do exame nacional ENEM. Pode-se agir também através do emprego de recursos próprios para implantar a oferta de uma nova língua estrangeira em demanda nas escolas num outro país. A iniciativa privada pode atender a demanda por uma língua em que ocorre flagrante ausência de cursos dessa língua no sistema público. Por exemplo, os países sul americanos não criam sozinhos as condições para oferta do PLE nas escolas e de programas de licenciatura voltados para a formação inicial e continuada de professores dessa língua nas suas universidades. Muitas vezes o poder público e as universidades não avançam por si mesmas e há necessidade de associações e ativistas manterem a chama acesa até que algo coordenado possa ser implantado muitos anos depois. No caso das línguas estrangeiras, associações profissionais podem ajudar a manter o espírito profissional aceso por anos e décadas a fio até que sobrevenham medidas adequadas com a chancela oficial.

4.      Para uma política de ensino de línguas

Subsumidas no rótulo maior de política linguística, podemos agora reconhecer as seguintes modalidades ou categorias de planejamento de ações concernentes às línguas no país orientadas por governos e autoridades:

- a língua nacional e oficial do Estado, seu fortalecimento

  e sua gestão,

 

- as questões afeitas às línguas e culturas de etnias brasileiras

   no que se refere ao bilinguismo e apoio a línguas maternas minoritárias,

 

- a questão das culturas e línguas estrangeiras de grupos imigrantes

   minoritários,

 

- a questão das línguas estrangeiras inseridas no sistema

   escolar e universitário (o Inglês e o Espanhol),

 

- a questão da língua nacional ofertada no país e no mundo como língua

   estrangeira e língua segunda ( o Português Língua Estrangeira ou Língua

   Segunda),

 

- as questões lingüísticas do Português tratadas em âmbito supranacional na

   CPLP e no IILP e os projetos de cooperação intrabloco.

Alguns desses temas aparecem na primeira coletânea de estudos de que temos registro publicada no Brasil com organização da linguista paulista Eni Pulcinelli Orlandi, da Universidade Estadual de Campinas: Orlandi (1988). Vamos assumir aqui que uma política completa de ensino de idiomas deve se dirigir a pelo menos sete questões ou perspectivas.  Vejamos essa configuração no gráfico a seguir.

No importante documento denominado Carta de Pelotas, que reproduzimos como apêndice a este texto, estão definidos de modo premonitório pelo corpo profissional conclamado pela Associação de Linguística Aplicada do Brasil (ALAB) os pontos constitutivos de uma agenda programática de tópicos, os seus sentidos afirmativos e balizadores para compor uma futura política de ensino de línguas no país. Trata-se do texto denominado "Carta de Pelotas", produzido a partir de discussões levadas a cabo no II Encontro Nacional de Política Lingüística (II ENPLE) ocorrido na Universidade Católica de Pelotas(RS) em novembro de 2000. Esse evento se configura como sui generis no cenário de eventos brasileiros de Linguística Aplicada por voltar-se exclusivamente para as questões macro-constitutivas de uma anunciada ou pretendida política alicerçadora das decisões e ações para todo o ensino de línguas no Brasil.

A peça resumidora das decisões a que chegaram os participantes é precedida de uma seção de considerandos que tece os antecedentes e pressupostos básicos a partir dos quais as proposições são depois levantadas, após terem sido discutidas e finalmente aprovadas em sessão plenária ao término do evento.  A carta se reveste de especial importância por conter um diagnóstico global arguto da situação do ensino de línguas nas escolas brasileiras traçado por profissionais experientes e graduados do ensino de línguas de todo o país atrelados aos mais diversos contextos e níveis, da escola pública às escolas de línguas, do ensino fundamental ao de pós-graduação.

A discussão e divulgação do teor da Carta precisa se dar no plano dos gestores públicos, mas também na esfera profissional das escolas e nos bancos formadores das licenciaturas nas universidades. O texto poderá perfeitamente se prestar à leitura solitária dos professores e demais profissionais da educação, à leitura para discussão grupal em reuniões de professores, semanas de planejamento, sessões de estudo por membros de grupos espontâneos de professores em formação continuada, em classes de alunos de Letras, principalmente de licenciandos, e por professores em jornadas, seminários e congressos científico-profissionais. Neste documento, seu teor é levado em conta para as proposições a serem colocadas.

Seguem ideias iniciais para o início das discussões sobre uma Política de Ensino de Línguas para o País. Elas se apresentam sucintamente nesta seção no formato de dez pontos para com eles compor uma política de ensino de línguas para o país. Fica pressuposto um coordenador geral constituinte e um Comitê Assessor de seis membros para a fase inicial de desenho de uma Política a ser submetida à apreciação da Comunidade Profissional e de Pesquisadores ao ser concluída a fase no período de sessenta dias aproximadamente.

1.                 A Política de Ensino de Línguas será coordenada pelo MEC (SEB, SESU e INEP) através de dois mecanismos: (a) uma Câmara de Conselheiros Especialistas da Área de Aprendizagem e Ensino de Línguas Estrangeiras nas escolas brasileiras e de Português como Segunda Língua e Língua Estrangeira e (b) um Assessor Técnico Especialista do quadro de funcionários de carreira do MEC, designado especialmente para acompanhar e cobrar a formulação e implementação da Política aprovada para a área.

2.                 Um Plano Geral, talvez decenal, para orientar as realizações e providências escalonadas a longo, médio e curto prazos. Do Plano constam as Línguas de Oferta nas escolas, incluindo os Centros de Ensino de Línguas onde houver essa rede, os tempos de estudo, e a orientação metodológica para estimular a aquisição de uma capacidade de uso da nova L e cultura(s) associada(s), incluindo-se as tecnologias digitais.  A esse Plano se agregarão documentos específicos de orientação que comporão o conjunto dos dispositivos de formulação da nova política de gestão da excelência nas línguas. São eles

2.1.           Um plano para melhoria crescente dos livros didáticos nacionais;

2.2.           A definição de níveis finais de aquisição que podem ser progressivamente atingidos;

2.3.            A introdução de exames nacionais de proficiência nos diferentes níveis para alunos e professores;

2.4.           Um plano de formação continuada de professores em exercício e de aperfeiçoamento de aprendizes no trato da aquisição das línguas;

2.5.           Um plano de aperfeiçoamento permanente do instrumental de linguagem na língua-alvo para professores no país e no exterior;

2.6.           Um plano de carreira valorizador do trabalho com bons resultados e não apenas do tempo de serviço em si mesmo;

2.7.           Um plano orientador de boas práticas nas escolas de línguas e centros binacionais; e

2.8.           Diretrizes para a formação inicial de professores das línguas nos Cursos de Licenciatura.

 

5.      Concluindo

Estabelecer políticas tem a ver com visão de país, com projeto nacional e com capacidade de gestão. Políticas não são obras de políticos na política partidária nacional. Políticas são projetos discutidos, aprovados com detalhamento e dotados de meios ou recursos para serem levados a bom termo. Neste artigo propusemos que uma política de ensino de línguas tem suas peculiaridades e é muito distinta de política linguística ou planejamento linguístico. Mostramos ao longo do texto as partes ou aspectos que configuram uma política de ensino de idiomas num país.

Uma política resulta de uma decisão tomada em alguma instância de poder a que se faculta lançar chamada para que se constitua uma equipe com diretrizes. Um plano de metas pode escalonar iniciativas em etapas numa ordem que seja orgânica e factível para o orçamento. Metas de curto, médio e longo prazos são uma estratégia racional para avançar em mais de uma frente simultaneamente ou numa sequência mais ágil.

O conhecimento da História do Ensino de Línguas no país será instrumental para a proposição de políticas e sua argumentação.

Bibliografia

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  • ______. Política de Ensino de Línguas no Sul da América. Anais do Seminário Educação Sem Fronteiras. Foz do Iguaçu, Secretaria de Estado da Educação do Paraná, 1993.
  • ALMEIDA  FILHO,  J.  C.  P.  et  alii.  Representação do Processo e Aprender no Livro Didático Nacional de Língua Estrangeira Moderna no 1º Grau. Campinas, Trabalhos em Lingüística Aplicada, (17): 67-97, Jan./Jun., 1991.
  • BOHN, H. I. Os aspectos políticos de uma política de ensino de línguas e literaturas estrangeiras, Linguagem & Ensino, Vol. 3, No. 1, 2000 (117-138)
  • CALVET, L. As políticas Linguísticas, São Paulo: Ipol/Parábola, 2007
  • CASTRO, F. T. de  História do Futuro: Diagnóstico e perspectivas de Políticas Públicas para o Ensino⁄Aprendizagem de PLE-PL2 no Brasil do século XXI. Dissertação de Mestrado em Linguística Aplicada, PPGLA, UNB, Brasília, 2013.
  • Comissão  de  Avaliação  de  Reformulação  do Ensino de Língua Estrangeira Moderna do Estado de São Paulo. 'Proposta de linhas gerais para nortear uma política de ensino de língua estrangeira  moderna na rede oficial de 1º Grau'. São Paulo: Secretaria do Estado de São Paulo, 1987. Reproduzido em Trabalhos em Lingüística Aplicada, (10):103-119, Jul./Dez. 1987
  • MARTINS  DA  COSTA, D. N.  Por  que Ensinar  Língua  Estrangeira na Escola de 1º Grau. São Paulo: EDUC e EPU. 1987.
  • MOITA LOPES, Luiz Paulo. 'Alguns comentários sobre o documento "Proposta de Linhas Gerais para Nortear uma Política de Ensino de Língua Estrangeira Moderna na Rede Oficial de 1º grau" elaborado pela Comissão de Avaliação e Reformulação do Ensino de Língua Estrangeira Moderna do Estado de São Paulo'. Trabalhos em Linguística Aplicada, (10): 99-102, Jul./Dez. 1987.
  • RUBIN. J.; Björn, J. Can Language be Planned? Hawaii: University Press of Hawaii, 1971

 

APÊNDICE 1

Documento Síntese do II Encontro Nacional sobre
Política de Ensino de Línguas Estrangeiras

CARTA DE PELOTAS

Os participantes do II Encontro Nacional sobre Política de Ensino de Línguas Estrangeiras - II ENPLE, realizado na Universidade Católica de Pelotas, RS, de 4 a 6 de setembro de 2000, compreendendo professores do ensino fundamental, médio, pós-médio, universitário, autoridades educacionais e representantes de associações de professores de línguas, após analisar, em assembléia, os problemas do ensino de línguas no Brasil, reiteram o documento elaborado durante o I ENPLE, realizado em novembro de 1996, em Florianópolis, SC, e consideram que:

·        todo cidadão brasileiro tem direito de ser preparado para o mundo multicultural e plurilíngüe por meio da aprendizagem de línguas estrangeiras;

·        há um anseio da sociedade contemporânea em adquirir o conhecimento lingüístico necessário para interagir com o mundo intra e além fronteiras;

·        a sociedade brasileira não deseja o monopólio de um idioma estrangeiro;

·        a aprendizagem de línguas não visa apenas a objetivos instrumentais, mas faz parte da formação integral do aluno;

·        o aluno tem direito a um ensino de línguas de qualidade;

·        o ensino regular não tem sido capaz de garantir o direito à aprendizagem de línguas, direito esse que acaba sendo usufruído apenas pela camada mais afluente da população;

·        a falta de professores e a falta de capacitação de muitos professores não têm permitido atender às necessidades do país em termos de uma aprendizagem de línguas de qualidade;

·        há direitos e deveres na formação contínua de professores para que reflitam e eventualmente reconstruam sua própria ação pedagógica;

·        a Lingüística Aplicada, concebida como área de domínio próprio que visa ao estudo de aspectos sociais relevantes da linguagem colocados na prática (relações sociais mediadas pela linguagem, ensino de línguas, tradução e lexicografia/terminologia);

·        as autoridades educacionais e governamentais não compreendem e nem reconhecem a complexidade  e a importância do ensino de línguas na educação;

·        há profissionais e especialistas no país no ensino de línguas com competência para conceber e implementar projetos regionais e nacionais de inovação curricular ou de formação profissional.

Propõem  que:

·        sejam elaborados planos de ação para garantir ao aluno o acesso ao estudo de línguas estrangeiras, proporcionado através de um ensino de qualidade;

·        seja incentivado o estudo de mais de uma língua estrangeira;

·        a língua estrangeira tenha o mesmo status das disciplinas do núcleo comum;

·        o estudo da língua estrangeira seja gradualmente estendido às séries iniciais do ensino fundamental;

·        as línguas estrangeiras a serem incluídas no currículo sejam definidas pela comunidade na qual se insere na escola;

·        se criem e se mantenham centros de ensino público de línguas sem prejuízo da inserção já garantida das línguas estrangeiras nas grades curriculares das escolas;

·        haja pluralidade de oferta de línguas nos processos de acesso ao ensino superior;

·        sejam valorizados os conhecimentos especializados produzidos por pesquisadores brasileiros na concepção e execução de projetos regionais e nacionais;

·        se aprofundarem estudos, publicações e ações implementadoras nas áreas de novas tecnologias e ensino a distância;

·        se explicite, através de ampla discussão dentro na ALAB, a constituição de um perfil do profissional de ensino de línguas;

·        sejam incluídos nos currículos dos cursos de Letras conteúdos que contemplem com destaque as áreas de Lingüística Aplicada e Ensino de Português como Língua Estrangeira;

·        se constituam no âmbito da Associação de Lingüística Aplicado do Brasil, Comissões para discutir a avaliação de línguas estrangeiras e interferir na política de implementação dos exames nacionais de ensino básico e superior e na política de criação e avaliação de Cursos de Letras nos níveis de graduação e de pós-graduação;

·        as autoridades brasileiras que atuam junto ao Mercosul exijam reciprocidade para o ensino do Português como Língua Estrangeira no mesmo nível das iniciativas do ensino do Espanhol no Brasil;

·        sejam oferecidas oportunidades para o ensino bilíngüe em comunidades cujos membros façam uso constante de outras línguas  que não o Português;

·        sejam criados planos e projetos para a qualificação e formação contínua de professores no âmbito dos estados e municípios;

·        sejam elaborados e projetos de integração entre as escolas, Secretarias de Educação e Universidades para a educação contínua de professores;

·        sejam garantidas soluções que permitam o afastamento temporário do professor da sala de aula ou redução de carga horária para a formação contínua, inclusive para a participação em eventos;

·        a profissão seja exercida exclusivamente por pessoas legalmente habilitadas, incluindo a contratação de professores pelos cursos particulares de línguas;

·        haja prova específica de proficiência no uso da língua em concursos para admissão de professores de línguas;

·        as Secretarias Estaduais e Municipais de Educação fiscalizem e coíbam a terceirização do ensino de línguas estrangeiras nas escolas públicas e particulares de ensino regular;

·        os professores das diferentes línguas dinamizem as atividades das associações já existentes e incentivem a criação de novas associações, no âmbito dos estados, que representem os profissionais e promovam sua formação contínua;

·        se promova a melhoria salarial do professor.

(Comissão de redação: Profs. Maria Helena Vieira Abrahão (Universidade Estadual Paulista em Rio Preto, José Carlos Paes de Almeida Filho (Universidade de Brasília) e Hilário I. Bohn (Universidade Católica de Pelotas))

Moção aprovada na mesma sessão:

Nós, lingüistas aplicados e professores de línguas, reunidos neste II Encontro Nacional sobre Política de Ensino de Línguas Estrangeiras para discutir os caminhos do ensino das línguas estrangeiras e da língua portuguesa como língua não-materna, considerando a condição estratégica da preparação de professores para o ensino do Português, a língua nacional, como Língua Estrangeira, vimos reafirmar a urgência da inclusão de conteúdos de Ensino de Português - LínguaEstrangeiras nos cursos de Letras com o fim de sensibilizar e iniciar profissionais do ensino de línguas nesse campo de trabalho.

Pelotas, 6 de setembro do ano 2000.

 

APÊNDICE 2
CARTA DE LONDRINA

Nós, pesquisadores, professores e estudantes em formação na área da linguagem, preocupados com questões de ensino-aprendizagem de línguas e da formação de agentes, reunidos neste primeiro Forum da Profissionalização Docente, nos dias 29 e 30 de setembro de 2014, na Universidade Estadual de Londrina, temos as seguintes considerações a fazer e decisões a reafirmar, a partir das análises e projeções de especialistas e participantes reunidos nesse evento.

Considerando que

 - no sentido da profissionalização, os estudos e pesquisas brasileiros têm focalizado de modo proeminente as teorias de formação e de ensino-aprendizagem de línguas e de modo insuficiente a história, políticas e ética profissional;

- há um caráter desafiador e complexo na prática de formação e ensino de línguas nas escolas;

- teorias formais e informais não bastam para se atender essa complexidade desafiadora, carecendo de aportes da história, das políticas de ensino de línguas e da ética profissional;

decidimos

(1) que a História do Ensino de Línguas precisa ser um componente curricular nos cursos de licenciatura para a formação de novas gerações de professores;

(2) garantir na formação a discussão de critérios de escolha de livros didáticos para o universo do ensino básico;

(3) demandar a elaboração de uma política educacional para o ensino de línguas estrangeiras para educação infantil, básica, universitária e tecnológica, com a participação das comunidades envolvidas nesses contextos;

(4) é urgente que se criem condições para que programas de pós-graduação, no âmbito do ensino de línguas, fomentem pesquisas que formem o professor pesquisador e o especializem para uma atuação transformadora em seu contexto de trabalho;

(5) reivindicar que se reconheça nas agências financiadoras a área aplicada que nos congrega, distinta em objeto e metodologia de pesquisa, das irmãs epistêmicas da Linguística e Teoria Literária e despoderizada, acarretando sérios prejuízos para a escolarização;

(6) incluir na agenda da política de avaliação nacional a discussão da produção de exames de proficiência em línguas estrangeiras para professores e alunos, instrumentos esses elaborados pela própria comunidade científica nacional;

(7) criar condições para a instituição de um código nacional de ética profissional para ensino de línguas, garantir a ética profissional por meio de mecanismos adequados e a ética na pesquisa em disciplinas ou atividades nos currículos dos cursos da área da Linguagem (Letras).

Texto aprovado em plenário pelos participantes do evento I FORUM DA PROFISSIONALIZAÇÂO DOCENTE NO ENSINO DE LÍNGUAS/ HIISTÓRIA, POLÍTICAS E ÉTICA

Equipe de redação: José Carlos Paes de Almeida Filho( Universidade de Brasília), Simone Reis (Universidade Estadual de Londrina) e Laura Mícolli (Universidade Federal de Minas Gerais).

Londrina, 30 de setembro de 2014.

 

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