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Resenha de livro Imprimir E-mail
Escrito por Joselita Júnia Viegas Vidotti – Universidade de Brasília   

CORREA, Djane. (Org.) Política linguística e ensino de língua. Campinas, SP: Pontes Editores, 2014.

Resumo:

A coletânea trata de temas relevantes no ensino de línguas, qual sejam, a dimensão multilíngue e multicultural; língua e sua função social; pedagogia da escola pública; conteúdos para a formação inicial e continuada; discursos hegemônicos de língua; implicações políticas de ser professor; atos de fala na educação e recursos sociolinguísticos.

Palavras-chave: política linguística; ensino de língua, formação de professores.

Abstract:
The collection deals with important issues in language teaching, which are the multilingual and multicultural dimensions; language and its social function; public school pedagogy; content for the initial and continuing education; hegemonic discourses of language; political implications of being a teacher; speech acts in education and sociolinguistic resources.

Keywords: language policy; language teaching; teacher training.

 

Considerações preliminares

Djane Antonucci Correa dedica-se aos estudos críticos da linguagem escrita em âmbito transdisciplinar e reúne nessa obra elementos essenciais para provocar a discussão e possíveis encaminhamentos sobre ensino de língua na atualidade no âmbito da política linguística e ensino de língua. A professora defende que o conhecimento e reflexão dos processos históricos, socioculturais e linguísticos que envolvem a constituição das línguas e das práticas de linguagem propiciam maior autonomia para propor estudos, pesquisas, discussões e encaminhamentos pedagógicos, nos campos científico, social e educacional.

Estrutura da Obra

A questão política na língua, na sua forma e na sua função, é o tema abordado por essa obra, cujas linhas abastecem oito capítulos e que trazem em seu bojo discussões acerca do papel da linguagem escrita culta; as atuais exigências para o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras; as práticas linguísticas do português, considerando suas variações; os diversos aspectos multilíngues e multiculturais e questões curriculares.

No Capítulo 1 – Por que os professores de língua estrangeira precisam ter uma perspectiva multilíngue e o que isto significa para sua prática de ensino[1], Kramsch defende que a natureza multilíngue e multicultural das sociedades tem se tornado mais visível nas salas de aula de línguas em virtude da globalização e mobilidade das pessoas, produtos e capital.

De início, vem-nos à mente que, no Brasil, essa natureza multilíngue não se reflete nas salas de aula da forma como a autora descreve: “as salas de aula de língua são hoje compostas de alunos que não necessariamente compartilham uma língua nacional comum e que falam uma variedade de segunda língua, língua de imigrantes ou de tradição”.  Apesar de multilíngue – no sentido de que há 274 línguas indígenas no país – sem falar nas línguas de imigração, o Brasil tem a língua portuguesa como língua nacional comum, compartilhada pela maioria dos brasileiros.

Todavia, a autora também argumenta que essa natureza multilíngue não apenas exprime o domínio de outro código linguístico, mas também diferentes perspectivas, educação e uma nova forma de socialização, hoje possibilitadas pela Internet, produzindo novos significados de comunicação, língua e cultura manifestados nos blogs, chats, facebook, youtube etc. O sujeito multilíngue, segundo a autora,  deve ser adotado como nosso ideal, o aluno que utiliza a tradução para compreender diferenças de significado, mentalidade e visão de mundo, aquele que ‘opera entre as línguas’ a fim de adquirir ‘competência translinguística e transcultural’. Diante disso, destaco a proposta da autora de se ensinar línguas sob uma perspectiva multilíngue (e consequentemente multicultural)  e ‘desterritorializada’ que se manifesta nas mentes dos alunos e professores e, por conseguinte, nas salas de aula de línguas e as possíveis nuances pedagógicas inerentes a essa mudança de mentalidade.

Nas seções subsequentes, a autora propõe modos e indica caminhos para se desenvolver a perspectiva multilíngue nas práticas de ensino: sensibilizar os alunos à escolha estilística e às traduções (compreendidas como transferências interculturais dos significados) através dos códigos linguísticos, estruturas de discurso, mídias e modalidades.

Práticas linguísticas e ensino de língua: variáveis políticas, de Djane Antonucci Correa, toca numa questão da maior urgência, que são as práticas políticas nas questões linguísticas.  A autora defende que o professor precisa compreender de maneira clara e objetiva as diversas formas nas quais se configuram as práticas linguísticas, língua e função social da língua, para que ele possa lidar com as situações sociolinguisticamente complexas. Uma das variáveis políticas é a noção de língua imaginária (língua idealizada), resultada dos processos de colonização, que faz com que o professor ‘imagine’ que a língua portuguesa, por exemplo, é única, desconsiderando suas variações. Em seguida, a autora tece considerações sobre a relação entre política linguística e prática escrita, salientando o caráter prescritivo (político) da primeira repercutindo na segunda e chama a atenção para a responsabilidade de todos os profissionais pela prática escrita, base sobre a qual são construídas as identidades de professores e alunos. Na direção de Kramsch, Correa propõe o rompimento com os modelos tradicionais centrados na transmissão de conhecimento, seja na dinamização dos currículos de Letras, seja na formação continuada. Conclui com a asseveração de que pensar e repensar sobre linguagem é uma forma de fazer política, assim como o é o pensar e agir. Por fim, enfatiza que é necessário compreender as estruturas sociais, culturais, históricas e políticas que sustentam as línguas, sendo a escrita “uma forma de exercitar o pensamento, a reflexão crítica e cumprir sua função social que é estabelecida politicamente”.

O capítulo 3, Ensino da Língua na Escola Pública, de Eleusa Neves de Alencar Jabur, trata da questão da escrita e os desafios que a sua produção exige, sendo um deles a falta de oportunidades para o aluno produzir um texto oral ‘elaborado’,  dificuldade que se reflete na produção escrita, agravada pela disseminação das propriedades singulares da escrita virtual.  A autora propõe rever a política do ensino da língua por meio de uma prática pedagógica mais adequada às necessidades do aluno do século XXI, qual seja, um procedimento dinâmico que o permita ‘operar sobre a língua’ e desenvolver sua competência comunicativa. A autora defende a aquisição da norma culta como um direito do aluno, por se tratar de uma questão política de justiça social; propõe a quebra de mitos que perpetuam a ideia de que aprender Português é muito difícil, que é preciso ter ‘dom’ e ‘criatividade’ para escrever, e sugere uma didática estimuladora, por meio de estudo reflexivo e contextualizado, com a qual o professor  intervém na escrita do aluno acrescentando hipóteses e sugerindo novas possibilidades, apresentando diversos gêneros, auxiliando-o na descoberta do prazer pela leitura.

Em Políticas linguísticas na formação do licenciado em Letras: uma discussão  introdutória – temática escolhida por Letícia Fraga para eixo do Capítulo 4, são expostas questões afetas à formação inicial e continuada do licenciado em Letras em contextos sociolinguisticamente complexos. A autora ancora-se em Kramsch para tratar da natureza multicultural do ambiente de sala de aula de língua, exemplificando com suas próprias experiências de tentar lidar com o ‘novo’ em cenários sociolinguisticamente diferentes, provocando reflexões acerca do papel do curso de licenciatura em Letras.  Os ambientes narrados pela autora incluem alunos de vários países, particularidade vista pela autora como oportunidade de conviver e aprender com estudantes-convênio, indígenas, alunos oriundos de colônias de imigrantes, incluídas aí  variedades da língua portuguesa. Nesses contextos, constatou-se que muitos professores pareciam estar desconfortáveis com o fato de que muitos alunos falavam ‘outro Português’,  revelando uma visão homogênea da língua, uma língua imaginária, estática, prescritiva. Por esse motivo, a autora focaliza e insiste na urgência de formar professores de língua que concebam seu objeto de estudo a partir de uma dimensão política, e sugere a oferta de uma disciplina dedicada à temática sobre políticas linguísticas. Em seguida, apresenta um panorama dessas disciplinas já em curso em universidades brasileiras, mesmo que ainda incipiente, e sugere mudanças nas propostas das disciplinas para que sejam espaços de discussão. Por fim, a autora elenca tópicos que julga essenciais para os conteúdos para a formação inicial e continuada, sob o prisma da política linguística.

Hegemonias, contradições e desafios em discursos sobre língua no Brasilé a problemática discutida por Joana Plaza Pinto no capítulo 5. 

Segundo a autora, os discursos sobre língua no Brasil são hegemônicos, ou seja,  constroem performativamente consensos, que operam o contexto prévio da ideologia nacionalista e monolíngue, e isso decorre de políticas linguísticas fixadas desde a chegada dos portugueses ao Brasil e que se estenderam pelo século 19, que é o caso da língua portuguesa e sua regulação. Todavia, tais discursos não são estáticos e estão expostos a deslocamentos e enfrentam nas práticas identitárias contemporâneas “forças contrárias à sua estabilização” (o consumismo e a textualidade digital), ameaçando a linearidade da escrita ao mesmo tempo em que persistem na escrita monolíngue padronizada. Por fim, a autora aponta um dos caminhos para enfrentar essa ideologia monolíngue que é nos perguntarmos: o que significa hoje falar ou escrever em língua portuguesa?

Em O Professor de línguas e a suma importância do seu entrosamento na política linguística do seu país, Rajagopalan traz à tona questão de suma importância. Para o autor, a dimensão política (felizmente) vem conquistando espaço nas discussões sobre ensino de línguas, tanto materna quanto estrangeira. Historicamente, o poder político não apenas legislou sobre a forma da língua como também interveio na função das línguas na sociedade, denominadas política de corpus e de status respectivamente (CALVET, 1996). Essa política descendente (intervenção do Estado) possui desdobramentos que, segundo Rajagopalan, são capazes de ‘remoldar’ a pessoa que aprende uma língua.  São, portanto, consequências duradouras de uma ação concreta que muda os rumos do ensino. Daí a importância do entrosamento do professor na vida linguística de seu país, no sentido de tentar influenciar a tomada de decisões. O  ensino de língua como um desdobramento da política linguística é, portanto, uma questão política (VIDOTTI, 2012) e o entrosamento do professor, proposto por Rajagopalan, vai muito além do direito e responsabilidade de saber as implicações políticas de ser professor (digo, linguista), mas diz respeito a buscar e exercer o seu papel na conduta da política linguística de um país.

A pragmática encontra lugar no capítulo 7, intitulado Pragmática e educação: um olhar sobre documentos oficiais e seus atos de fala, escrito por Sandra Helena Dias de Melo, que estampa na primeira página: “fazer linguística é fazer política também”. A autora traz para o espaço de discussão sobre a escola pública os atos de fala que circundam a educação. Primeiramente, alicerçada na pragmática Austiniana e leituras de Rajagopalan (1990; 2010), a autora discorre sobre atos de fala, que dizem respeito a como a língua age performativamente, ou seja, no ambiente que motivou seu uso.  Em seguida, tece considerações acerca dos dizeres em torno da escola pública, afirmando que muitas vezes o professor não possui clareza sobre qual seja o objeto de ensino e como suas práticas podem auxiliar na mudança social. Inicia a discussão tendo como recorte documentos oficiais do ensino público, ancorada numa leitura contra-hegemônica da pragmática dos atos de fala, analisando dois eixos que fundamentam o documento: o paradigma da solidariedade  e as competências, sendo o primeiro voltado a uma aprendizagem relacional, crítica, situada e conjunta, enquanto que o segundo remete à finalidade do estudante. Para a autora, as noções de consenso discursivo (escola pública como lugar de desprestígio) devem ser polemizados, podendo ser a escola pública pensada como um espaço público para a formação humana, posto que a sala de aula é espaço de luta.

O capítulo Uma Crítica sobre Língua, Lingualização e Supervernáculo, de autoria de Sinfree Makoni, fecha a obra aqui resenhada. Nele o autor aborda a questão da nomeação das línguas e as ideologias possíveis ao se referir a elas. Partindo da noção de lingualização (construção de significados e conhecimentos sobre a língua), à luz dediversos teóricos, Makoni defende que a língua não se apresenta para estudo como uma cadeia de fenômenos homogêneos claramente isolados. Em seguida, apresenta algumas noções de supervernáculo como, por exemplo, “o uso disseminado dos recursos sociolinguísticos que não estão limitados à fixidez do território” como as mensagens de texto em celular e outros os códigos, mas que são baseados em noções convencionais de língua e, desse modo, as convenções da linguística tradicional são reintroduzidas na análise. O autor salienta que a noção de supervernáculo é ‘extremamente complicada’, talvez pela própria definição de vernáculo na sociolinguística e, por fim,  lista algumas categorias que estão se tornando um subcampo da sociolinguística e que merecem uma leitura aprimorada.

Finalizando

Entre as ideias principais destaco a discussão da dimensão política nas questões de língua em ambientes multiculturais e sociolinguisticamente complexos, a globalização como reivindicadora de ajustes e deslocamentos do olhar; a urgência da visão de língua heterogênea. Embora nutrida de reflexões sobre as práticas políticas nas questões de linguística, a obra silencia-se diante da questão das práticas políticas no âmbito da Linguística Aplicada, que é o caso, por exemplo, do ensino do Português do Brasil como Segunda Língua, com suas singularidades; do ensino de línguas estrangeiras como política linguística, tema tão bem sublinhado por Rajagopalan, já que é um braço da política linguística de status, no âmbito dos currículos das escolas e universidades. O mérito da obra está em reunir peças de um quebra-cabeças chamado Política Linguística e Ensino de Lingua, direcionando os holofotes para a dimensão política que circunda as questões afetas ao universo da língua e seu ensino. 

Referências

  • CALVET, L. (1996). As Políticas Linguísticas. Trad. Isabel Duarte, Jonas Tenfen, Marcos Bagno.Florianópolis-São Paulo: Ipol-Parábola, 2007.
  • VIDOTTI, J. Políticas linguísticas para o ensino de língua estrangeira no Brasil do século XIX, com ênfase na língua inglesa. 2012. Tese (Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês). Universidade de São Paulo.


[1]
KRAMSCH, Claire. Why Foreign Language Teachers need to have a multilingual outlook and what that means for their teaching practice. Tradução de Silvana Aparecida Carvalho do Prado. Muitas Vozes, Ponta Grossa, v.1, n.2, p.181-188, 2012.

 

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