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Língua de Herança: Estratégias na Aquisição da Língua dos Pais Imprimir E-mail
Escrito por Maria Jandyra Cavalcanti Cunha (Universidade de Brasília – UnB)   

Resumo

Neste artigo, a partir da história de vida de um brasileiro imigrante em Trinidad e Tobago, analiso as estratégias por ele usadas para legar a seu filho o português do Brasil como língua de herança.

Palavras-chave:língua de herança, aquisição simultânea e aquisição sucessiva

Introdução

Este artigo é produto de um estudo etnográfico realizado sobre língua, identidade e migração com brasileiros na ilha de Trinidad, a maior das duas grandes ilhas que compõem a República de Trinidad e Tobago, no Caribe inglês.[1]

Além da observação em campo dos eventos comunicativos que envolveram os sujeitos da pesquisa, colhi suas próprias narrativas sobre suas trajetórias emigratórias do Brasil a Trinidad e Tobago.

O recurso metodológico da história de vida foi utilizado na sistematização das narrativas. Estas foram desencadeadas a partir do que o sociólogo Roger Bastide (1953: 4) identificou como “técnica da liberdade”, com perguntas iniciais, abertas, formuladas pela pesquisadora.

Neste artigo, discuto brevemente o conceito de ‘língua de herança’. Em seguida, reconstruo a história de vida de um dos brasileiros pesquisados, a quem convencionei chamar João. Logo, identifico as estratégias utilizadas por João para desenvolver o português do Brasil em seu filho, uma criança de 8 anos. No final, teço algumas considerações sobre o caso estudado.

Língua de Herança

Situando a subárea de Português como Língua de Herança (PLH), ALMEIDA FILHO (2010) afirma ser ela “uma especialidade de PLE (Português como Língua Estrangeira)” que “se caracteriza como um contexto em que o Português e a cultura (brasileira, no nosso caso) são ensinados a filhos de brasileiros imigrados no exterior”.

Em termos biológicos, a herança é um conjunto de caracteres genéticos hereditariamente transmitidos. Em termos jurídicos, é uma sucessão de bens, direitos e obrigações transmitidos por disposição orçamentária ou por via de sucessão.

Embora a herança linguística não seja uma hereditariedade genética ou jurídica, ela é também uma sucessão de bens, um legado proveniente de gerações anteriores.  Em verdade, a língua é uma herança jacente. A herança jacente é aquela que não é necessariamente aceita quando aberta, mas que, ao mesmo tempo, não é repudiada nem ainda declarada vaga. No campo jurídico, se uma herança for declarada vaga, ela será transferida para o Estado.

Podemos transferir essa conceituação jurídica para o campo linguístico e, simbolicamente, afirmar que a chamada ‘língua de herança’ é um bem herdado dos pais pelos filhos. Esse bem pode ou não ser aceito pelos herdeiros. Ou seja, dependendo das circunstâncias, a língua dos pais pode ou não ser desenvolvida pelos filhos. Se não o for, abre-se uma vacância.

Não diferentemente da situação jurídica, a vacância pode ser também ocupada pelo Estado. Assim, no caso da não aquisição da língua de herança, a língua do Estado em que os filhos estão inseridos não ocupará só o espaço linguístico-cultural. No plano psíquico; ocupará também o espaço sentimental e emocional no desenvolvimento dos filhos.

É importante salientar que tanto a língua de herança como a língua do Estado pode (e deve!) fazer parte do repertório linguístico dos filhos que poderão se desenvolver como bilíngues.

A trajetória migrante de João

João, 45, nasceu no Rio de Janeiro, mas sua vida migrante começou muito cedo, aos três anos, quando se mudou para São Paulo onde viveu até 21 anos.

Depois de iniciar o curso de engenharia em uma universidade paulista, abandonou-o para “conhecer o Brasil, viajar”. “Influenciado pelo ‘hippismo’ [o movimento hippie]”, ele viajou de carona para o Ceará, a terra do pai. Morou em Fortaleza, onde arrumou emprego como bancário em estabelecimento privado, porém retornou a São Paulo dois anos mais tarde e lá também trabalhou em banco até se mudar para o estado de Santa Catarina. Em Florianópolis, prestou vestibular para História, curso que terminou com 30 anos. Em seguida, começou o mestrado também em História.

Nessa época, conheceu sua mulher, uma trinitária que recebera uma bolsa de estudos do Governo brasileiro para fazer a graduação em universidade brasileira. Em Florianópolis, ela cumpria a exigência de fazer um semestre de língua portuguesa antes de ingressar no curso de Administração de Empresas em Belém. Depois de iniciado o curso, ela pediu para as autoridades educacionais de seu programa de estudos que a transferissem para outro lugar. Alegou que a capital paraense era “muito parecida com Trinidad”. Foi transferida para o Rio de Janeiro, mas um assalto a seu apartamento assustou-a e ela então requisitou nova transferência. Desta vez, para Florianópolis, onde conheceu João.

Uma gravidez inesperada a forçou a voltar para Trinidad e Tobago, porém João ainda permaneceu no Brasil até o nascimento da filha, quando foi à ilha de Trinidad e, de lá, retornou para o Brasil trazendo a família.

João abandonou o mestrado em Florianópolis e se mudou com a família para Fortaleza. Depois do nascimento do segundo filho, João e a mulher abriram um curso para ensino de línguas primeiramente em São Paulo, capital, e depois no interior de Santa Catarina, na cidade de Jaraguá do Sul.

De acordo com João, ele e a mulher teriam que gastar “um bom dinheiro para educar bem os dois filhos” no Brasil, uma forte razão para Trinidad e Tobago. Lá as crianças poderiam “ter uma educação pública de qualidade”. 

Entretanto, João não se mudou para o Caribe apenas como um ‘migrante do amor’ – assim chamei, em trabalhos anteriores (CUNHA, 2008; 2007a) aquela pessoa que, por causa de uma união amorosa internacional, emigra de seu país para acompanhar o(a) companheiro(a).[2].

Na verdade, João se candidatou para uma vaga de professor universitário em Trinidad & Tobago por dois anos, com a possibilidade de renovar o contrato por outros dois anos. Encontrar uma oportunidade profissional melhor e uma situação financeira mais segura no país onde sua esposa tinha raízes foi estratégico. Com filhos pequenos, ali ela teria o suporte da família. A moradia da família era subsidiada pela instituição, “uma casa com um jardim grande, muito espaçosa, cada um dos meninos tinha o seu quarto”.

No final do período de quatro anos, não havia mais como prorrogar o contrato de trabalho e João deixou para trás os alunos de quem tanto gostava. “Gostava de ensinar a história e a cultura de meu país. Tocava violão para eles, tentando ensinar a música popular brasileira”, ele conta.

Com a perda do emprego, João foi obrigado a entregar a casa e mudou-se com a mulher e os dois filhos (12 e 8 anos) para um apartamento de dois quartos: “É a primeira vez que as crianças dividem o mesmo quarto”.

Com João desempregado, a família passou a viver basicamente do salário da esposa, na época uma assessora de campanha política para a promoção de Trinidad e Tobago nas Américas.  Ela – que, além do inglês e do português, fala francês e espanhol – é sócia da irmã em uma firma de tradução e interpretação, onde, esporadicamente, João prestava serviços como intérprete e tradutor (inglês-português).

João tem domínio do inglês, língua que começou a aprender aos 7 anos de idade, pois “o pai achava que isso era fundamental para ser alguém na vida”. Apesar de ser descendente de italianos por parte da mãe, nunca aprendeu a língua dos antepassados. Por causa da interferência do português, fala espanhol com menor desenvoltura do que lê. Aliás, João lê muito. “Minha mulher me traz muitos livros das viagens que faz pelas Américas, ela compra mais literatura hispânica”.

Durante o período de desemprego, João rompeu com o modelo tradicional do chefe de família latino-americano que tinha no pai, “o provedor e dono da última palavra nos assuntos familiares”. João cedeu esse papel à sua mulher que, nascida em uma tradição afro-caribenha de mulheres fortes, “segurou a barra” enquanto João estava desempregado. Em casa, ele então assumiu várias das funções até então desempenhadas exclusivamente pela mulher. Contando com a ajuda de uma diarista que limpava a casa duas vezes por semana, João tomou para si o papel de “dono da casa” sem maiores problemas. Passou fazer sozinho as compras de supermercado e a pechinchar no mercado público, onde comprava verduras e peixe fresco. Também descobriu que “a lavagem de roupas não é tão complicada assim na máquina”.

João assumiu ainda o papel de motorista das crianças, levando-as e buscando-as na escola e em suas atividades extras. Ao meio-dia, João fazia questão de levar à escola o almoço que ele mesmo preparava para as crianças, com a preocupação de que eles comessem “a comida fresca”.

Com as crianças na escola até três horas da tarde, João conseguiu tempo para jogar tênis durante a semana. “Como nem sempre tenho com quem jogar futebol, agora jogo tênis. O tênis está passando a ser o meu esporte em Trinidad, ainda que o gosto por futebol faça parte da minha brasilidade”.

João é um acalorado torcedor do Corinthians e semanalmente acompanha os resultados dos jogos no campeonato brasileiro pela Internet. Em 1962, quando o Brasil ganhou a segunda Copa do Mundo no Chile, ele tinha apenas dois anos e, em 1970, quando o capitão Carlos Alberto levantou a taça Jules Rimet no México por ocasião do tricampeonato em 1970, tinha 10 anos. Mesmo assim, em um encontro profissional na universidade ao ser desafiado por outro amante do futebol – “Se você é brasileiro de verdade, diga o nome dos jogadores da seleção brasileira em 62 e 70” – João citou, um a um, todos os onze nomes do time principal nas duas Copas citadas. Nada mais fácil para João comprovar sua identidade. Ele ainda perguntou: “Quer o nome dos reservas também?”.

Buscando parceiros para jogar futebol, João montou um time, “uns pernas-de-pau que não têm o gingado e a criatividade dos brasileiros”. Em uma ocasião, foi desafiado por um colega francês que, como ele, também jogava e treinava um time. João conta que, com o financiamento de um restaurante francês e “com muita empáfia”, o colega mandou fazer um “uniforme chique” para seu time e até promoveu um desfile para apresentar a nova vestimenta. No dia do jogo, o time de João chegou com o “uniforme surradinho”, porém, para desapontamento dos adversários elegantes, levou a taça patrocinada pela Embaixada da França. Desde, então, João virou “uma lenda do futebol”, tendo sido convidado “até para comentar o filme ‘Pelé Eterno’ [dirigido por AnibalMassaini Neto] em uma mostra de cinema brasileiro”.

O esporte, além de lazer, também lhe garantiu um lugar de intérprete no time de uma agremiação esportiva na ilha de Trinidad durante algum tempo. Isso foi quando onze jogadores brasileiros, recém-chegados do Brasil e sem falar inglês, precisaram de um intérprete para entender e se fazer entender pelo técnico do clube.

João afirma: “Eu sou brasileiro e sempre vou ser. Sempre vou representar o Brasil, de uma maneira ou de outra”. Ele se queixa que em Trinidad e Tobago, uma ex-colônia britânica, hoje bombardeada por valores estadunidenses, “pouco se sabe sobre o Brasil”.

Não passa quase cinema brasileiro por aqui, você já reparou? O cinema hollywoodiano que chega é o enlatado da violência. Cinema francês ou alemão, só em mostras de cinema. Do Brasil, só chegam filmes como ‘Ônibus 174’ [dirigido por José Padilha e Felipe Lacerda] e ‘Cidade de Deus’  e ‘Cidade de Deus’ [por Fernando Meirelles]. O Brasil é isso, não dá para esconder, mas não é só isso, é muito mais! Ainda bem que esses filmes só passam na televisão a cabo e depois das onze (da noite), quando grande parte das pessoas está dormindo. Assim mesmo, toda a vez que passa, alguém comenta comigo no dia seguinte. O Brasil é só menino de rua e bandido, porra! Nem o nosso Carnaval eles conhecem. Dizem que têm o melhor e mais animado Carnaval do mundo, já viu?

João gostaria de viajar mais frequentemente ao Brasil, de onde às vezes fala com certo saudosismo. Nesses momentos, diz que “as praias brasileiras são mais bonitas”, “a carne é mais macia e mais barata”, “a comida é mais farta”. Lembra também que “não há furacão no Brasil”, ao contrário do Caribe, onde há ciclones tropicais todos os anos.

A mulher de João quer voltar para o Brasil, mas João está dividido. Pensa principalmente nas crianças que “não têm hoje a educação de qualidade que não é pública no Brasil”. Ao mesmo tempo, sente muita falta de sua terra e pensa em um dia retornar a sua terra e interromper essa trajetória migrante. No entanto, foi se acomodando em Trinidad e Trinidad e, por ser casado legalmente com uma trinitária, ele não teve dificuldade em, transcorridos cinco anos, receber o visto de residência definitiva. Quando participou da pesquisa, João já estava vivendo na ilha de Trinidad há oito anos.

1.    O legado linguístico de João

Assim como o futebol, João cultiva o hábito do café como um traço de brasilidade. Sua mulher toma somente chá e infusões antes de sair para o trabalho, mas ele não abre mão do café pela manhã. Acostumou-se a acordar cedo e fazer o próprio café.

Elegeu a hora do café da manhã como “o momento para fazer uso do português com os filhos” e assim desenvolver neles o bilinguismo, somando a sua própria língua (português) à língua do Estado (inglês).

Na literatura especializada essa estratégia de desenvolvimento do bilinguismo é identificada como ‘hora da língua’ (language time) e tem sido criticada – entre outros, GROSJEAN (1982) – por estar baseada em um fator arbitrário: a necessidade de uma hora certa do dia, ou um dia fixo na semana, para se falar a língua-alvo. No entanto, para João, o horário do café-da-manhã está associado a três coisas que ele preza: a claridade de um novo dia, o afeto pelos filhos e o prazer de uma xícara de café. Esse é para ser um tempo de cumplicidade no qual, por meio do português, João revela um pouco de si para os filhos e deixa aflorar seu lado mais afetivo, como ele próprio explica:

Na verdade, (quando) eu quero ser doce com eles, expressar amor, sentimentos, eu falo mesmo em português, não falo em inglês. Se fico zangado, não, aí falo em inglês. Raramente eu ralho com eles em português. Com minha mulher também, quando a gente tem discussão é sempre em inglês. O inglês está virando a língua de lavar a roupa suja. O português está se transformando na língua do prazer, do amor, das emoções mais prazerosas.

A filha de João, que está na puberdade, entende, fala e lê a língua do pai, mas, ao ser arguida em português, ela frequentemente responde em inglês. Reações como essa entre jovens da segunda geração de imigrantes são vistas como uma tentativa de ajuste entre duas culturas: de um lado está a herança sociocultural dos pais e, do outro, a busca da aceitação pelos pares, de quem não querem ser diferentes.[3]Ao contrário da irmã, que viveu a primeira infância no Brasil, o filho de João não fala português. Sobre ele, João diz:

Meu filho não entende tudo, mas alguma coisa... Mas eu não tenho preocupação com ele, sei que ele vai aprender português. Agora todo dia de manhã falo português e acabou a história. Ele já está na idade... Estou pensando em pegar dois meses nas férias de verão e levar ele para o Brasil e te vira! Você vai precisar falar português, vai precisar comer.

Antes da ‘hora da língua’ no café-da-manhã, João também tentou uma estratégia conhecida na literatura especializada como ‘uma pessoa, uma língua’, ou simplesmente OPOL, sigla em inglês para ‘one person, one language’. Essa estratégia se tornou conhecida pelo registro que, no início do século XIX, o linguista francês Jules Ronjat fez do desenvolvimento do bilinguismo em seu filho Louis. Casado com uma alemã e vivendo em Paris, Ronjat adotou a estratégia a partir do trabalho de seu colega Maurice Grammont que, seis anos antes do nascimento de Louis em 1908, introduzira a ideia de ‘une personne, une langue’ em um trabalho publicado em 1902.[4]  Denominando a estratégia de ‘fórmula Grammont’, Ronjat registrou o desenvolvimento linguístico de Louis como bilíngue em francês (a língua do pai) e alemão (a língua da mãe) até ele atingir quatro anos e dez meses. (RONJAT, 1913).

Um século depois, sem conhecer os estudos de Grammont ou de Ronjat, João tentou aplicar a mesma estratégia com seu filho, que falaria somente em português com ele e, com mãe, em inglês. Como o menino já fosse mais velho do que Louis, com quem a estratégia foi aplicada do nascimento aos quase cinco anos, houve um desequilíbrio no uso das línguas, pois, aos oito anos, o universo do filho de João já é bem maior do que o do filho de Ronjat. São muitas outras pessoas além do pai e da mãe: os avós e outros parentes maternos que não falam português; os amiguinhos da vizinhança e, na escola; os coleguinhas e professores, todos falando em inglês.

Uma tentativa de João foi determinar o uso do português ou do inglês, respectivamente dentro e fora de casa. A mãe, que também fala o português e viveu no Brasil, poderia compartilhar em casa a língua do pai.  Na prática, isso não funcionou porque o trânsito na casa de familiares que não falavam o português era grande e também pela necessidade do menino em contar o que se passava fora de casa, eventos que haviam ocorrido em inglês.

Outra estratégia foi liberar o uso das duas línguas permitindo que a alteração do inglês para o português, e vice versa, fluísse de acordo com a situação, o tópico da conversa e os interlocutores nela envolvidos. O lugar em que a conversa ocorresse também deveria contribuir para a alteração. Nessa tentativa, o inglês estabeleceu-se como a língua dominante para o menino. Afinal, o inglês é a língua da sociedade envolvente, a língua que o menino usa para se comunicar com a maior parte do seu mundo externo. O inglês é a língua oficial do Estado e, sendo assim, é a língua de instrução e a língua dos folguedos no recreio da escola, onde ele fica na maior parte do dia. Na escola, o único momento de não falar em inglês ocorre na aula de espanhol, porque, atendendo às diretrizes governamentais, os estudantes recebem uma carga diária dessa língua.

Ao chegar da escola, o garoto assiste os programas de televisão falados em inglês. Em casa, não há televisão por assinatura e, nos canais abertos, as opções linguísticas são reduzidas. O hindi é uma delas, já que quase metade da população é de origem indiana.[5] Entretanto, o filho de João escolhe sempre os canais falados em inglês. Quando não está à frente da televisão, o garoto está no computador e os programas e jogos são sempre em inglês.

No desenvolvimento do bilinguismo no filho de João, diferentemente do que ocorreu com Louis, a aquisição do português é sucessiva e não simultânea. Enquanto Louis adquiriu o alemão e o francês ao mesmo tempo; o filho de João está adquirindo o português depois de já dominar o inglês.

O português é ligado quase que exclusivamente à história do pai, que – no mundo mais amplo do menino de 8 anos – precisa se comunicar com o filho também em inglês na presença dos parentes maternos, amiguinhos e professores.

Quando o menino e a irmã falam em português com o pai, percebe-se a interferência do inglês na fonética e na morfossintaxe. Na interlíngua em que se comunicam, os filhos de João usam alguns verbos em inglês – como, por exemplo, finish (finalizar) – mas os flexionam com desinências do português. Assim, no pretérito perfeito do indicativo, o verbo finish seria: [eu] finishei; [você] finishou; [nós] finishamos. O léxico também é mesclado: “Pode ‘parquear’ o carro ali, pai!”, ao invés de “Pode estacionar o carro ali, pai!”

João vem pensando seriamente em uma nova estratégia: a imersão linguística no Brasil porque, na ilha de Trinidad, as crianças não têm muita chance de conviver com outras pessoas que falem o português. Os brasileiros geralmente se reúnem como uma comunidade apenas nas celebrações e eventos socioculturais promovidos pela Embaixada do Brasil, mas ali geralmente o espaço é para adultos.

João mesmo reclama de não haver uma comunidade propriamente dita de brasileiros, como há de outros grupos étnicos: “Os franceses se encontram para falar francês, os cubanos também se encontram.”

De fato, em Trinidad e Tobago, os brasileiros não mantêm as relações internas em seu grupo, o que seria esperado para qualquer população inserida em uma estrutura social de segmentação étnica. Há dispersão geográfica e miscigenação de brasileiros com membros da sociedade hospedeira – e também com outros estrangeiros – dificultando sua visualização como uma população diferenciada. Os brasileiros são ali o que o antropólogo Gustavo Ribeiro também identificou em São Francisco, Califórnia: uma “abstração”, ou seja, um grupo étnico difuso e sem amálgama social (RIBEIRO, 1999: 45). Para essa caracterização, contribuem a falta de homogeneidade na escolaridade, classe social e status econômico, além da variedade na origem regional.

“Tem brasileiro aqui que a gente conhece e depois não quer mais conhecer”, diz João que leva poucos conterrâneos a sua casa. “O melhor é mandar os meninos passarem um período no Brasil. É a melhor estratégia”.

Observações finais

Imigrante em Trinidad e Tobago, o brasileiro João tem na língua portuguesa um bem que quer deixar de herança para os filhos. O legado tem uma peculiaridade: somente pode ser transmitido de pai para filhos em vida. É um bem cultural a ser compartilhado entre gerações.

A filha de João já aceitou essa herança. Ela, para quem o inglês é a língua mais forte, entende quando o português é falado e também lê na língua do pai. Em português, seu domínio ainda é fundamentalmente passivo: tem dificuldade na expressão oral, sobretudo na escrita que raramente lhe é exigida.

O filho de João teve uma convivência menor com o idioma do que, na primeira infância, teve sua irmã.  Ela estava mergulhada no contexto lusofalante brasileiro.  O menino adquiriu o inglês como primeira língua e agora, em aquisição sucessiva e com maior esforço, o português começa a entrar em seu repertório linguístico. Para desenvolver no filho o bilinguismo, o pai já desenvolve estratégias como: (a) ‘a hora da língua’, ou seja, um tempo para falar português; (b) ‘uma pessoa, uma língua’, com o pai e a mãe falando, respectivamente, português e inglês; (c) ‘uma língua dentro, outra fora’, com a obrigatoriedade do uso, no caso estudado, do português em casa e do inglês fora dela; (d) a liberação do uso de uma ou outra língua, de acordo com fatores como a situação, tópico e participantes da conversação.  O pai pensa agora em um período de imersão do menino no Brasil.

Certamente para o filho de João, assim como para sua filha, não haverá vacância na herança deixada pelo pai.

Referências bibliográficas:

  • ADGHIRNI, Zélia Leal. As Migrações Amorosas, In: Narrativas a Céu Aberto— Modos de Ver e Viver em Brasília. Brasília: Editora UnB, 1998.
  • ALMEIDA FILHO, José Carlos P. Entrevista. Disponível em http://www.sala.org.br, acesso 20/12/2011.
  • BASTIDE, Roger, Introdução a dois estudos sobre a técnica de histórias de vida. Sociologia, vol. XV, no 1, Escola de Sociologia e Política, USP, São Paulo, 1953, p. 3-7.
  • CUNHA, Maria Jandyra C. Língua e identidade em vidas migrantes. In: Cunha, M. J. C. et al., Migração e Identidade: olhares sobre o tema. São Paulo: Centauro, 2007a, p. 133-190.
  • ______ . Memórias da migração: a identidade em pentimento. In Cunha, M. J. C. et al., 2007b, p. 17-41.
  • ______ . A narrativa da migração brasileira em jornais comunitários no exterior: estudo do ‘Brazilian Times’, in: Laborde, Elga P. e Nuto, João V. C. Em torno à integração, Brasília: UnB/Instituto de Letras, 2008, p. 369-394.
  • GROSJEAN, François. Life with two languages. Cambridge, Mas.: Harvard University Press,1982.
  • RIBEIRO, Gustavo. ‘O que faz o Brasil, Brazil’: jogos identitários em São Francisco’. In: Rocha Reis, Rosane (org.), Cenas do Brasil migrante. São Paulo: Bomtempo Editorial, p. 45-85.
  • RONJAT, Jules. Le dévelopment du langage observé chez un enfant bilingue. Paris: Champion, 1913.

NOTAS:



[1]
Trinidad é uma ilha de 4.828 km2, enquanto que Tobago tem 300 km2. As duas ilhas estão afastadas uma da outra por 33 quilômetros, uma distância três vezes maior que os 11 quilômetros que separam a ilha de Trinidad da costa da Venezuela, do outro lado do Golfo de Paria.

[2]Essa categorização foi pensada após a leitura de um artigo da jornalista Zélia Leal Adghirni (1998:51) no qual ela narra histórias começadas ou continuadas em Brasília com pessoas que “por amor, atravessam montanhas e continentes, mudam as linhas do horizonte, redesenham fronteiras, subvertem culturas e traem a língua materna”.

[3]Sobre o ajuste sociolinguístico entre duas culturas em migrantes infantes e púberes, a escritora e ativista Esmeralda Santiago escreve nas memórias publicadas no livro When I was Puerto Rican (1993) que, ao se mudar de Puerto Rico para Nova York, se sentiu como uma traidora porque queria aprender o inglês.  (Ver CUNHA, 2007b)

[4]No trabalho intitulado Observations sur le langage des enfants(1902), o também linguista francês Maurice Grammont postulou que, ao separar duas línguas desde a tenra idade, uma criança poderia aprendê-las facilmente, sem as confundir. A estratégia de associar essas línguas ao pai e à mãe daria à criança a oportunidade de também desenvolver uma relação emocional naturalmente independente com cada um dos pais.

[5]Em todo o país, os 43% de indo-trinitários – concentrados principalmente na ilha de Trinidad – formam um dos dois grupos étnicos majoritários. O outro grande grupo é formado pelos afro-trinitários que são 39,59% da população total e 90% da ilha de Tobago. O encontro entre africanos e indianos caracterizou um caso típico de população hospedeira versus população imigrante, em que os recém-chegados eram portadores de uma cultura estranha aos padrões locais. Os indianos não se inclinaram em favor da cultura hospedeira que se sentiu ameaçada. A forte cultura indiana está marcada até no calendário trinitário com datas como o dia 30 de maio, um feriado nacional que celebra a chegada do barco Fatel Razack que, em 1845, aportou na ilha de Trinidad trazendo indianos para trabalhar na lavoura após a abolição da escravatura em 1835. Hoje o hindi é uma língua ensinada no sistema escolar e veiculada em canais de televisão específicos. (CUNHA, 2007)

 

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