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A Importância da Multimodalidade para o Desenvolvimento da Autonomia Docente no Ensino de Português Língua Estrangeira Imprimir E-mail
Escrito por adcvhuuy555;Janaína de Aquino Ferraz - Universidade de Brasília (UnB), Giuliano Pereira Castro - Universidade Federal de Goiás (UFG), Núcleo de Ensino e Pesquisa em Português para Estrangeiros (NEPPE)000000000000000000000o4q....... .; 0   

Resumo

O objetivo desta pesquisa é analisar como os docentes de Português Língua Estrangeira utilizam textos multimodais presentes em materiais didáticos desta área. O estudo é fundamentado na Análise Crítica do Discurso e na Semiótica Social, com víeis no desenvolvimento da autonomia de docentes atuantes na área  concernente à utilização de textos multimodais. Para analise dos dados foram aplicados os princípios da pesquisa qualitativa que norteiam o trabalho. Pela análise do corpus, foi possível verificar que os professores não realizam um trabalho sistematizado com os textos multimodais e por isso, alguns estereótipos brasileiros podem ser reforçados através dos materiais didáticos. Os resultados apresentados mostram a importância do conhecimento da teoria da multimodalidade para a realização crítica de trabalho docente e contribui para a melhora do ensino de português como segunda língua.

Palavras-chave: texto multimodal; autonomia; teoria da multimodalidade; análise do discurso; ensino de português.

Abstract

This paper aims at analyzing how Portuguese as a Second Language teacher has used multimodal texts that appear in textbooks of this area. The study is based on the Critical Analysis of Discourse and the Social Semiotics, as well as focusing on the development of PFL teachers´ autonomy concerning the usage of such texts. For the analysis of data, the principles of qualitative research had been applied to guide the work. For the analysis of corpus, it was possible to verify that teachers doesn´t realize a systematization work with multimodals text and, because of this, some Brazilian stereotypes can be intensify by means of the textbooks. The presented results prove the importance to know a multimodal theory to a critical teaching work and helping to improve the Portuguese as a Second Language teaching.

Key Words: multimodal text; autonomy; multimodal theory; analysis of discourse; Portuguese teaching.

 

1.      INTRODUÇÃO E TEORIZAÇÃO

Situar as atividades linguísticas significa realizar um estudo de acordo com a proposta das ciências sociais críticas que, por sua vez, assumem a vida social como sendo construída por meio de “práticas”. De acordo com Chouliraki & Fairclough, (1999, p.21):

as “práticas” são formas habituais, atreladas a lugares e tempos particulares, nos quais as pessoas aplicam recursos  (materiais ou simbólicos) para agir juntos no mundo. Práticas são construídas por meio da vida social – nos domínios especializados da economia e da política, especialmente, mas também no domínio da cultura, incluindo a vida diária.

A vantagem de se focalizar sobre práticas sociais é que elas constituem ponto de conexão entre estruturas abstratas, seus mecanismos e eventos concretos – como a linguagem em suas diversas formas de realização. Assim é que, por meio da proposta da Análise de Discurso Crítica, pretendemos elucidar aspectos referentes ao papel das práticas em sala de aula, que envolvam textos multimodais presentes em livros didáticos de português como língua estrangeira, com o objetivo de investigar a forma como esses textos podem determinar o tipo de abordagem de docentes dessa área, pois é esse profissional que apresenta ao aluno estrangeiro, diferentes visões de mundo, que serão trabalhadas com o auxílio dos livros didáticos.

Ter conhecimento crítico sobre as várias formas de realização da língua significa realizar trabalho estruturado e consciente com textos de natureza diversificada, prerrogativa do docente de língua estrangeira, razão pela qual pretendemos empreender investigação sobre os processos constitutivos dessas práticas sociais, desvelar suas ideologias, que são, na verdade, representações discursivas de uma das áreas do ensino.  

O viés teórico-metodológico da Análise de Discurso Crítica coaduna com a pesquisa em Linguística Aplicada na medida em que ambas têm enfoque nos aspectos da linguagem na vida social. No presente trabalho, analisamos o discurso de docentes atuantes no ensino de português língua estrangeira para desvelar aspectos de suas práticas no que concerne a textos multimodais, analisando se tais docentes desenvolvem o uso desses textos de maneira autônoma. 

A autonomia tem sido objeto de muitas pesquisas nos últimos anos. Ela é definida por Benson (2001) como a capacidade de ter controle sobre o próprio processo de aprendizagem. Holec (apud Benson 2001) ressalta que o termo autonomia tem sido utilizado, sobretudo, nos seguintes contextos: 1) quando o aprendiz estuda inteiramente por conta própria; 2)um conjunto de habilidades que podem ser aprendidas e aplicadas na aprendizagem autodirigida; 3) uma capacidade inata que é suprimida pela educação institucional; 4) o exercício da responsabilidade dos alunos pela sua própria aprendizagem.

Um conceito de autonomia muito importante é o de Freire (1983) para quem o conceito de autonomia está fortemente atrelado à atividade de cooperação. O ato de educar está no conceber e no concretizar uma escola democrática, avançada e digna; uma escola que de fato responda aos anseios e às necessidades de nosso povo; uma escola total e íntegra, que receba todas as crianças e jovens e ofereça a eles chances para a construção e para o crescimento como cidadãos do mundo. 

2.      PERCURSO METODOLÓGICO

Esquematizamos os passos metodológicos a serem adotados nesta pesquisa de acordo com a proposta de Taylor e Bogdan (1998):


O método qualitativo foi escolhido para a análise dos dados. Acreditamos ser este o mais apropriado já que o trabalho se realiza com textos e visa à interpretação das realidades sociais por meio da realização e análise de entrevistas de profundidade. Além disso, por ser o texto o espaço de concretização dos sentidos do discurso, estes passam a ser a fonte de coleta de dados mais importante. É válido ressaltar a afirmação de Mainguenau (2001, p. 65) sobre o que seria texto em uma perspectiva mais atual:

a diversificação das técnicas de gravação e de reprodução da imagem e do som vem modificando consideravelmente a representação tradicional do texto: este não se apresenta mais unicamente como um conjunto de signos sobre uma página, mas pode ser um filme, uma gravação em fita cassete, um programa em disquete, uma mistura de signos verbais, musicais e de imagens em CD-ROM.

Essa nova visão sobre o conceito de texto amplia o campo de atuação das pesquisas discursivas e, portanto, reflete-se em nossos objetivos, pois as entrevistas empreendidas passam a ser textos de igual relevância. Discutidas as etapas metodológicas, apresentamos, neste momento, de forma breve, os critérios de escolha das categorias de análise.

Para a análise da ideologia, tomamos por base a proposta de John Thompson (1995). Para esse autor, a análise da ideologia pode ser feita por meio da aplicação do que chama de modus operandi. Assim, trabalhamos especificamente com dois deles: Legitimação, que apresenta as relações de dominação como legítimas, justas e dignas de apoio; e Fragmentação, que segmenta indivíduos e grupos sociais. Desses modos de operação, as seguintes estratégias foram selecionadas: racionalização e diferenciação. A racionalização é uma estratégia de Legitimação, em que o produtor constrói, de maneira simbólica, uma cadeia de raciocínio que busca justificar um conjunto de relações sociais e com isso convencer uma audiência de que é digno de apoio. A diferenciação é estratégia de Fragmentação, onde as diferenças, distinções e divisões entre pessoas e grupos são enfatizadas, apoiando-se em características que os desunem e os impedem de construir um desafio efetivo às relações existentes.

3.      ANÁLISE DOS DADOS OBTIDOS NAS ENTREVISTAS

A delimitação do tema teve início com a percepção do potencial significativo de uma abordagem crítica de docentes sobre textos multimodais em salas de aula de língua estrangeira e também de que a significação dos textos, hoje, não se apóia mais unicamente na modalidade escrita. Isso nos levou à busca de maneiras apropriadas de abordar o tema, devido à sua densidade. Dessa forma, como dito anteriormente, trabalhamos com entrevistas de profundidade a fim de determinar os tipos de abordagem que docentes de língua estrangeira adotam ao levar em conta os aspectos ideológicos de cada texto.

Para tanto, as seguintes perguntas de entrevista foram adotadas:

- O que o professor considera importante no trabalho com textos não verbais em sala de aula?;

- Que tipo de conhecimento o professor considera necessário para que o aluno possa entender textos do cotidiano (propagandas, textos jornalísticos...)?

Essas são perguntas que, entre outras, buscaram enfocar a perspectiva de trabalho textual em sala de aula de PLE, de acordo com o que o docente considera relevante, buscando, dessa forma, desvelar que ideologias permeiam o seu discurso.

Por meio da aplicação das categorias propostas por Thompson, podemos tecer as seguintes considerações:

Pergunta 1:E sobre as leituras dos textos não verbais, com imagens, o que você considera importante para trabalhar em sala de aula?

 

Resposta 1:“... particularmente eu acho um pouco complicado. Que depende muito do nível do meu aluno. Normalmente a charge ou aqueles cartoons de Mafalda eles vêm com um texto subentendido, e esse subentendido, esse subliminar, o meu aluno, os estrangeiros, normalmente não conseguem captar”.

Pergunta 2: Que tipo de conhecimento você acha necessário para o aluno compreender textos do cotidiano (propaganda, texto jornalístico...)?

Resposta 2:“...tudo que eu trabalhar com meus os alunos eu tenho que passar pra coordenação e a responsável pela revisão dos trabalhos em português muitas vezes barra muitos trabalhos...”

Sobre os trechos destacados na resposta 1, há ocorrência de legitimação por meio de racionalização, pois ao afirmar o quanto é complicado trabalhar com textos imagéticos a professora entrevistada revela a existência de uma perspectiva de texto verbal como sendo mais fácil de ser abordado, enquanto o texto composto por mais de uma semiose não seria muito “claro”. O que também revela falta de preparo para leitura de textos multimodais. Ainda verificamos a ocorrência de fragmentação por meio da diferenciação quando a professora afirma que os alunos estrangeiros não conseguem captar os sentidos construídos em textos do gênero charge ou cartoon, revelando, assim, as diferenças de entendimento das ideologias que permeiam o discurso por parte do estrangeiro que não consegue captar “os subentendidos”. Já na segunda resposta, verificamos, mais uma vez, a legitimação por meio da racionalização quando a professora procura justificar o fato de talvez não trabalhar com textos não verbais por interferência da coordenação que barra muitos trabalhos que não tenham enfoque na “língua”, ou seja, na modalidade escrita. Isso demonstra que a falta de trabalho com textos multimodais tem origem no não reconhecimento da diferença de construção de sentidos nesses textos. Ao colocar o trabalho multimodal em segundo plano, o professor e as instituições subestimam seus alunos ao diferenciá-los como um grupo incapaz de compreender textos não verbais em segunda língua, o que, mais uma vez revela outra estratégia da ideologia: a fragmentação por meio da diferenciação do aluno estrangeiro.

4.      PROPOSTA DE TRABALHO MULTIMODAL EM SALA DE AULA DE PLE

Para demonstrar de maneira prática como o texto multimodal reflete diversas crenças de seu produtor e a importância de trabalho estruturado das várias semioses que o compõe, passamos agora à apresentação sucinta dos modos semióticos envolvidos na composição textual à luz da Teoria da Semiótica Social de material retirado do livro de Grannier e Ribeiro (2001) para o ensino de PLE.

De acordo com Kress e van Leeuwen (1996, p.374):

é impossível interpretar textos prestando atenção somente na língua escrita, pois um texto multimodal deve ser lido em conjunção com todos os outros modos semióticos desse texto.

Os autores propõem algumas categorias para a análise de imagens. Entre essas abordaremos especificamente a categoria dos Participantes Representados, e o Processo Narrativo Reacional.

A categoria dos Participantes se divide em dois tipos: participantes representados e interativos. Neste caso trabalharemos apenas com os participantes representados, os quais são os objetos da comunicação (pessoas, lugares, coisas). São os participantes sobre os quais se está falando, escrevendo ou produzindo imagens.

A categoria do Processo Narrativo ocorre quando participantes são conectados por um vetor, sendo dessa forma, representados como “fazendo algo para o outro”. Os processos narrativos se diferenciam de acordo com o tipo de vetor, o número e os tipos de participantes envolvidos. Iremos enfocar o Processo Narrativo Reacional, que se caracteriza quando o vetor é formado pela linha dos olhos, pela direção do olhar de um ou mais participantes representados. O participante que lança o olhar é chamado dereacter e deve ser necessariamente humano ou animal.

Agora observemos o seguinte texto:

Por meio da análise dos elementos que compõe a imagem é possível verificar os seguintes pontos vislumbrados pela Teoria da Semiótica Social:

a)      categoria dos participantes representados: meninas dançando, conversando e elementos que representam tanto o subúrbio que a autora se refere (o sobrado mal acabado) quanto a boa escola (com boa estrutura, paredes pintadas).

Aqui se observa que a imagem representa cenas reais e cotidianas da autora, mas a escolha dos participantes e o modo que eles estão representados não são neutros. Percebe-se que o produtor do texto quis enfatizar a diferença dos grupos não só pela modalidade escrita como também pela gramática visual. Isso pode ser visto pela maneira que as fotografias estão dispostas e pelo fundo contrastante de ambas, que revelam construções e condições diferentes.

b)      categoria do processo narrativo reacional: as setas mostram que as participantes (reacters) estão interagindo entre si, tanto na dança quanto na conversa o olhar é direcionado para outro agente. 

Os aspectos ideológicos que permeiam os textos multimodais podem vir a ser naturalizados na fala do aluno caso o professor não realize um trabalho adequado com esse tipo de texto. Cabe ao docente apresentar aos alunos diferentes visões de mundo que são trabalhadas com a ajuda dos livros didáticos e que os auxiliam na formação de crenças e valores. Por esse motivo, o professor de língua estrangeira deve ter consciência da importância do trabalho estruturado e consciente com textos de natureza diversa e assim evitar o reforço de determinados estereótipos sobre a cultura brasileira por parte dos alunos.

Com as novas regras da era do argumento visual, em que os sentidos são construídos por meio da utilização simultânea de várias modalidades, é fundamental que os professores conheçam a teoria da multimodalidade para que possam sistematizar o trabalho em sala de aula e, consequentemente, contribuir para a melhora do ensino de português para estrangeiros. Tal conhecimento engendra a construção de práticas docentes autônomas quanto ao uso de textos e recursos multimodais, com vias a desenvolver a competência comunicativa do aprendiz de Português Língua Estrangeira.

5.      REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • BENSON, Phil. Teaching and researching autonomy in language learning. Essex: Pearson Education Limited, 2001.
  • Fairclough, Norman. Discurso e Mudança Social. Coord. da trad. Izabel Magalhães. Brasília: Editora Universidade de Brasília,2001.
  • FAIRCLOUGH,Norman. Analysing Discourse: textual analysis for social research. London: Routledge, 2003a.
  • FERRAZ, JanaínadeAquino. A formação identitária do brasileiro: um enfoque multimodal. 2005. 105 p. Dissertação (mestrado) - Universidade de Brasília.
  • FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.
  • HENRIQUES, E. R. & GRANNIER, D. M. (2001). Interagindo em Português – textos e visões do Brasil. Vol.1,Brasília: Thesaurus.
  • KRESS, G., LEITE-GARCÍA, R. & van LEEUWEN, T. Semiótica Discursiva. In: El Discurso como Estructura y Processo. Estudios del discurso: introducción multidisciplinaria. (vol.1). Barcelona, Gedisa editorial, 2000.
  • KRESS, G. R. e van LEEUWEN, T. Multimodal Discourse: the modes and media of contemporary communication. London: Arnold, 2001.
  • SILVA, FranciscaCordéliaOliveirada; VIEIRA, Josênia Antunes. A representação da raça negra no Brasil: ideologia e identidades. 2005. 164 p. Dissertação (mestrado) - Universidade de Brasília, Departamento de Línguas Clássicas e Vernácula.
  • TAYLOR, S. J. e ROBERT, B. Introduction to Qualitative Research Methods. USA: New York, 1998.
  • Thompson, j. Ideologia e Cultura Moderna: teoria social crítica na era da comunicação de massa. Petrópolis: Vozes, 1995.
 

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