Skip to content

Green color

    Increase font size  Decrease font size  Default font size  Skip to content
A Utilização de Marcadores Conversacionais por aprendentes Chineses de PLE Imprimir E-mail
Escrito por XU Zhenhong (Univ. de Estudos Estrangeiros de Cantão – GDUFS), Julio Reis JATOBÁ (Univ. de Estudos Estrangeiros de Cantão – GDUFS)   

Resumo: O presente artigo examina o uso de Marcadores Conversacionais (MCs) da língua portuguesa (LP) em aprendentes chineses de PLE por meiode comentários e interações em redes socias como Facebook, Sina Weibo e QQ. Durante as interações realizadas entre aprendentes chineses ebrasileiros, ou até mesmo entre os próprios aprendentes chineses, notamos queaprendentes chineses utilizam largamente alguns MCs para organizarem suas falas em LP.Baseando-nos em uma breve comparação dos MCs chineses e da LP,nosso objetivo será alimentar a hipótese de haver transferência positiva da língua materna (LM) na utilização de MCs da LP por aprendentes chineses.

Palavras-chave:PLE na China. Marcadores Conversacionais. Transferência Linguística.

Abstract:Thispaper investigatesthe use of Discourse Markers(DMs) by Chinese learners of Portuguese as Foreign Language (PFL) through comments and interactions in social networks as Facebook, Sina Weibo and QQ. During the interactions between Brazilian and Chinese Learners, or even between Chinese learners themselves, we observed that Chinese learners widely use some DMs to organize their discourse in Portuguese language. Based on a brief comparison of the Chinese and Portuguese language DMs, our aim will be to check the possibility of positive linguistic transfer of the learner’s mother tongue.

Keywords: Portuguese as Foreign Language in China. Discourse Markers. Linguistic Transfer.

Introdução

Falantes nativos de português em situações informais de fala utilizamum grande número de marcadores para organizar suas interações e textos orais cotidianos — tais como “ahã”, “e aí”, “daí” “olha”, “né”, “tipo”, “tipo assim” — funcionado estes marcadores, sobretudo, como articuladores da interação entre os interlocutores. Estes marcadores amplamente usados na organização do texto conversacional são comumente chamados de marcadores conversacionais (MCs)[1]. Para Urbano (2010:93), os MCs são “elementos de variada natureza, estrutura, dimensão, complexidade semântico-sintática, aparentemente supérfluos ou até complicadores, mas de indiscutível significado e importância para qualquer análise de texto oral e para sua boa e cabal compreensão”.

Além disso, destacamos a marcante complexidade semântico-sintática dos MCs, sendo o reconhecimento de suas funções inevitável para a análise do discurso e da interação, pois, como levantado pelo autor, os MCs, dentre suas várias funções,  

ajudam a construir e a dar coesão e coerência ao texto falado, especialmente dentro do enfoque conversacional. Nesse sentido, funcionam como articuladores não só das unidades cognitivo-informativas do texto como também dos seus interlocutores, revelando e marcando, de uma forma ou de outra, as condições de produção do texto, naquilo que ela, a produção, representa de interacional e pragmático.(Ibidem: 85-86)

Na citação de Urbano, salientamos o caráter “conversacional” e “interacional” dos MCs e, logo, o papel preponderante que os MCs assumem na condução da interação conversacional entre os interlocutores; porém, é importante frisar que os MCs “não contribuem propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas situam-no no contexto geral, particular ou pessoal da conversação” (MARCUSHI, 1989, p.62). Em outras palavras, os MCs não são necessariamente relevantes para o processamento do assunto entre interlocutores no que tange trazer novas informações ao enunciado, porém, por uma outra perspectiva, são extremamente relevantes para o estabelecimento de conexões entre os enunciados e interações na produção do texto conversacional.

No que diz respeito à construção do texto conversacional, os MCs tem o papel primordial de organizar a interação, determinando, consequentemente, as relações de interação e envolvimento dos interlocutores e, por conseguinte, sinalizando as tomadas, sustentações e trocas de turno. Somando-se a isso, os Mcs são multifuncionais, pois, além do valor organizacional, exercem funções de valor coesivo para os enunciados, envolvimento do ouvinte e indicadores de força ilocutória (MARCUSHI, 1989; CASTILHO, 1989).

Quanto à posição nos enunciados, os MCs ocupam diferentes posições no turno conversacional, podendo ocupar as posições de turno inicial, medial ou final. As posições dos marcadores não são fixas nem preestabelecidas, podendo variar dependendo do contexto e/ou estilo dos falantes.

Os MCs iniciais do português geralmente caracterizam a tomada de turno ou a confirmação de interesse e envolvimento do ouvinte na interação, por exemplo: “ah”, “ahã”,“bom”, “pois é”, “bem”, “ora”, “mas”, “acho que”, “olha”.Os MCs mediais se caracterizam pelo desenvolvimento ou sustentação de turno, sendo comumente usados “e aí”, “então”, “assim”, “quer dizer”, “sei lá”. Os MCs finais sinalizam o fim do turno, indicando a entrega de turno ou exigindo uma confirmação de entendimento por parte do ouvinte, e geralmente são: “né?”, “não é?”, “entendeu?”, “viu?”, “certo?”, “está/táentendendo?”. No entanto, ressaltamos que a posição dos MCs não é fixa e o mesmo MC pode ocorrer em diferentes posições ou momentos do texto conversacional.

Um fato interessante é notar que, por vezes, os MCs podem estar ligados à estereótipos e sua utilização pode ser típica de um grupo específico de falantes. Desta maneira, a marca de alguns MCs está, sobretudo, na informalidade cujos discursos e interações são produzidos. Na figura abaixo, podemos conferir uma sátira à utilização em excesso de um MC bastante estereotipado, o MC “tipo”.

Figura 1: Adão Iturrusgarai, “Tiponite Aguda”.

Assim, considerando que a utilização de MCs é mais notável e saliente em situações de informalidade, tornou-se importante considerar o fenômeno da hipercorreção na coleta de dados para investigações sobre MCs. Segundo Calvet (2002, p.79), a hipercorreção “é testemunha de insegurança lingüística. É por considerar o próprio modo de falar como pouco prestigioso que a pessoa tentar imitar, de modo exagerado, as formas prestigiosas”. Em vista disso, escolhemos analisar neste artigo dados coletados em situações espontâneas de uso da LP. Por tais motivos, analisaremos dados coletados nas redes sociais facebook, Sina Weibo e QQ[2].

Os MCs e o aprendente chinês

Extendendo o uso dos MCs aos aprendentes de PLE chineses, e considerando ainda que a adoção de MCs usados por estes aprendentes pode estar relacionada ao ensino formal de PLE, é fundamental salientar que há uma tendência para que o ensino da gramática normativa e método tradicional ainda estejam no cerne dos currículos e materiais didáticos de LE empregados na China[3]. Em função disto, ressaltamos que a gramática normativa serve-nos como o principal referencial para o uso padronizado da língua, na qual tais regras e referências apresentadas não representam necessariamente as necessidades reais de uso de expressões e palavras usadas na fala e interação cotidianas.

Contudo, é notável que métodos e abordagens tradicionais têm caído em desuso na China e a necessidade de formação de alunos com competências comunicativas mais maduras e desenvolvidas trouxe novos desafios ao ensino/aprendizagem de LE na China.Essas necessidades são percebidas pelo crescente interesse de docentes e aprendentes em trazer à sala de aula de LE a vivacidade da língua e cultura alvo. Neste sentido, o uso dos MCs no ensino/aprendizagem de LE traz aos aprendentes mais uma maneira e recurso para desenvolverem suas oralidades e produzirem significados e interações na língua e cultura alvo.

À vista disso, é importante uma breve revisão de como o tema MCs tem sido tratado especificamente no ensino de línguas em contexto acadêmico na China. Apesar dos MCs também serem objeto de estudos em língua chinesa (mandarim) como LM ou L2 (WANG& ZHOU, 2005;XIA, 2007; JIN, 2008), abordademos mais especificamente neste artigo estudos sobre a utilização de MCs por aprendentes chineses de LE (WANG & ZHU, 2005; WANG, 2009; XU, 2009; LIN, 2009;  LI & LI, 2010).

Segundo Wang & Zhu (2005), em um trabalho que baseia-se no discurso oral e espontâneo de aprendentes chineses de língua inglesa, o discurso de aprendentes chineses em língua inglesa é marcado por algumas características salientes, das quais os autores destacam: (i) a predominância de quatro MCs, a saber: and, but, very e I think; (ii) a menor frequência do uso de MCs em relação aos falantes nativos da língua inglesa e; (iii) a predileção dos aprendentes chineses pelo uso de MCs de adição. Os autores ressaltam, ainda, que o uso excessivo de and e but pode ter relação direta com a transferência de padrões sintáticos da língua materna (no caso, mandarim).

Wang Haipeng (2009) faz um detalhado levantamento dos MCs comumente utilizados por aprendentes chineses de língua inglesa usando como base um cruzamento entre os dados do SECCL (The Spoken English Corpus of Chinese Learners) e do BNC (British National Corpus). Sua análise é interessante por revelar uma consciência explícita dos aprendentes chineses sobre o uso dos MCs. A respeito disso, o autor comenta:

os estudantes chineses podem adotar conscientemente marcadores de discurso em seu inglês oral, tanto em suas práticas diárias quanto nos exames. No entanto, ainda existem alguns problemas em seu uso de marcadores de discurso, tais como seus usos excessivos [and, yes, well, I think] e o uso indevido de alguns marcadores de discurso.” (WANG, 2009, p.83)[4]

Em um estudo similar, Li Xue e Li Weiqing (2010) apontaram para o uso excessivo dos MCs eh, um, but e I think, e para uma tendência de aprendentes chineses não usarem alguns MCs comumente usados por nativos de língua inglesa, tais como yeah, well, er,I mean e actually. Os autores sustentam a hipótese de que, por um lado, há uma tendência dos aprendentes chineses a usarem os mesmos MCs que utilizariam em suas línguas maternas, porém, por outro lado, e em alguns dados contextos, o uso de alguns MCs é uma estratégia consciente para aprendentes aproximaremseus estilos conversacionais aos estilos de nativos de língua inglesa.

Desta maneira, tomando o fato de que aprendentes chineses utilizam alguns MCs da língua alvo durante a aprendizagem/aquisição e, ainda, devido às possíveis semelhanças entre alguns MCs do português e chinês, interessa-nos explorar neste trabalho a hipótese de transferência positiva de padrões da LM na aprendizagem de PLE em aprendentes chineses. Nosso corpus foi coletado por meio de comentários e interações de aprendentes chineses de PLE com nativos da língua portuguesa, ou com seus próprios colegas chineses, em redes socias como Facebook e Sina Weibo. Destacamos, ainda, o caráter espontâneo das falas e interações analisadas neste artigo.

A fim de manter preservada a identidade de nossos informantes, utilizaremos nos exemplos citados neste trabalho um código formado por uma letra mais um número, no qual a letra “B” refere-se aos informantes brasileiros e “C” aos informantes chineses. Por fim, os dados foram coletados entre 2013 e 2014 e todos informantes chineses envolvidos são graduandos em PLE, sendo que alguns dados referem-se à época em que os aprendentes encontravam-se em intercâmbio no Brasil ou Portugal.

Feitas estas considerações, passemos a tratar dos dados coletados a seguir.

O uso de MCs por aprendentes chineses de PLE

Nos processos de ensino/aprendizagem de L2/LE, é necessário referir-se ao fenômeno da transferência linguística. Segundo Odlin (1989:27), “transferência é a influência resultante das semelhanças e diferenças entre a língua alvo e quaisquer outras línguas anteriormente (talvez imperfeitamente) adquiridas”[5]. Levando-se em conta que os materiais didáticos usados pelos alunos não abordam explicitamente o tema MCs, uma questão inicial é refletirmos se os MCs que aprendentes chineses utilizam na LP são aprendidos formalmente na sala de aula ou adaptados e/ou transferidos da LM dos aprendentes. Para isso, vejamos abaixo algumas ocorrências dos MCs na fala dos chineses.

Exemplo 1

Figura 2: exemplo 1, retirado do facebook.

Exemplo 2

Figura 3: exemplo 2, retirado do facebook.

Ambos exemplos mostram a presença do MC “aí”. Segundo os materiais didáticos empregados na aprendizagem dos aprendentes em questão, “aí” é apresentado apenas como um advérbio locativo e que está relacionado com a distância física entre os interlocutores. No entanto, o “aí” utilizado pelos aprendentes não tem relação com suas localizações, conforme ressalta o material didático, mas sim com o marcador sequenciador de tópico, marcando, portanto, a sequência no discurso, assim como seus similares “depois”, “e” ou “por isso”.

Curiosamente, na língua chinesao “aí” corresponde exatamente ao MC chinês ranhou.[6]De acordo com o Dicionário do Chinês Contemporâneo (2012), ranhou é utilizado para dar sentido de movimento, ou seja, estabelece uma relação aditiva entre duas orações. Wang & Zhou (2005), em um estudo sobre a expansão do uso do ranhouno chinês moderno falado, demonstram que 98% dos universitários chineses entrevistados utilizam ranhou como MC na fala e, destes que o utilizam, 32% utilizam-o com excessiva frequência. Ainda, 94% dos inqueridos costumam utilizá-lo em qualquer situação, seja em situações formais ou informais. Os resultados da pesquisa de Wang & Zhou apontam para o fato de que “o uso do ranhou é muito comum, embora seu uso não esteja restrito a satisfazer nenhuma condição” (Ibidem, p.33)[7].

Assim sendo, no exemplo 1, o MC “aí” tem função de marcador sequencial no discurso –tal como o MC “depois” –desepenhando, portanto, o mesmo papel de ranhou na língua chinesa.Esteexemplo sugere-nos que os aprendentes chineses têm grande facilidade em empregar este MC sequencial, pois o equivalente semântico de “aí” em chinês é justamente ranhou. Vejamos um outro MC comumente utilizado por aprendentes chineses:

Exemplo 3

EXEMPLO

Figura 4: exemplo 3, retirado do facebook.

Da conversa entre os aprendentes,percebemos a ocorrência dos MCs “tá bom?” e “tá”. De acordo com o que diz a literatura dos MCs, verificamos que estes marcadores geralmente marcam a finalização de turno. O “tá bom” serve para o sustendador do turno buscar e/ou solicitar concordância do seu ouvinte e a resposta “tá” é uma confirmação de envolvimento do ouvinte.Vejamos mais alguns exemplos do uso de MCs em aprendentes chineses:

Exemplo 4

Figura 5: exemplo 4, retirado do Weibo.

Exemplo 5

Figura 6: Exemplo 5 (antigo ex 7), retirado do QQ.

Nos exemplos 3, 4 e 5, vemos que os chineses utilizam alguns MCs em suas interações, dentre os quais é curioso notar que “tá bom?”, “tá” e “bom” podem corresponder literalmente ao MC chinês haoba[8]. De acordo com Liu (2013), em um estudo sobre a utilização do MChaoba em redes sociais chinesas, no chinês modernoo haobapode ocupar as seguintes posições ou funções: (i) emfinal de frase curta, formando-se pela estrutura verbo ou substantivo + hao (adj.) + ba (partícula modal[9]), para solicitar envolvimento do ouvinte; (ii) em final de enunciado como forma interrogativa, sugerindo um pedido de conselho ou entendimento sobre uma ordem proferida e; (iii) no início do enunciado como um acatamento a uma ordem ou para expressar concordância com a oração precedente. Percebe-se, portanto, que os MCs “haoba” e “tá bom” ocupam posições e funções similares na LM dos aprendentes e na língua alvo, estando ambos localizados quase que em sua totalidade no início e no final de seus turnos.

Desta maneira, ambos MCs desempenham papéis fundamentais de função interacional na busca de aprovação discursiva, ou seja,  o locutor busca confirmar e sustentar seu próprio argumento e ainda solicitar envolvimento do ouvinte. Ademais, haoba é bastante usado em chinês para pedir conselho, solicitar compreendimento de uma ordem expressa e/ou acatar uma ordem e, quando em posição final, caracteriza-se por sua entonação ascendente – característica comum dos marcadores finais de turno. Depreendemos que estas semelhanças entre os MCs “tá bom” e “haoba” são producentes para que os aprendentes chineses adotem e incorporem largamente o MC “tá bom” e “tá bom?” a suas falas.

Exemplo 6, retirado do QQ (itálicos nossos).

B3:pq no Brasil falar que alguém é um doce pode ter MUITA ironia!
C6:nao sabia disso 
B3:claro que depende da entonação que vc fala!
C6:aprendi agora
C6: ah entendi 
C3:então posso dizer q [...] é um doce?
C7:entao [...] eh muito doce
C6: ai vcs ........
C7:vc [C3] falou o que eu queria falar...

Exemplo 7, retirado do Facebook.

EXEMPLO9

Figura 7: exemplo 7, retirado do facebook.

Nos exemplos 6 e 7, considera-se “então” como um MC que se situa em posição inicial para que se desenvolva o turno. Ele pode ser uma variante de “por isso” ou “portanto” e carrega o valor de inserção de uma conclusão de ideia ou algum raciocínio explicitado na oração anterior. O MC “então” pode ser traduzido literalmente para chinês como name[10]. O MC name na China possui duas acentuadas características. A primeira delas refere-se ao seu emprego em uma grande extensão geográfica da China, presente inclusive em uma grande variedade de dialetos chineses. A segunda característica é que apresenta uma elevadíssima frequência de produção tanto em situações formais como informais. Além do mais, name é uma conjunção usada para mudança ou início de um tópico/assunto e para ajudar a dar sequência à oração precedente. Por estas características, é incorporada ao vocabulário dos aprendentes chineses como seu similar em português, o MC “então”.

Enfim, o que vimos nestes breves exemplos apresentados é uma grande utilização de MCs da LP que tenham correspondentes semelhantes na LM dos aprendentes. Sem dúvidas, estes dados são apenas alguns indicativos no que se refere à possibilidade de transferência da LM e não são por si só conclusivos. Porém, quando comparamos aos MCs mais utilizados pelos aprendentes em suas LM, percebemos que os MCs da LP utilizados por eles sugerem haver um predisposição para a maior produção de MCs da LP que sejam semelhantes ou similares aos MCs de suas LM.

Considerações Finais

Foi objetivo deste estudo demonstrar uma predileção dos aprendentes chineses de PLE a utilizarem em seus textos conversacionais alguns MCs, tais como “aí”,“tá bom” e “então”. Esses marcadores são literalmente correspondentes aos MCs chineses ranhou, haoba ename, um dos MCs mais utilizados na língua chinesa. Percebemos que os chineses facilmente incorporam alguns MCs da LP que –assim como o fazem para a língua inglesa –sejam semelhantes ou idênticos aos utilizados em suas LM.

De acordo com os dados analisados –e juntando-se a isso nossa experiência de ensino de PLE para aprendentes chineses e sermos, respectivamente, uma falante nativa do mandarim e um falante nativo da LP –,sustentamos os pressupostos defendidos por Wang & Zhu (2005),Li & Li (2010), Chen & Li (2010) e Wang (2010) de que o emprego de MCs como “aí”,“tá bom” e “então”, entre outros MCs, são influenciados diretamente pela LM dos aprendentes em função, sobretudo, das grandes semelhanças entre os usos semânticos destes MCs na língua alvo e no mandarim.

Ainda de acordo com nossa experiência de ensino de PLE a aprendentes chineses, percebemos na fase de coleta de dados que a produção de MCs da LP que não tem correspondentes exatos na língua chinesa, tais como alguns MCs redutores e resumidores, são comumente evitados pelos aprendentes. Porém, por outro lado, MCs de sequência, de requisito de apoio discursivo e finalizadores, abundantes na língua chinesa, são bastante utilizados pelos aprendentes chineses.  

Tomando oargumento de que a transferência positiva pode ser motivada pela influência facilitadora do vocabulário cognato ou quaisquer outras semelhanças entre a língua nativa e a língua alvo(OLDIN,1989, p.26), consideramos que alguns MCs da língua chinesa que têm características semelhantes aos de LP são potencialmente transferidos e assimilados para a LP durante o processo deaprendizagem. Desta maneira, e ainda de acordo com a hipótese de transferência línguistica, os dados coletados sugerem uma transferência positiva no uso de MCs, sobretudo os de sequência e finalizadores, durante a aprendizagem do PLE em aprendentes nativos de língua chinesa.

Para que possamos afirmar tais suposições, faz-se imperioso um estudo mais abrangente e com dados mais representativos. Além disso, os dados coletados, apesar de espontâneos, não representam necessariamente um texto conversacional fluente e com indicadores de força ilocutória, pois, diferentemente do texto oral espontâneo, nos excertos analisados houve um tempo e espaço para a organização dos discursos e não houve, consequentemente, a necessidade explícita e latente de tomada, sustentação ou troca do piso conversacional.

Por fim, ressaltamos que a pesquisa e ensino dos MCs são essenciais para um modelo de ensino/aprendizagem de LE que tenha como objetivo desenvolver as competências comunicativas dos aprendentes e, assim, incrementar e estimular, entre várias possibilidades, a produção de significados e de uma consciência dos mecanismos que regem as forças ilocutórias na língua e cultura alvo.

Referências bibliográficas

  • CALVET, J. L. Sociolinguística: uma introdução crítica. São Paulo: Parábola Editorial, 2002.
  • CASTILHO, A. T. Para o estudo das unidades discursivas no português falado culto no Brasil. In: CASTILHO, A T. (org.) Português falado culto no Brasil. Campinas : UNICAMP, 1989, p. 249-279.
  • CHEN, C. F. & LI, W. Q. 英语口语话语标记语使用实证研究及教学启示 [Investigação sobre o desenvolvimento e implicações educacionais do uso dos marcadores discursivos da língua inglesa]. China University Teaching, 2010(08), p.59-62.
  • DICIONÁRIO DO CHINÊS CONTEMPORÂNEO 《现代汉语词典》, Shangwu press, 2012.
  • HE, H. F. 连词“那么”的口语用法[O uso docoesivo “name” na linguagem oral]. Language Planning), 1998(01), p.15-16.
  • JIN, Y. 现代汉语口语交际中“然后”一词使用情况探析[Análise do uso de “ranhou” na comunicação verbal da língua chinesa moderna]. Journal of Yunnan Agricultural University (Social Sciences Edition), 2008(01), p.76-79.
  • LADO, R. Linguistics  across  cultures.  Michigan:  Ann  Arbor University Press, 1957.
  • LI, X. & LI, W. Q. 英语专业学生话语标记语使用情况之实证研究[Análise  do uso de marcadores discursivos por aprendentes chineses de língua inglesa]. Journal of Shenyang University, 2010(05), p.89-91.
  • LI, X. Y. “好吧”语境中的语用意义浅析[Análise dos significados contextuais de  “haoba”]. Literature Education, 2010(07), p.139-141.
  • LIN, L. L. 中国英语学习者话语标记语使用发展研究及教育启示—基于SECOPETS语料库语料的研究[Pesquisa sobre o desenvolvimento e implicações educacionais do uso de marcadores discursivos em aprendentes chineses – Uma pesquisa baseada nos corpora da SECOPETS]. Journal of Social Science of Hunan Medical University, 2009(06), p.136-138.
  • LIU, J. J. 微博中中话语标志语“妤吧”研究[Um estudo sobre o marcador discursivo “haoba” no micro-blog Weibo]. Central China Normal University: 2013. Dissertação de mestrado.
  • MARCUSHI, L. A. Análise da Conversação. São Paulo: Ática, 1986.
  • MARCUSHI, L. A. Da Fala para Escrita: Atividades de Retextualização. São Paulo: Cortez, 2003. 4ª. ed.
  • ODLIN, T. Language transfer: cross-linguistic influence in language learning.Cambridge: Cambridge University Press, 1989.
  • URBANO, H. Marcadores Conversacionais. In: PRETI, D. (org.). Análise de Textos Orais. São Paulo: Humanitas, 2010. (4ª ed.)
  • WANG, H. P. 英语专业学生话语标记语使用情况研究[Análise sobre o uso de marcadores discursivos por aprendentes chineses de língua inglesa]. Journal of Ningbo Institute of Education, 2009 (06), p.83-86.
  • WANG, L. F. & ZHU, W. H. 中国学生英语口语中话语标记语的使用研究[Análise do uso dos marcadores discursivos em aprendentes chineses estudantes em discurso oral]. Foreign Languages Research, 2005(03), p.40-48.
  • WANG,W. & ZHOU, W. H. “然后”一词在现代汉语口语中使用范围的扩大及其机制[A extensão do termo “ranhou” em chinês moderno falado e o seu mecanismo de funcionamento]. Hanyu Xuexi, 2005 (4), p.31-39.
  • XIA, H. J. 汉语话语标记语在口语会话中的人际互动功能分析[Análise da função interpessoal dos marcadores discursivos na comunicação verbal em língua chinesa]. Jilin: Jilinuniversity, 2007. Dissertação de mestrado.
  • XU, L. X. 基于语料库的对中国学生英语口语中话语标记语使用的研究[Estudo sobre a aquisição de marcadores discursivos da língua inglesa falada]. Journal of Shanxi Agricultural University (Social Science Edition), 2009(01), p.64-67.


[1]
Neste artigo, adotaremos a terminologia marcadores conversacionais, destacando, porém, que não há um consenso na literatura acerca desta denominação, sendo também utilizadas diversas denomimações, tais como marcadores discursivos, apoios do discurso, expressões de situação, operadores discursivos etc.  

[2]Sina Weibo, ouWeibo, é um website tipicamente chinês que é um misto entre o twitter e facebook. O Weibo é uma das principais plataformas chinesas de interação e, tendo em vista as dificuldades de acesso ao facebook na China, é, atualmente, a rede social mais usada na China. O QQ engloba uma plataforma web de notícias, correio eletrônico, microblog e webchat. O QQ é o webchat mais utilizado na China.

[3]Aos leitores interessados no contexto chinês de ensino/aprendizagem de LE, convidamos a uma leitura da revista da SIPLE edição 5.

[4]Texto original: “通过对自行搜集的英语专业学生口语语料和及中英语本族语人士的口语语料进行对比发现中国英语专业学生不管是在考试还是日常对话中已经在有意识地使用话语标记但是中国学生在话语标记的使用方面同本族语人士相比还是有所不同使用频率总体偏高个别话语标记使用不当” (p. 83).

[5]Texto original: “Transfer is the influence resulting from similarities and differences between the target language and any other language that has been previously (and perhaps imperfectly) acquired” (p.27).

[6]Ranhou(然后depois, em tradução literal),é originalmente uma conjunção aditiva que estabelece uma relação sequencial entre duas orações. Ele é muito usado coloquialmente na língua chinesa como um MC e os seus possíveis sinônimos em português podem ser “aí”, “daí” e “e”.

[7]Texto original: “以上数据表明了“然后”一词的使用已经相当频繁, 而且不受场合的制约”(p.33)

[8]Haoba(好吧bomou está bom, em tradução literal) é muito usado coloquialmente como um MC em chinês e equivale semânticamente ao "tá bom" "bom", "tá certo" e "beleza" do português.

[9] O mandarim é uma língua tonal e possui 4 tons semânticos e um tom neutro (轻声, qingsheng). Partículas modais possuem tom neutro para que o locutor possa marcar a entonação do enunciado.

[10]Name(那么então, em tradução literal) é uma conjunção muito usada coloquialmente como um MC em chinês e equivale a "então" "por isso" e "neste caso" em português.

 

Pesquisar