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O Texto no Português como Língua Estrangeira (PLE): Entre Blogs e Redes Sociais Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Nascimento dos Santos (Universidade de Brasília), Maria D’Ajuda Alomba Ribeiro (Universidade Estadual de Santa Cruz)   

Resumo: Este estudo tem como objetivo discutir a importância das aulas de produção textual utilizando o meio virtual no Ensino de Português como Língua Estrangeira (PLE), a partir das reflexões sobre o uso das (novas) tecnologias existentes. Assim, pretendeu-se investigar em que medida o uso das ferramentas virtuais fornecem propriedades úteis para o ensino de produção textual, a partir da colaboração e da (re) significação do lócus de produção textual e de aprendizado. Nesse sentido, nos baseamos na Linguística Aplicada e na Linguística Textual (MARCUSCHI,2004, 2005) e na Linguística Aplicada (CORACINI, 1995; MORITA, 1992; ALMEIDA FILHO, 200, MOITA LOPES,1996), buscando compreender a entrada do texto na sala de aula de PLE a partir dos diversos gêneros textuais, e do poder da mídia virtual para empreender um aprendizado colaborativo e eficaz. Desse modo, ao escolher trabalhar com blogs e redes sociais, investigamos desde a criação do texto colaborativo no blog até a reprodução dos links nas redes sociais e pudemos detectar fatores expressivos que contribuem para a entrada do texto digital na sala de aula de PLE.

Palavras-chave: Linguística Aplicada; Linguística textual; PLE.

ABSTRACT

This study aims at discussing the importance of textual production lessons using hypertext and Internet to learn Portuguese as a Foreign Language (hence PFL), reflecting upon (new) technologies. So, it aimed at investigating to what extent the use of tools may offer useful properties for the learning of textual production, collaboration and redefinition of locus of textual learning. Accordingly, we rely upon the Textual Linguistics and Applied Linguistics (MARCUSCHI,2004, 2005, CORACINI, 1995, MORITA, 1992, ALMEIDA FILHO, 200, MOITA LOPES,1996), to realize the introducing textual aspects in PFL classroom, through several textual genre and virtual media which may help in a collaborative and effective learning. By this way, when it seeks to work with blogs and social networking, we want to investigate since the edition of collaborative text until the use of links of those texts in the social networking and how we could detect expressive factors which may contribute to introduce the digital text in PFL classroom.

Keywords: Textual Linguistics; Applied Linguistics; PFL.

Introdução

A Linguística Aplicada é uma área interdisciplinar nascida da necessidade de aplicação dos conceitos produzidos em Linguística Teórica (MOITA LOPES, 2006), mas que, ao passar dos tempos, foi ressignificada a partir da prática e da materialidade sociodiscursiva das coisas. Assim, o que era apenas um enfoque dado à aplicação dos pressupostos linguísticos, passou a ser um campo interdisciplinar, ou, ao dizer de Moita Lopes (2006) “indisciplinar”, ou ainda como define “transgressivo” por entender que se faz necessário criar uma barreira entre teoria e prática, em que ambas se reconstruam mutuamente e que as teorias possam surgir da prática. Diante disso, nem se fala e nem se entende, em nossos dias, na Linguística Aplicada como um ramo da Linguística, mas uma área das Ciências Sociais aplicadas que busca entender a Linguagem a partir de suas práticas e as teorias a partir da realização da materialidade histórica.

Ao tratar da materialidade histórica, entendemos a linguagem como processo e não como resultado, pois o discurso não é somente pelo qual os interesses se materializam, mas os interesses que se materializam, sendo o discurso sedimentado na arena social (BAKHTIN, 1997), marcado pela ideologia dominante difundida pelos Aparelhos Ideológicos de Estado (ALTHUSSER, 1980), e por uma ordem discursiva selecionada e editada por determinados grupos e poderes (FOUCAULT, 1996).

Desse modo, é com a força motora que move os estudos em Linguística Aplicada que buscamos, neste trabalho, entender como se dá a entrada do texto em sala de aula de Português como Língua Estrangeira (doravante PLE) ao utilizar as ferramentas tecnológicas existentes na Internet, como blogs e redes sociais, a partir de textos selecionados de alunos de PLE, produzidos e publicados em meio digital.

Tentaremos estabelecer uma agenda de práxis para as aulas de leitura em PLE, com ferramentas tecnológicas da Internet, baseando-se nas pesquisas divulgadas em meio acadêmico. Assim, primeiro abordaremos algumas mudanças na cena da Linguística Aplicada brasileira e seus enfoques na sala de aula de PLE como campo interdisciplinar e transgressivo e, logo após, tentaremos esboçar aspectos da entrada do texto em sala de aula, da abordagem de gêneros textuais etc. Tentaremos também provocar a reflexão sobre a relação entre a leitura em meio digital e a descoberta de si e do outro na interculturalidade em meio digital, sob a ótica da Internet ser um espaço de multiculturalismo e interculturalidade. Finalmente, analisaremos textos produzidos e publicados por dois alunos de PLE em redes sociais e blogs (a saber Facebook e Blogger), produzidos e coletados em pesquisas de iniciação científica realizadas no projeto Português como Língua Estramgeira da Universidade Estadual de Santa Cruz, em Ilhéus, Bahia. Dessa maneira, a partir dos textos analisados, apontaremos as características que permitem inserção do texto em sala de aula de PLE.

 Linguística Aplicada e a pós-modernidade: virada cultural na prática do professor de PLE

Ao (re) visitar a obra de diversos pesquisadores brasileiros, desde as décadas de 70-80, podemos destacar a mudança e a contribuição que esse campo, afinado com as Ciências Sociais Aplicadas, vem promovendo na cena político-acadêmica brasileira.[1]

No quadro contemporâneo da Linguística Aplicada brasileira, é possível destacar o esforço de pesquisadores brasileiros em entender o espaço da sala de aula e os processos ali desencadeados e desenvolvidos, sob a luz de teorias que não somente aquelas inerentes à atividade linguística em si, mas a processos que a circundam. É o caso, por exemplo, da análise de construção do aprendizado na sala de aula através da colaboração (SILVA, 2011 etc.), da investigação sobre o uso de tecnologias no ensino de PLE (MORITA, 1992; SANTOS & ALOMBA, 2011), do discurso sobre a homofobia em sala de aula de LE (MOITA LOPES & FABRÍCIO, 2008), entre outros tópicos e temas de investigação desenvolvidos em programas de pós-graduação no Brasil em nossos dias.

No entanto, uma discussão empreendida sobre a história da Linguística Aplicada e o seu atual momento nos permite problematizar a importância em (re) pensar a ordem social em que vivemos e a crise da razão e da representação, em nosso tempo recorrente e fundamental, que tem suas grandes contribuições em Marx, Nietzsche, Freud e seus seguidores, cada corrente com seus objetos teóricos norteadores. Assim, torna-se imprescindível entender que, ao contrário da ciência moderna, aquela de intelectuais orgânicos, da objetividade e racionalidade técnica, centrada na quantificação, na apenas observação da materialidade histórica, uma ciência da pós-modernidade[2] (ou pós-colonial) centra-se, cada vez mais, nos aspectos qualitativos, sob os quais as ciências devem ser entendidas como transformadoras da realidade social (FABRÍCIO, 2006).

Toda essa discussão reforça os postulados dos Estudos Culturais e reafirma a ideia de que é preciso buscar conhecimentos em outras áreas do conhecimento para entender, em muitos aspectos, as problemáticas que cercam a linguagem (MOITA LOPES, 2008).

De outro modo, todos os aspectos que a Linguística Aplicada (doravante LA) brasileira vem promovendo, nos últimos anos, possibilitam ao professor mais possibilidades e perspectivas. Um exemplo é quantidade de pesquisas produzidas sobre a sala de aula, dentro dela, a chamada pesquisa-ação, em que o próprio pesquisador é professor de LE e utiliza sua sala de aula como lócus de investigação e resposta às indagações.

A pesquisa sobre crenças no ensino de LE tem produzido frutos importantes na pesquisa brasileira em LA (BARCELOS & ABRAHÃO, 2006; SCHEIFER, 2008, 2011, SILVA, 2011a et alli.), permitindo entender como pensam alunos, professores e outros atores no ensino de LE no espaço escolar e fora dele.

É possível verificar, no que diz respeito ao ensino/aprendizado de Português como Língua Estrangeira, como interesse pelo PLE tem crescido no Brasil ao observar a quantidade de projetos e centros de ensino de Português para estrangeiros em universidades brasileiras. Silva (2011b) mapeou alguns desses projetos e constatou a diversidade de intenção, mas a precariedade de funcionamento de alguns desses projetos. Inferimos aqui dois marcos para o crescimento do interesse pelo aprendizado de PLE: (a) a criação do Mercado Comum do Cone Sul (MERCOSUL), segundo destacam Alomba Ribeiro (2005) e Almeida Filho (1992), tendo como caracterização a fundação de escolas para o ensino de PLE em países do bloco; (b) a crise no sistema financeiro internacional, sendo chamada de segunda grande crise do capitalismo. Autores como Sader & García (2010), Pochman (2010) demonstram que ao contrário dos demais países envolvidos no Neoliberalismo iniciado na década de 70 com cortes de gastos públicos, medidas de austeridade fiscal, que o Brasil tem conseguido, nos últimos dez anos, se manter de pé, criando vagas reais de emprego formal, além do investimento em programas sociais de erradicação da pobreza, e renda, além do investimento no mercado interno, levando a economia brasileira à projeção futura e próxima de sexta maior economia do mundo. Esses dados revelam um destaque do Brasil no cenário internacional. Tal destaque, segundo nossa preposição, leva à Europa e Estados Unidos a exportar mão de obra. Esses profissionais, para se adequar ao idioma, têm se interessado pelo Português. O resultado disso é o aumento de conferências sobre o futuro do Português e os centros de Português instalados em países não lusófonos e hispânicos, como é o caso dos Estados Unidos.

Mapeando esse arcabouço desenvolvido ao longo desta seção, temos como objetivo discutir a importância das aulas de leitura com ferramentas virtuais no ensino de Português como Língua Estrangeira a partir de blogs e redes sociais. Antes, porém, revisitaremos a literatura especializada sobre leitura e gênero, para, logo após, tentar entender o impacto das aulas de leitura no ensino de PLE.

O texto no ensino de PLE

 A abordagem a ser seguida neste trabalho parte de um conjunto de fundamentos que vão desde a inserção das práticas de linguagem em uso na sala de aula[3] até a defesa do texto como possibilidade de análise dessa linguagem em uso (KLEIMAN, 2001; CORACINI, 1995; MARCUSCHI, 2004).

Ao falar sobre a inserção das práticas de linguagem em uso na sala de aula, entendemos a escola brasileira como aquela que reproduz, em diversos aspectos, um comportamento estruturalista sobre a linguagem (BAGNO, 2008; MOITA LOPES, 1996), o qual isola os elementos linguísticos para serem analisados. Por isso, tanto em Língua Materna (doravante LM) quanto em LE é ainda comum ver métodos gramatiqueiros, em que são feitas análises sintáticas, morfológicas sem nenhuma relação com exemplos reais. Em LE é mais do que comum do que se imagina (COELHO, 2005), sendo que as aulas chegam até a frustrar alguns alunos, conforme demonstra um trecho retirado da dissertação de mestrado de Coelho (2005):

[...] até me preocupo em levar alguns jogos... a professora Carol, trabalhou conosco... me emprestou bastante jogos, então levei...enquanto eles estão fazendo alguma coisa assim lúdica... vocabulário eles gostam muito... eles memorizam... agora quando eu começo a ensinar a gramática... "vamos ensinar o uso do 'do' e do 'does' " ..."ah, Vilma! Isso não!"... então quando é coisa que eles gostam que eles memorizem fácil, que tá no nível deles, eles curtem, mas quando é uma coisa mais difícil, uma gramática, uma coisa assim, eles já falam, "ah isso é difícil! isso eu não vou aprender!”. (COELHO, 2005, p. 65)[4]

Para tanto, entendemos que a prática do professor precisa ser renovada no que condiz com as pesquisas realizadas em nossas universidades, em conformidade com o atual estágio de desenvolvimento humano, valorizando as competências linguísticas. Assim, o texto se torna um excelente dispositivo para perceber a funcionalidade linguística. Diante da linguagem escrita, diferente do preconceito do senso comum, podemos verificar a diferença nos níveis de variação linguística exigida pelo estrato social, o registro em função do contexto tendo em mente o interlocutor para qual o texto se destina, além dos discursos enunciados, das formações discursivas, dos valores culturais implícitos no texto, bem como a composição da estrutura sintática, semântica, morfológica etc. A linguagem escrita, como a oral tem seus níveis de variabilidade linguística de acordo com fatores linguísticos e extralinguísticos, segundo também advoga Marcuschi (2008, p. 51), aludindo a uma apresentação seguinte:

Como se verá agora, vamos analisar o texto como uma realidade e não como uma virtualidade. Pois o texto não é apenas um sistema formal e sim uma realização linguística a que chamamos de evento comunicativo e que preenche condições não meramente formais.           

E completa:

Um dos equívocos mais comuns na LT[5] dos anos 1970 foi precisamente ter identificado o texto como uma frase ampliada (daí a noção de LT como uma fase do transfrástico), quando, na realidade, o texto é uma unidade teoricamente nova e não apenas uma frase ampliada. Também não é uma simples sucessão de enunciados interligados. Já não se postula mais a ideia e que o texto seria “uma sucessão coerente e coesa de enunciados” (Op. Cit., p. 55).

Por isso, entendemos que, para que o professor entenda a necessidade de trabalhar produção textual na sala de Português como Língua Estrangeira ou de outra dada Língua Estrangeira, sendo esse nosso foco, é preciso que ele entenda que o texto escrito está sujeito à variabilidade, não é homogêneo e estático, e se enquadra nas configurações, historicidade e funcionamento dos gêneros textuais, uma vez que Marcuschi (2004, 2005, 2008) define gênero como entidade sócio-histórica envolta de determinados interesses, com um caráter definido por fatores linguísticos e extralinguísticos e com determinada forma articulada para sua existência ter sentido enquanto texto. Sob essa categorização, todos os textos, sejam escritos ou orais, impressos ou online, se apresentam na forma de gêneros.

A diversidade textual pode, nesse sentido, ser alcançada em sala de aula de PLE ao trabalhar a quantidade de gêneros existentes. Antunes (2009, 2010) defende o uso dessa variedade de gêneros na aula de LM e em Muito Além da Gramática (2007) a autora buscou alcançar o ensino de LE ao advogar para uma postura menos conservadora de professores puristas e gramatiqueiros, os quais só se apropriam de uma única forma de gramática, a normativa.

Essa discussão é relevante, pois, ao ensinar língua a um estrangeiro utilizando texto como foco, é preciso saber utilizar a gramática no texto, visando num percurso que vá do texto ao discurso. Na seção seguinte, pretendemos discutir o texto no âmbito virtual.

O texto no âmbito virtual: múltiplas possibilidades para a aula de PLE

Tal como os textos impressos, os textos virtuais também se organizam em gêneros. Marcuschi (2005) reflete que eles se materializam em suportes, tal como os suportes dos textos impressos. Discute ainda que alguns gêneros digitais têm fundamentos a partir de gêneros já existentes, como é o caso do blog, ao funcionar como Diário eletrônico ou ainda o E-mail como uma carta. Assim:

Já nos acostumamos a expressões como “e-mail”, “bate-papo virtual” (chat), “aula-chat”, “listas de discussão”, “blog” e outras expressões da denominada “e-comunicação”. Qual a originalidade desses gêneros em relação ao que existe? De onde vem o fascínio que exercem? Qual a função de um bate-papo pelo computador, por exemplo? Passar o tempo, propiciar divertimento, veicular informação, permitir participações interativas, criar novas amizades? Pode-se dizer que parte do sucesso da nova tecnologia deve-se ao fato de reunir num só meio várias formas de expressão, tais como, texto, som e imagem, o que lhe dá maleabilidade para a incorporação simultânea de múltiplas semioses, interferindo na natureza dos recursos linguísticos utilizados. (MARCUSCHI, 2005, p. 13).

Diante dessa configuração, é preciso entender os gêneros de acordo com seu formato e suas peculiaridades linguísticas e discursivas e a sua realização num dado suporte. No caso do suporte virtual, as redes sociais e websites oferecem espaço para publicação de material informativo e de divulgação, dentre os quais pretendemos nos centrar diante do gênero mural do Facebook e do blog enquanto gênero e suporte.

O blog enquanto gênero configura-se, segundo postula Marcuschi (2005) como uma espécie de diário. Cabe notar, porém, desde a publicação citada do emérito professor Luís Antônio Marcuschi, como notam Santos & Alomba Ribeiro (2011), existem algumas mudanças na configuração do gênero que se materializa no suporte virtual blog, sendo atualmente mais próximo de informativo do que Diário pessoal.

Seguindo as orientações dispostas em Marcuschi (Op. Cit.), nossas observações in loco nas redes sociais (SANTOS & ALOMBA, 2011a, 2011b, 2012a, 2012b, 2012c, 2012d, 2012e), em resultados publicados de pesquisas de iniciação científica,    demonstram que elas têm se tornado suporte para a realização do Diário Pessoal, como é o caso do gênero textual Mural do Facebook.

O Mural[6] se configura como espaço de enunciação de (hiper) textos, podendo ser eles vídeos, músicas, mensagens de atualização pessoal, informações, explicações, protestos etc. Na seção a seguir buscaremos analisar alguns desses textos, em blogs e Murais e buscar sugerir uma agenda para o professor de PLE a partir da análise.

Alguns passos em direção a uma aula de PLE com textos virtuais

 Nossa escolha por textos virtuais deve-se, do ponto de vista prático, às inúmeras possibilidades que o âmbito virtual permite a uma aula de PLE. Dessas possibilidades, trabalhadas por Santos & Alomba (2012e), ao utilizar o blog ou a rede social como espaço de exercício para leitura e produção textual, por exemplo, o aluno pode postar textos interativos e ler textos interativos, em diversas modalidades de linguagem e registros.

Os textos a serem analisados foram produzidos por dois alunos norte-americanos, em épocas diferentes, no projeto de Ensino de Português como Língua Estrangeira da Universidade Estadual de Santa Cruz, com a integração entre pesquisa e extensão, unindo a investigação conduzida pela orientação nos projetos de iniciação científica à oferta do curso.  Assim, vamos começar analisando o seguinte texto, do estudante A:

[...]

E aí moral? Olha esse gringo!

O dia chegou!

O dia da minha despedida.

Tenha viajado muito, mas esta parte - a despedida - nunca é fácil. Queridos alunos, amigos e pessoas que ainda faltou tempo para conhecer melhor: estas palavras são para vocês.

Comecei esta viagem sem expectativas e volto para a minha terra com essa mesma percepção, mas eu não volto sendo a mesma pessoa de quando cheguei. Agora tenho uma perspectiva baianizada. Não estou triste por ir embora; sempre sabia que este dia chegaria, mas não é por isso que não me sinto triste. Como que eu posso sentir tristeza dos últimos nove meses? Foi uma maravilha morar no Pontal! As vezes pensei que eu estava num sonho, morando em frente ao mar, com sua brisa refrescante passando por minha varanda. E nada se compara ao ver o sol amanhecer sobre o mar com os amigos. Também passei por tempos ruins tanto quanto bons aqui, mas ainda assim, não posso reclamar - só celebrar todos os momentos que a vida me da.[7]

Mesmo com problemas de acentuação, pode-se constatar um nível de fluência no estudante, o que poderia conduzir a discussões sobre o texto produzido no blog e seus níves de formalidade. Assim, após o aluno produzir o texto, em sala de aula, lugar de orientação metodológica, o professor de PLE tem a oportunidade de discutir e incentivar (re) escritura do texto, a partir de diferentes gêneros (e.g. Artigo de opinião pessoal, reportagem, poema etc.). Para perceber o nível de monitoramento linguístico desse aluno, vamos ver agora uma postagem em forma de Mural no Facebook e um comentário, sendo esses dois gêneros a possibilidade de avaliar se o texto do blog foi amplamente revisado por um nativo ou não:

 

Imagem 1- Mural do Facebook do Estudante A

Imagem 2- Comentário Estudante A no Facebook

 As duas imagens passadas demonstram que, muito embora o registro tenha mudado, conforme pode-se notar (como o uso do “vc”, a exclamação), o aluno demonstra o mesmo nível de fluência nesses gêneros. Na entrevista feita durante as aulas ofertadas, ele disse ser membro de uma família peruana (traço encontrado na Imagem 2, acima). A ambientação bilíngue, entre o espanhol e o inglês, permitiu ao aluno mais facilidade no aprendizado/aquisição de Português. Trata-se de um aluno advindo do programa de intercâmbio acadêmico/profissional Capes/Fulbright, em que professores brasileiros são enviados aos Estados Unidos como assistentes de ensino de PLE e professores norte-americanos são enviados para cá na condição de assistentes do ensino de língua inglesa, em universidades parceiras participantes.

Esses textos podem usados para uma aula em que sejam explicados: (a) A diferença entre o suporte/gênero Blog como espaço para escolhas mais formais de textos quando informativos e/ou destinados para públicos em que a linguagem seja mais monitorada em sua exigência, como é o âmbito acadêmico. No caso do estudante A, trata-se de uma espécie de diário emseu blog com uma modalidade não tão monitorada linguísticamente, mas sem inadequações ortográfcas; (b) O Mural do Facebook para uma linguagem mais informal ou de projeção de informações, vídeos, músicas, permitindo uma variedade de propriedades, mas preferindo-se, cada vez mais, segundo nossa observação e notas de campo, o registro informal e não-monitorado etc. Vejamos agora outro exemplo, de uma estudante menos fluente, sem histórico de língua neolatina na família (como é o caso do Estudante A): a Estudante B:

Estou voltando ao meu blog, escrevendo de um país diferente, uma cidade nova, uma mentalidade aberta. As vezes escrever aqui no blog parece uma perdida de tempo – quem vai ler isso? Provavelmente poucas pessoas (o que significa que posso escrever muitas besteiras!) mas não vou tentar justificar meu desejo de escrever.

Cidade actual? Nashville, Tennessee: casa de musica country e bluegrass, onde as botas de caubói nunca morreram, a ioga é quente, o sol brilha em janeiro e a segregação racial é uma realidade social.Bem-vindo ao coração dos estados unidos. As pessoas gostam de conversar sobre a tecnologia- "olha o meu produto novinho de Apple "- e dirigem carros que são bem mais grandes do que o necessário. Eles curtem sentar nos cafés -"Vou querer uma cafe com leite de soja, eu sei que causa o câncer mais eu simplesmente adoro o sabor de aspartame"- e usar os seus notebooks (o que eles estão fazendo de qualquer jeito)? Provavelmente procurando um emprego, a coisa que eu devo estar fazendo em vez de escrever aqui... Os ricos gastam centos de dólares na comida de Whole Foods, enquanto os menos fortunados levam a família a McDonald's para o almoço, se poderíamos chamar aquela "comida" de "almoço". Tem ruas designados para as bicicletas em cada lugar na cidade- mas por quê a maioria das pessoas que andam em bicicleta ao trabalho/escola tem vinte pouco anos e são bonitos e saudáveis? Imagina uma cidade onde é normal andar em bicicleta e os ciclistas são respeitados na estrada. Aquela cidade não é o Nashville. Felizmente, as pessoas gostam de fazer exercícios e passam tempo nas parques da cidade, e tem uma mania para a comida saudável- que pena que ser saudável nos EUA significa gastar duas vezes mas na comida.

Os trechos em negrito no texto da Estudante B, publicado no blog do projeto, construído para as aulas de PLE, demonstram que a estudante não é tão fluente no texto escrito quanto o Estudante A. Essas características linguísticas, gramaticais e sociolinguísticas, no que diz respeito ao registro a ser seguido, foi trabalhada em sala de aula e pode gerar discussões importantes, em que se avalie as lacunas deixadas no texto do aluno, como concordância, idiomaticidade (no caso de “menos fortunados” não tão comum e em “novinho de Apple”), nos pares “mas/mais”, na acentuação etc. Vejamos agora o Mural dela na rede social Facebook:

Imagem 2- Postagens da Estudante B no Facebook- exercícios de tradução

Verifica-se, assim, que a estudante B, na coleta de dados, ainda não tinha adquirido traços de fluência do Português Brasileiro, ao contrário do Estudante A. Esses traços permitem um trabalho aprofundado do professor de PLE. Assim, sugere-se, a partir das especificidades dos gêneros digitais, a partir de Santos & Alomba Ribeiro (2012e, p.265):

  • O Bate-papo- este recurso permite que o aluno desenvolva a proficiência em PLE, assim como a prática ortográfica.
  • O Mural e o Tweet- na rede social Facebook e no microblog Twitter é possível ao usuário postar uma pequena mensagem sobre sua vida, atualizando seu perfil. No Facebook ela é chamada de Mural e, no Twitter de Tweet. É possível ainda postar comentários. Essa prática pode ser incentivada no aluno de PLE, possibilitando analisar sua evolução nos diversos usos que ele fará. Dessa maneira, o professor constrói objeto para análise em suas aulas, e permite ao aluno se expressar, estabelecendo a dialética entre sua cultura e cultura do Outro.
  • O Blog- em um nível um pouco mais formal, para que o aluno melhore o nível de sua escrita a fim de acompanhar a linguagem acadêmica e/ou terminológica o blog pode ser uma alternativa. Nesse suporte o professor pode propor que o aluno faça uma redação científica em um determinado espaço de tempo, expondo aspectos de sua área de estudo. O professor de PLE pode perceber, por meio dessa estratégia, se o aluno evolui no uso da linguagem técnica da área. Deve-se, por meio dessa técnica, exercitar a leitura de textos teóricos da área do aluno, para que seja desenvolvida a competência de aquisição da linguagem técnica. A leitura de revistas especializadas deve ser feita com frequência, pois, dessa forma, o aluno irá adquirir léxico e propriedades estruturais exclusivas da linha de pesquisa e campo do saber que estuda. 

Algumas considerações

Assim, compreendemos que a entrada do texto em sala de aula, a partir das perspectivas do gênero textual e sua historicidade e discursividade, além dos aspectos linguísticos e de seu formato (bate-papo, blog, Mural etc.), pode se dar por uma via menos conservadora e tradicional, somente do texto impresso, mas que as atividades possam fazer parte da vida corrente do estudante, sendo que o espaço da sala de aula corresponda ao espaço para orientação metodológica e que a construção do conhecimento não se prenda somente à sala de aula como espaço físico. É nessa oportunidade que a Internet ganha força como instrumento de interação, como seus suportes para gêneros textuais e digitais, como é o caso do blog e do Mural. As especificidades podem ser atendidas e desenvolvidas a partir da discussão da sala e aula, conforme os exemplos dados.

A partir do roteiro seguido por este texto, partimos para novos caminhos na dialética do ensino e PLE e as novas tecnologias, no sentido de pesquisa e desenvolvimento de material didático com suporte tecnológico. Esse suporte tecnológico, para além de um inimigo, pode ser um poderoso aliado, desde que ligado à perspectiva de letramento, ordenamento e planejamento metodológico.

Na agenda defendida neste trabalho, foi possível perceber, a partir da exposição do material da coleta de dados divulgado, que as ferramentas virtuais têm usos diversos e híbridos, sendo este trabalho uma porta para outros múltiplos olhares sobre contexto virtual em que os gêneros aqui utilizados estão inseridos.

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  • __________. O gênero blog e a produção escrita na internet: possibilidades para a aula de Língua Estrangeira/Português como Língua Estrangeira. Caderno Seminal Digital (Rio de Janeiro), v. 18, p. 41-63, 2012.
  • __________. O aprendiz de PLE e as redes sociais: processos discursivos na interlocução entre o eu e o outro . In: IV Seminário de Pesquisa e Extensão em Letras (SEPEXLE). Anais. Ilhéus-BA, 2012.
  • __________. Aprender/Ensinar Português como Língua Estrangeira utilizando recursos da Internet: uma abordagem comunicativa. In: ALOMBA RIBEIRO, Maria D’Ajuda (org.) Português como Língua Estrangeira na UESC: questões identitárias e culturais. Ilhéus: Editus, 2012.
  • SCHEIFER, Camila Lawson. Ensino de língua estrangeira para crianças: entre o todo e a parte : uma análise da dinâmica das crenças de uma professora e de seus alunos (Dissertação de mestrado). Universidade Católica de Pelotas, 2008.
  • __________.  Vamos brincar de dar aula de inglês, hoje - A brincadeira como alternativa metodológica para a investigação de crenças no contexto de ensino-aprendizagem de línguas estrangeiras para crianças. In: SILVA, Kleber Aparecido da (Org.). Crenças, Discursos & Linguagem. 1ªed.Campinas: Pontes Editores, 2011.
  • SILVA, Kléber Aparecido da. Crenças no ensino-aprendizagem e na formação de professores de línguas: Delimitando e atravessando fronteiras na Linguística Aplicada brasileira. In: __________. (Org.). Crenças, Discursos & Linguagem. 1ed.Campinas: Pontes Editores, 2011.
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  • SILVA, Maria Goretti dos Santos.  As novas tecnologias em interface com o processo de formação do professor de PLE/L2: uma abordagem identitária multicultural brasileira. (Dissertação de Mestrado). Universidade Estadual de Santa Cruz, 2011.

[1] Ao utilizarmos o termo “político-acadêmico”, nos referimos às associações de pesquisadores que, hoje no Brasil, unida e com manifestações de classe, emitem considerações acerca de fenômenos da linguagem que alcançam a população brasileira, como caso polêmico do livro didático. Rajagopalan (2005, 2006) segue a mesma linha ao analisar que o linguista, para provocar modificações na sociedade, precisa ser político.

[2]É importante observar que o termo pós-modernidade é criticado por estudiosos no que concerne à realidade brasileira, pois aqui, ao que cabe à crítica cultural e às ciências sociais de um modo geral, não vivemos sequer a modernidade, restando-nos o final de um colonialismo escravizador, restando-nos ser críticos inclusive em relação à ideia de pós-modernidade.

[3]Seja através das teorias de Vygotsky ou Bakhtin, acreditamos, como Bakhtin (1997), que as práticas linguísticas devem ser analisadas na interação e não em atividades isoladas. Propomos, portanto, a sala de aula, redes sociais e congêneres como espaços de interação e loci de (auto) reflexão.

[4]O trecho foi retirado do Banco de Teses da UFMG e está disponível em <http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ALDR-6ACG69/disserta__o_pdf_hilda_coelho.pdf?sequence=1> . Acesso em 01 Jan. 2013.

[5]Linguística Textual.

[6]Na rede social Facebook, o Mural é a mensagem atualização postada pelo usuário, que tanto pode ser atualização sobre a vida pessoal do usuário, quanto ser um protesto, uma preferência, uma explicação, cumprindo papéis distintos. Em termos mais pragmáticos, o Mural pode ser definido como a mensagem publicada na Timeline, na linha do tempo do usuário ou o espaço em que a mensagem é postada, permitindo comentários do tipo: “Eu postei no Mural dele...”. Sendo assim, cabe discutir ainda se o Mural seria o gênero ou o suporte. Deixaremos essa discussão para oportunidade futura, já que esse não é o nosso foco.

[7] O Blog do estudante A não será divulgado para preservação da identidade do estudante.

 

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