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Mudança de atitude dos aprendentes chineses em relação à aprendizagem do português (PLE) Imprimir E-mail
Escrito por Maria José dos Reis Grosso (Universidade de Macau) e Ricardo Moutinho (Universidade de Macau)   

Resumo:

Um dos objetivos deste texto é apresentar características do perfil do aprendente de português, universitário, em fase inicial de aprendizagem, falante nativo de chinês e em contexto de não imersão linguística que frequenta os cursos de Português da Universidade de Macau, na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), onde a língua portuguesa tem o estatuto de língua oficial até 2049. Destacam-se os dados relativos às atitudes que estes aprendentes têm em relação à língua portuguesa, aos falantes nativos e ainda ao modo como a própria aprendizagem do Português Língua Estrangeira (PLE) decorre.

Palavras-chave:Português Língua Estrangeira, perfil do aprendente,atitudes

Abstract:In this article, we will present features of the profile of some learners of Portuguese as a Foreign Language (PFL), who are Chinese native speakers and university students, attending PFL courses at a initial level in Macau Special Administrative Region (SAR, China), where Portuguese language has an official status until 2049. We highlight data concerning to the attitudes those learners have about the Portuguese language, its native speakers and the way those students, who are not engaged in a immersion context, learn the target language.

Keywords:Portuguese as a Foreign Language, learner’s profile, attitudes

Um dos objetivos deste texto é apresentar características do perfil do aprendente de português, universitário, em fase inicial de aprendizagem, falante nativo de chinês e em contexto de não imersão linguística que frequenta os cursos de Português da Universidade de Macau, na Região Administrativa Especial de Macau (RAEM), onde a língua portuguesa tem o estatuto de língua oficial até 2049.

Destacam-se os dados relativosàs atitudes que estes aprendentes têm em relação à língua portuguesa, aos seus falantes nativos e ao modo como a própria aprendizagem do Português Língua Estrangeira (PLE) decorre.

O termo atitude é frequente em diversas áreas do conhecimento e sendo constantemente referida como um forte indicativo do sucesso académico (Dӧrnyei, 2005:33)[1]. A partir dos anos 1970, é relevante na área do ensino aprendizagem das línguas, surgindo ligada principalmente à Abordagem Comunicativa. Os trabalhos do Conselho da Europa, particularmente o Quadro Europeu Comum de Referência, põe em relevo o papel da construção de  atitudes na promoção duma cidadania democrática, considerando que  “as  atitudes e temperamentos são parâmetros que devem ser levados em conta na aprendizagem e ensino das línguas” (CONSELHO DA EUROPA, 2001:33).

O PLE no contexto universitário, o caso da Universidade de Macau

Segundo Moutinho & Almeida Filho (2012), ensinar PLE em qualquer universidade não é uma tarefa simples, muito menos de fácil justificativa. Com exceção ao ensino de algumas línguas como inglês, francês , espanhol (línguas que já conquistaram lugares de relevo) ou até mesmo o italiano (LE) com uma universidade própria (Universitá Italiana per Stranieri), o ensino de português (LE) deve ainda passar por um “teste de importância” ou “de necessidade” para se institucionalizar. Isso quer dizer que, ao ensino de português, deve vir ligada uma gama de necessidades específicas e de vontades e de interesses políticos que justifiquem o ensino desta língua no contexto universitário. Exemplos disso são os cursos para fins específicos (português para turismo e hotelaria, para economia, para médicos) ou em alguns casos, cursos de licenciatura em letras com ênfase em língua portuguesa e suas literaturas ou em língua portuguesa e linguística.Independente do conteúdo dos curricula para Cursos de Licenciatura em PLE, qualquer dos cursos referidos deveria  focalizar também temas específicos de interesse do público aprendente de PLE.

Por esta razão, segundo Moutinho e Almeida Filho (2011:68):

(...) ensinar PLE na Universidade pode ser uma tarefa transdisciplinar que obriga os professores a entenderem não apenas da língua que ensinamos, mas também dos temas e áreas de conteúdos reais disciplinares com os quais decidamos trabalhar nos cursos.

Na Universidade de Macau, o ensino do Português como Língua Estrangeira (PLE) existe oficialmente desde a criação do Departamento de Português na instituição em 1990 (embora já houvesse cursos destinados a este fim desde 1980, ano de fundação da antiga Universidade da Ásia Oriental, atual Universidade de Macau). Nesta universidade, o PLE é ensinado obrigatoriamente nos cursos de Licenciatura em Estudos Portugueses e no Curso da Licenciatura de Direito. A área do direito é uma área privilegiada para o ensino/aprendizagem do português, pois o português direta ou indiretamente continua a ser imprescindível neste domínio, uma vez que o sistema jurídico de Macau é de base portuguesa  e que nem todas as leis ainda estão traduzidas para o Chinês,  como  é o caso das da área fiscal, em que o próprio Código só está disponível em português (MOUTINHO , MARTINS & NUNES, 2011).

 A língua portuguesa (PLE) também é ensinada, com caráter de disciplina optativa, a um  público universitário geral constituído por alunos da área de engenharia, administração, história, economia etc. No total, são727 alunos que frequentavam o português (PLE) como língua opcional, no início do ano letivo 2013-2014. O número de alunos a frequentar a Licenciatura de Estudos Portugueses (com disciplinas obrigatórias em português) é de 267 alunos.  Nos estudos pós-graduados, no mestrado e doutoramento, são 55 o número de mestrandos repartidos pelo Mestrado em Tradução (25) e por Língua e Cultura Portuguesa (30). Os doutorandos em português são 8 (Linguística e Estudos Literários) .

O público adulto da Universidade de Macau, aprendente de PLE

O público-alvo primeiramente selecionado como objeto de estudo é o público falante adulto de língua materna chinesa, aprendente de português, que frequenta os cursos de PLE da Universidade de Macau.

Os dados resultam da aplicação de inquéritos (ou questionários) a aprendentes dos Cursos de Licenciatura em Estudos Portugueses e dos Cursos de PLE como disciplinas optativas.

O inquérito, que foi elaborado em uma versão bilíngue (português/chinês) seguiu o mesmo modelo aplicado em 1993 por Grosso (1999/2007) e por Godinho (2oo6) com base nos tipos de informação descritos no Council of Europe Modern Languages Projectdisponível emRichterich& Chancerel (1980). O inquérito é constituído de 27 questões relacionadas a diferentes variáveis e com a identificação do público aprendente, abrangendo motivação, necessidades de comunicação, atitudes, interesses e dificuldades, agrupando aspectos em diferentes grupos de fatores (físicos, cognitivos, afetivos, socioculturais e educativos).Para este estudo, focamos a nossa análise em questões que tratam especificamente de identificação do aprendente, atitude relacionadas à língua portuguesa, aos seus falantes nativos e às dificuldades na aprendizagem. Além do inquérito, havia a proposta dum tema previamente selecionado a ser desenvolvido por escrito por todos os respondentes. Com base neste texto e por razões operatórias, perspetivou-se uma calibragem, o que nos permitiu agrupar o público-aprendente de acordo com os níveis propostos no Quadro Europeu (A1 a C2). Como estamos trabalhando apenas com alunos do nível inicial, utilzamos apenas os dados referentes ao nível A1 para este trabalho. De acordo com o Conselho da Europa (2001:49), o aprendente do nível A1, na escala global tem as seguintes características:

É capaz de compreender e usar expressões familiares e quotidianas, assim como enunciados muito simples, que visam satisfazer necessidades concretas. Pode apresentar-se e apresentar outros e é capaz de fazer perguntas e dar respostas sobre aspetos pessoais como, por exemplo, o local onde vive, as pessoas que conhece e as coisas que tem. Pode comunicar de modo simples, se o interlocutor falar lenta e distintamente e se mostrar cooperante”.

Considerámos também para a análise um nível A0 para os aprendentes que desenvolveram a proposta presente no inquérito numa outra língua diferente do português ou só com algumas palavras em português sem um tipo de texto minimamente organizado. Posteriormente, todos os dados foram quantificados estatisticamente com usodo software SPSS.

No inquérito, incluímos também perguntas de caráter exploratório (sem opções de resposta previamente elaboradas) para sabermos quais eram as outras dificuldades ou inquietudes que os aprendentes apresentavam em um nível inicial de aprendizagem. Como se tratavam de aprendentes que ainda não apresentavam, em sua maioria, um domínio básico da língua-alvo, as respostas que obtivemos para esses níveis (A0 e A1) também foram todas dadas em língua chinesa ou em outra língua diferente do português. Estas respostas também serão levadas em consideração em nossa análise.

A relação entre a atitude positiva (em relação à língua alvo e aos falantes da dessa língua)e o sucesso da aprendizagem é objeto de interesse de professores/investigadores há mais de trinta anos.Em trabalhos como os de Gardner & Lambert (1972), em que a motivação é um construto feito de certas atitudes, embora seja difícil saber explicitamente quais são as atitudes e o grau com que se manifestam, assim e de acordo com o Conselho da Europa (2001:12), a promoção duma cidadania democrática passa também pela construção de atitudes, saberes e capacidades necessárias na autonomia do aprendente e na reflexão consciente e na cooperação  com os outros. Atitudes, temperamentos e outros traços da personalidade do aprendente são critérios a considerar na aprendizagem e ensino duma língua.

Identificação do público chinês  aprendente de português  na Universidade de Macau

Num universo de 498 alunos, 456 alunos pertenciam a A (323 ao nível A0, 81 ao nível A1 e 52 ao nível A2). Pertenciam ao descritor B do Quadro Europeu Comum de Referência  42 alunos(35 ao nível B1 e 7 ao nível B2).Nenhum respondente revelou conhecimentos na escrita a nível do C1 ou C2.

Portanto, o público-aprendente analisado aqui (ou seja, dos níveis A0 e A1) contava com 404 aprendentes no total. Dentro do universo desses aprendentes, a maioria é do sexo feminino.

Gráfico 1a: distribuição dos informantes A0 por sexo

 

 

Gráfico 1b: distribuição dos informantes A1 por sexo

 

São todos jovens adultos que ainda não atingiram os 26 anos e que têm o chinês/cantonês como língua materna.

Gráfico 2a: Distribuição dos informantes A0 por língua materna

 

 

Gráfico 2b: Distribuição dos informantes A1 por língua materna

 

Quanto à necessidade de saber português, para o nível A0, mais de 50% respondeu que sim, masum grupo de 14% respondeu que não. O restante (pouco mais de 32%) preferiu não opinar. O grupo de 14%, embora pareça ínfimo, é considerável uma vez que a maioria desses alunos escolheu o curso de Licenciatura em Estudos Portugueses. Verificando que, após um ano de estudo da língua, ainda são calibrados no nível A0, considerámos  que o baixo desempenho na língua-alvo pode estar ligado a algum tipo de desmotivação ou outros fatores (que exigem mais investigação) que se refletem no desinteresse pela língua.

Gráfico 3a: Necessidade de estudar português em A0

 

 

Gráfico 3b: necessidade de se estudar português em A1

 

Já para os aprendentes do nível A1, este desinteresse é menos saliente, fazendo parte de um universo de 6,17% dos alunos. É interessante observar que, nos níveis mais altos (A2, B1 e B2), os aprendentes vão reconhecendo cada vez mais a importância de se aprender português, registando-se 5,77% de desinteresse pela língua em A2, 5,71% em B1 e 0% em B2. Porém, não vamos tratar destes pontos neste trabalho, uma vez que concentramos a nossa investigação nos aprendentes de nível inicial (A0 e A1). Porém, é evidente que quanto mais o aprendente adquire a língua alvo,mais se sente “à vontade” nesse novo espaço, interagindo nele com mais frequência e, consequentemente, diminuindo o  “estranhamento” pela língua estrangeira,  muito presente nos níveis iniciais(ALMEIDA FILHO, 1993). Isso leva o aprendente a reconhecer a relevância dessa língua, quer porque a use para agir no mundo nas práticas sociais diárias, quer porque a considere sua, parte de sua identidade como sujeito atuante no mundo.

Atitude e aprendizagem de PLE

Em relação à atitude sobre a língua portuguesa, as respostas dos aprendentes nível A0 vão na mesma direção daquelas do nível A1, ou seja, consideram-na difícil, rica e musical. Nos gráficos abaixo, os números de 1 a 3 representam o grau de concordância que os aprendentes atribuem a cada afirmação (em que 1 é o grau mais alto de concordância e 3, o mais baixo).

Gráfico 4a: Língua portuguesa (difícil) - nível A0

 

 

Gráfico 4b: Língua portuguesa (difícil) - nível A1

 

Para o nível A0, somente 2,94% dos aprendentes apresentaram o grau mais baixo de concordância para a afirmação “a língua portuguesa é difícil”. Aqui aparece mais um caso claro de desmotivação, indicando que, quando os alunos inquiridos ainda não apresentam qualquer domínio da língua-alvo, tendem a criar uma barreira que pode se tornar intransponível na maioria das vezes: a barreira da dificuldade ou até mesmo da impossibilidade de se adquirir a língua desejada. O que podemos apontar como aspeto positivo no gráfico acima apresentado é o facto de 24,91% dos alunos (ou seja, a maioria dos que se manifestaram) não concordarem totalmente com a afirmação. Ou seja, estes alunos ainda não criaram a tal barreira por completo, o que pode significar que ainda acham possível alcançar o objetivo de serem falantes de português no futuro.

Outro facto significativo foi o alto grau de abstenção para esta afirmação: 52,94% dos inquiridos não quiseram ou não souberam responder.

Para no nível A1, já tivemos um índice maior (11,11%) de aprendentes que não concordam com a afirmação de que a língua portuguesa é difícil. Porém, a grande maioria (54,32%) atribui um alto grau de concordância a esta afirmação, talvez por não sentirem um avanço claro nos últimos tempos em relação aos seus processos de aprendizagem na língua portuguesa. Outro fator interessante é que o índice de abstenção em A1 é de 8,64%, o que pode representar que, pelo facto de esses aprendentes já terem uma maior “vivência” na língua-alvo (uma vez que, por terem um nível mais elevado do que os aprendentes A0, já a praticam por mais tempo) sentem-se mais aptos para atribuírem algum valor a essa afirmação. 

Gráfico 5a: Língua portuguesa (musical) - nível A0

 

 

Gráfico 5b: Língua portuguesa (musical) - nível A1

 
Quanto à musicalidade, temos dados muito parecidos entre aprendentes do nível A0 e A1. Enquanto 14,71% dos alunos não apresentam um grau considerável de concordância para essa afirmação em A0; 19.75% apresentam o mesmo posicionamento em A1. A grande maioria (52,94% em A0 e 64,2% em A1) atribui um grau mais elevado de concordância em relação à musicalidade da língua portuguesa. Esta perceção indica uma visão mais positiva da língua conforme os aprendentes vão alcançando um nível de proficiência  mais elevado na mesma.
 

Gráfico 6a: Língua portuguesa (rica) - nível A0

 

 

Gráfico 6b: Língua portuguesa (rica) - nível A1

 

O mesmo acontece no gráfico 6, que indica a atitude dos aprendentes em relação à riqueza da língua portuguesa. Tanto os aprendentes A0 quantos os  de A1 manifestam-se positivamente quanto a essa afirmação, porém, mais uma vez, temos os aprendentes de nível A1 com uma atitude positiva maior.

Relativamente à atitude dos aprendentes em relação aos falantes de língua portuguesa, temos, em geral, opiniões bem positivas. A maioria, tanto para o nível A0 quanto para o A1, destacou as características “simpáticos”, “alegres” e “hospitaleiros” para os falantes da língua-alvo. As características “honestos” e “solidários” também tiveram um certo destaque. Estes resultados podem parecer um pouco abstratos, considerando que são aprendentes de nível inicial e que, por isso, provavelmente não devem manter contacto com falantes nativos da língua-alvo (a não ser com alguns de seus professores, pois a maioria, no nível inicial, tem aulas com professores chineses bilíngues). Contudo, é importante mencionar que, em Macau, a presença de falantes nativos de língua portuguesa ainda é muito evidente, facilitando a possibilidade de aprendentes de PLE terem contacto e, consequentemente, desenvolverem alguma atitude (positiva ou negativa) em relação aos sujeitos nativos da língua-alvo. É o que poderemos também perceber no gráfico 8 (contacto com falantes de português).

Gráfico 7a: Atitude dos aprendentes de PLE (nível A0) em relação aos falantes da língua-alvo

Por ordem dos valores representados (da esquerda para direita)

  • a. simpáticos 73.53%
  • b. antipáticos 26.47%
  • c. trabalhadores 41.18%
  • d. preguiçosos 26.47%
  • e. alegres 55.88%
  • f. tristes 23.53%
  • g. honestos 38.24%
  • h. desonestos 23.53%
  • i. solidários 35.29%
  • j. invejosos 20.59%
  • k. hospitaleiros 67.65%
  • l. outras 17.65%

 

 

Gráfico7b: Atitude dos aprendentes de PLE (nível A1) em relação aos falantes da língua-alvo

Por ordem dos valores representados (da esquerda para direita)

  • a. simpáticos 84.81%
  • b. antipáticos 4.94%
  • c. trabalhadores 30.86%
  • d. preguiçosos 24.69%
  • e. alegres 60.49%
  • f. tristes 11.11%
  • g. honestos 39.51%
  • h. desonestos 3.70%
  • i. solidários 34.57%
  • j. invejosos 19.75%
  • k. hospitaleiros 79.01%
  • l. outras 3.70%
 

A maioria dos aprendentes do nível A0 utiliza o português para fins profissionais ou de estudos. Poucos utilizam a língua portuguesa com os amigos, diferentemente do que se observou no nível A1. Contudo, é importante mencionar que em todos os níveis os aprendentes terão contacto com professores nativos (embora com menos frequência no nível A0).

Gráfico 8a: Contacto com falantes de português (A0)

  • a. contacto com amigos (ou professores) fora ou dentro do local de trabalho/estudo.
  • b. Contacto no trabalho ou em estágios
  • c. Outros

 

 

Gráfico 8b: Contacto com falantes de português (A1)

  • a. contacto com amigos (ou professores) fora ou dentro do local de trabalho/estudo.
  • b. Contacto no trabalho ou em estágios
  • c. outros
 

A atitude em relação à aprendizagem -dados de caráter qualitativo

Conforme já mencionado, incluímos no inquérito itens de caráter mais exploratório para identificarmos outros elementos que não estavam, por alguma razão, presentes nas perguntas com respostas do tipo múltipla escolha. Um desses itens é o qual julgamos mais interessante para complementar os dados deste trabalho. O aprendente deveria completar a seguinte frase: “Durante as aulas, as coisas correriam melhor se...” Dos 404 aprendentes pertencentes aos níveis A0 e A1 que responderam ao questionário, apenas 97 forneceram alguma resposta à esse item. Todas as respostas dos níveis foram fornecidas em chinês ou em inglês pelos aprendentes. Por isso, procedemos à tradução das mesmas com o auxílio de nossos assistentes de pesquisa. Obtivemos afirmações de diferentes tipos, umas mais de caráter pedagógico (centradas nas ações do professor) e outras de caráter mais autónomo (aquelas em que, segundo o aprendente, o sucesso ou insucesso da aprendizagem dependia exclusivamente dele). Ainda pudemos constatar a presença de duas perspectivas de ensino/aprendizagem nas afirmações dos aprendentes. Uma de caráter tradicional (quando, segundo o aprendente, o seu sucesso na aprendizagem está relacionado somente com aspectos particulares da sua competência linguística, exercícios mecanicistas e estratégias do método tradicional como a tradução e a memorização) e outra de caráter mais interacional (quando o aprendente relaciona a aprendizagem/aquisiçãoda língua a práticas sociais quotidianas e à autoria social).

Contrariamente do que é observado em muitos estudos sobre o aprendente chinês, as afirmações desses aprendentes já indicam alguma preferência maior pela autonomia e pela abordagem sociointeracional de ensino/aprendizagem de línguas. Das 97 afirmações recolhidas, pelo menos, 27 delas apresentam essa característica. Consideremos uma mudança significativa de atitude por parte dos aprendentes chineses de Macau em relação aos estudos anteriores (Grosso, 1997; Godinho, 2006). Abaixo, disponibilizamos essas 27 afirmações na Tabela 1:

Tabela 1: Durante as aulas, as coisas correriam melhor se…

Aluno 1

Tivesse trabalho em grupo

Aluno 2

Se eu tivesse mais oportunidade de falar português na minha vida quotidiana

Aluno 3

Tivesse mais exercício; o período de aprender português fosse mais longo; tivesse mais comunicação

Aluno 4

Se eu reforçasse praticar a minha audição; visse filmes de português; falasse mais português

Aluno 5

Conhecesse mais coisas sobre a cultura portuguesa; ouvisse música portuguesa; visse filme português

Aluno 6

Estudasse português frequentemente; tentasse ver programas televisivos portugueses; praticasse português com os colegas

Aluno 7

Tivesse mais discussões nas aulas; tivesse mais tarefas de audição; tivesse mais vídeos e materiais de aprendizagem

Aluno 8

Se eu pudesse aprender o português quotidiano e conhecer os hábitos dos portugueses

Aluno 9

Se na vida quotidiana houvesse mais falantes portugueses; se a língua quotidiana de Macau fosse o português

Aluno 10

Se eu ouvisse, falasse e escrevesse mais português

Aluno 11

Se dessem mais informações concretas acerca dos capítulos; entre os colegas tivesse mais comunicação e tivesse mais atividades

Aluno 12

Se na vida quotidiana houvesse mais contacto com falantes portugueses, eu poderia aprender melhor português

Aluno 13

Se fosse ensinado mais diálogo quotidiano; se o ensino da pronúncia ocupasse mais tempo nas aulas; se o exercício da escrita pudesse ser menos: tudo iria correr melhor

Aluno 14

Tivesse mais oportunidades de praticar português fora das aulas; se as cadeiras de português pudessem ser mais diversificadas

Aluno 15

Se eu fizesse os exercícios, lesse mais livros e ouvisse o rádio

Aluno 16

Se nas aulas houvesse mais comunicação entre alunos; se as aulas pudessem ser mais interativas e interessantes

Aluno 17

Se tivesse mais envolvimento da cultura portuguesa nas cadeiras a fim de fazermos amigos portugueses; se lesse mais livros relativos a português; se tivesse a oportunidade de visitar a Europa

Aluno 18

Se tivesse nas aulas mais atividades e comunicações. Não gosto da contagem da frequência

Aluno 19

Se tivesse mais atividades com filmes e vídeos tutoriais; se as salas de aula pudessem ser ordenadas nos pisos mais baixos. Não quero a contagem da frequência

Aluno 20

Se eu passasse mais tempo no estudo, pesquisasse mídias para estudar português e fazer amigos portugueses

Aluno 21

Se eu lesse mais livros e revistas portuguesas; comunicasse mais com falantes portugueses; ouvisse mais português, como por exemplo ver filmes portugueses

Aluno 22

Se eu ouvisse músicas portuguesas; tivesse uma visita de campo em Portugal para conhecer a cultura portuguesa

Aluno 23

O conhecimento ensinado devia corresponder à necessidade dos alunos

Aluno 24

Seria melhor que se aumentasse mais aulas de português; se a turma fosse menor; poderia levar-se a cabo atividades interativas

Aluno 25

Se eu praticasse mais a minha audição; se tivesse atividades interativas; se tivesse projetos da oralidade

Aluno 26

Se levassem a cabo mais atividades portuguesas extracurriculares; eu devia ler mais livros portugueses e comunicar em português na vida quotidiana

Aluno 27

Houvesse mais interações relativas a português; as concepções básicas explicadas pelo professor fossem mais claras; as aulas fossem mais interessantes

Podemos observar que nenhuma dessas afirmações fazem referência explícita a um ensino predominantemente tradicional. Em duas delas, inclusive, podemos verificar uma total quebra em relação à essa perspectiva (alunos 18 e 19– “Não gosto da contagem de frequência”; “Não quero a contagem de frequência”). Embora nas outras afirmações (70, no total), não pudemos constatar o mesmo, não são todas elas que defendem uma perspectiva mais estrutural. Algumas indicam falhas de nível pessoal (“se eu passasse mais tempo no estudo”) ou pedagógico-administrativo (“Se não mudasse o professor frequentemente”; “Se o professor desacelerasse o processo do ensino; enumerasse mais exemplos nas aulas”; “se a turma pudesse ter menos alunos para que o efeito do ensino fosse melhor”; “Se nas aulas pudesse ter mais música”; se o quarto ano da licenciatura fosse obrigatório”). Outras até apresentam uma mistura de perspectivas, indicando que algo ainda está em transição (“Se eu aprendesse mais léxico por mim mesmo, consultasse mais livros e tentasse praticar português desde que tivesse a oportunidade”).

Conclusões

Com base nos dados aqui apresentados, verificamos que o aprendente adulto, inicial de PLE da Universidade de Macau, é maioritariamente feminino, falante de cantonês e com menos de vinte e seis anos.

Embora reconheçam a necessidade de estudar português, o grupo A0 revela algum desinteresse, o que é contrário nos outros níveis. O interesse sobe à medida que sobe o nível. Quanto à atitude sobre a língua portuguesa, acham-na difícil, musical e rica, mantem-se a tendência anterior (Grosso, 1997), musical erica sobem com o nível de proficiência, baixando o itemdifícil. A mesma tendência é verificada em relação à atitude perante os falantes nativos de língua portuguesa, consideram-nos simpáticos, alegres e hospitaleiros, seguindo-se honestos e solidários. Os dados apresentados também estão relacionados com os contactos com os falantes nativos de língua portuguesa: em A0 emerge o  domínio profissional ou público (no trabalho e em estágios), enquanto que a partir de A1 se salienta o contacto no domínio privado e educativo (com amigos e com os professores).

Quanto aos dados de caráter mais qualitativo, notamos a indicação de uma mudança de atitude por parte dos aprendentes de Macau comparativamente a trabalhos realizados anteriormente (Grosso, 1997; Godinho, 1999), em que a maioria dos aprendentes inqueridos optavam por um ensino de cunho mais tradicional e baseado apenas em gramática e vocabulário. Esta mudança pode estar relacionada à política chinesa de reforma do ensino superior, em que se prioriza a autonomia do aprendizado. Apenas para se ter uma ideia, recentemente, algumas instituições de ensino superior do país, como a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul da China, localizada na cidade de Shenzhen (próximo a Macau), rejeitaram ou demonstraram descontentamento em relação à aplicação do gaokao(exame nacional de admissão ao ensino superior na China), que foca em métodos como a memorização em detrimento da criatividade. Porém, talvez esta mudança de atitude por parte dos aprendentes da Universidade de Macau esteja na própria percepção sobre a ineficácia de um ensino tradicional, que foca em regras meramente gramaticais e de pouco uso social. Estas hipóteses terão de ser avaliadas nos próximos trabalhos.

Referências Bibliográficas

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  • GARDNER, R. C., & LAMBERT, W. E. Attitudes and motivation in second languagelearning.Rowley, MA: Newbury. 1972.
  • GODINHO, A. P. Cleto. A aquisição da concordância de plural no sintagma nominal por aprendentes chineses de português língua estrangeira. Dissertação de Doutoramento, Universidade de Lisboa. 2006.
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  • MOUTINHO,  R. MARTINS, C. & NUNES, M. P. O ensino do português para fins jurídicos em Macau. Revista SIPLE (2). 2001.
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[1]
a strong predictor of academic success(Dӧrnyei, 2005:33)

 

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