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3. A Experiência de Aprender Português dentro e fora do Brasil: Análise do Relato de um Aprendente Belga Imprimir E-mail
Escrito por Francisco Tomé de Castro -Escola Português para Todos-DF; Joana Grant, COOPLEM-DF e Monique Leite Araújo - Colégio Militar-DF - ISSN 2316-6894   

Resumo
Este artigo apresenta uma análise de um relato de um aprendente de português na Bélgica e no Brasil. A partir da metodologia da história oral, os dados foram colhidos mediante entrevista aberta com o informante belga, Johan (pseudônimo), e aspectos como procedimentos dos professores, material didático, conteúdos dos cursos, CELPE-BRAS, dimensões culturais e até políticas para o PLE são abordados à luz das teorias sobre Aprendizagem e Ensino de Línguas (AELin).

Palavras-chave: PLE, PL2, português na Bélgica

Abstract  

This paper presentsan analysis of a report of a learner of Portuguese in Belgiumand Brazil. Using the oral history methodology, data were collected through an open interview with the Belgian informant, Johan (pseudonym), and aspects such as teachers procedures, teaching materials, course contents, CELPE-BRAS, cultural and even political dimensions to the PLE are discussed in light of theories on Language Teaching and Learning.

Keywords:Portuguese as a foreign language, Portuguese as a second language, Portuguese in Belgium

 

Introdução

A Área de Ensino e Aprendizagem de Línguas (AELIN) é o foco de nosso estudo no marco global da Linguística Aplicada (LA), sendo Português Língua Estrangeira (PLE) e Português como Segunda Língua (PL2) a nossa especialidade no contexto deste artigo. Oferecer um relato e uma análise da experiência de um aprendiz de português dentro e fora do Brasil é o objetivo principal deste trabalho. Desse modo, o aluno coloca-se no centro de nossa atenção na teia composta também pelo professor e pelos agentes terceiros (diretores de escolas, coordenadores de cursos, formuladores de políticas), todos eles protagonistas da Operação Global do Ensino e Aprendizagem de Línguas- OGEL (Almeida Filho, 2011). A nossa análise privilegia a percepção do aluno sobre o professor, o marco institucional, a abordagem do ensino, as competências, as

materialidades (planejamento dos cursos, métodos, metodologias, avaliações de cursos e o CELPE-BRAS) incluindo ainda aspectos de língua e cultura, estratégias de aprendizagem e vivências.

A seguir, apresentaremos a metodologia utilizada para este trabalho, alguns dados sobre a entrevista e o entrevistado, a análise dos dados de seu relato baseada em leituras acadêmicas, as considerações finais, as referências e finalmente o texto transcrito da gravação que foi feita com nosso informante como anexo.

Metodologia

A utilização das narrativas em pesquisas científicas assume a importante função de contribuir para a tomada de consciência da trajetória seguida por cada um. Por isso consideramos a Metodologia da História oral como um valioso instrumento para compor e avaliar a experiência de um aprendente de português como língua estrangeira.

Quando se procede à reflexão sobre o “outro” pela história oral, passa-se do nível da observação para o nível analítico. É nessa perspectiva que a revista História Oral ea Associação Brasileira de História Oral (ABHO) traçam seus estudos para possibilitar diálogos com outros estudos afins e estabelecer critérios intelectuais e um “rigor acadêmico” que justifique o uso da história oral.

O primeiro escrito publicado a usar o termo “história oral” no Brasil foi feito por Carlos Humberto Correa, em 1978. Antes dele, autores importantes se referiram ao uso de “depoimentos pessoais” vinculados às “histórias de vida”.  Por exemplo, Maria Isaura Pereira de Queiroz que, em 1953, publicou História Oral, 7, 2004 1 5 Histórias de vida e depoimentos pessoais. Este texto desdobrou-se em reflexões teóricas que foram difundidas ao longo dos anos pelos membros do Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU) da Universidade de São Paulo (USP).

Na literatura internacional, os trabalhos de autores como Antonio Nóvoa (1992), Michäel Huberman (1992), Claude Dubar (1997), Ivor F. Goodson (1992), Pierre Dominicé (1990), Franco Ferrarotti (1988), entre outros, oferecem forte respaldo ao emprego da abordagem biográfica e das histórias de vida na pesquisa educacional. Tais trabalhos influenciaram a configuração da produção intelectual brasileira e, para muitos pesquisadores, acabaram tornando-se uma referência.

Considerando os procedimentos metodológicos, Nóvoa (1999, 2000) ressalta a utilização de matérias, já existentes ou desenvolvidas de uma produção (auto) biográfica com objetivos específicos, reflexão alicerçada especificadamente em matérias escritas ou orais, existindo uma interação/acordo entre o pesquisador e o pesquisado.  É possível basear-se em várias histórias, a produção do material pode ser individual ou em grupo e são várias as técnicas para mobilizar as histórias de vida e fazer as análises. Assim, esta variedade de perspectivas e de categorias constitui uma das principais potencialidades das abordagens autobiográficas.

Dados sobre a entrevista e o entrevistado

Apresentamos a seguir um relato de um aprendente de PLE sobre sua experiência de aprender português na Bélgica e no Brasil no período que vai de 2009 a 2011. O participante da pesquisa se chama Johan (pseudônimo), tem 35 anos, é economista, nasceu na cidade de Leuven, na Bélgica, fala fluentemente inglês, francês e flamengo (sua língua materna), estudou alemão e espanhol e mora atualmente em Brasília.

Entrevistamos Johan na manhã do dia 14 de janeiro de 2012 num café em Brasília. A entrevista foi toda gravada e transcrita literalmente. Conduzimos a entrevista com breves intervenções que orientaram o informante a fornecer registros relevantes para os objetivos do artigo já assinalados na introdução acima. Algumas intervenções feitas durante a entrevista estão marcadas no relato, em anexo, entre parênteses. A duração da entrevista gravada foi de aproximadamente 38 minutos.

Análise dos dados

A seguir abordaremos os dados do relato de Johan a partir de aspectos como procedimento dos docentes e materiais didáticos, conteúdos dos cursos, dimensões culturais, exame de proficiência e políticas para o PLE-PL2. Estes tópicos foram escolhidos em função da OGEL e dos debates sobre estes assuntos em sala de aula da disciplina Português Língua Estrangeira, ministrada pelo Prof. Dr. José Carlos Paes de Almeida Filho no mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Brasília. É importante reiterar que o foco de nossa investigação decorre da perspectiva do aprendente sobre seu amplo processo de aprendizagem de PLE-PL2.

Sobre os procedimentos dos docentes e material didático

Johan, nosso informante, estudou na Casa da América Latina em Bruxelas (Bélgica) e no Programa de Ensino do Português Para Falantes de Outras Línguas (PEPPFOL) em Brasília. Analisamos os dados da professora na Bélgica e dos professores brasileiros de Johan. Ele ressalta que o método da professora na Bélgica não era adequado, que ela se perdia em suas colocações, que não percebia as dificuldades dele e de seus companheiros de sala e que às vezes falava em francês. Afirma que ela estava despreparada para produzir e apresentar o material didático e que este não continha referência bibliográfica. De acordo com as abordagens da formação de professores (Almeida Filho, 2011), a professora na Bélgica não é formada nem com o enfoque treinamentista, ou seja, treinada em algum método de ensino de PLE, muito menos com o enfoque reflexivo, consciente do ensino como processo que é construído junta e criticamente com o aprendiz. Dadas as evidências, constatamos que a professora utilizou uma abordagem informal e serviu-se somente das competências linguística (falante nativa do português)  e implícita (conhecimentos informais de como ensinar a língua).

Já os professores brasileiros tiveram um melhor desempenho, segundo o aprendente “eram bons professores”. Percebemos através dele que possuíam uma formação treinamentista e uma abordagem de ensino e aprendizagem gramatical.

O material didático utilizado na Bélgica foi considerado insuficiente e superficial pelo informante. Este material era retirado de papéis soltos que a professora levava. Observamos que no seu relato ele deu bastante atenção à carência desse tipo de insumo no seu processo de aprendizagem. Johan continuou a perceber a precariedade dos materiais ao estudar português no curso PEPPFOL aqui no Brasil. O fato de ter feito exercícios mecânicos numa apostila do curso e de não haver um contexto para esses exercícios foi considerado desnecessário em sala de aula, já que ele poderia fazer isso sozinho dado o nível avançado em que se encontrava.

Entendemos que o próprio informante se dá conta de que essa dependência do professor sobre o material didático afeta o seu processo de aprender PLE-PL2. Falta uma aproximação entre os processos de ensino e aprendizagem, um olhar atento para as necessidades do aprendente, ou seja, uma interação entre a proposta apresentada pela professora e aquilo que de fato o aluno precisava para “des-envolver” suas competências.

Baltra (1981) em seu relato sobre “Minha aquisição do português” afirma que a motivação desempenha um papel fundamental na vontade de aprender, no seu caso pronunciar vogais nasais, e o objetivo de integração ensino∕aprendizagem também foi crucial. Logo, a partir de uma descrição anterior de aprendizagem, verificamos que tanto a motivação quanto o objetivo de integração são características do aprendente, porque também nosso informante Johan sente falta de mais motivação (estratégia de aprendizagem segundo Ehrman 1986) e de um ensino que se integre com seu processo de aprendizagem.

Portanto, ao tratar sobre os materiais didáticos utilizados no seu processo de aprendizagem, o Johan nos mostra que é necessário integrá-los às suas motivações e objetivos. Um aprendente verdadeiro é aquele com capacidade de correr riscos e que aproveita cada oportunidade para fazer usos variados da nova língua. Logo, preparar materiais didáticos para o aprendente nos leva a um desafio maior que nos armar de folhas soltas e apostilas de exercícios estruturalistas. De fato, deve ser um suporte, um auxílio adequado às necessidades dos aprendizes, com um insumo cheio de língua, para que o objetivo de integração realmente aconteça.

Sobre conteúdos dos cursos e o exame de proficiência CELPE-BRAS

Johan relata que a professora na Bélgica ensinou o pretérito perfeito dos verbos regulares e não o dos verbos irregulares induzindo seus alunos ao erro na conjugação destes últimos.  Este fato reforça a falta de formação da professora e de abordagem de ensino∕aprendizagem.

Quanto aos conteúdos aprendidos no Brasil, o informante relata também o ensino detalhado sobre as partes do corpo humano. Ele diz que não pode se lembrar deste conteúdo e classifica essa falta de memória como conhecimento passivo. Tal fato reforça uma crítica à abordagem gramatical feita por Almeida Filho (2011):

A abordagem gramatical pesa um pouco à memória que ela solicita a todo momento. A memória, no entanto, guarda e apaga com facilidades parecidas. Nisso reside uma grande vantagem de organizar por pequenas partes a reconstrução de um sistema complexo e um igualmente grande inconveniente dessa velha filosofia de ensinar línguas – o apagamento constante do que se acha que foi aprendido (memorizado).

O aprendente revela ainda o seu estranhamento quanto a forma como foram ensinadas as cores em seu curso de português no PEPPFOL. O próprio informante revela a natureza do problema ao indicar que a maioria dos alunos já é falante de outras línguas e, portanto, está capacitada para entender certos conteúdos de uma só vez, sem a necessidade de escalonamento. O Programa de Pesquisa e Ensino de Português para Falantes de Outras Línguas parece trair a si mesmo ao ignorar que alguns de seus alunos realmente são falantes de outras línguas (no plural). Pode-se contra-argumentar que alguns alunos na mesma turma não conhecem outras línguas latinas ou ainda que preferiu-se preservar a sua memória. De qualquer forma, numa abordagem comunicativa esta questão não existiria e por isso talvez seja a mais indicada neste contexto. Isto significa não ensinar exaustivamente todas as cores e seus matizes, mas sim ensiná-las na medida em que apareçam em contextos temáticos nas aulas. Ensino comunicativo de LE é aquele que organiza as experiências de aprender em termos de atividades/tarefas de real interesse e/ou necessidade do aluno para que ele se capacite a usar a L-alvo para realizar ações de verdade na interação com outros falantes usuários dessa língua (ALMEIDA FILHO, 2007).

Nosso informante estranha o fato de que uma das tarefas da edição do exame CELPE-BRAS que ele fez consistisse na elaboração de um memorando, habilidade que muitos brasileiros, mesmo sendo nativos, teriam dificuldade em demonstrar, o que depõe contra a suposta natureza comunicativa deste exame.

Sobre as dimensões culturais

Johan comenta ter aprendido brevemente sobre algumas das festas populares mais representativas da cultura brasileira: o carnaval e o réveillon. Não entrou em muitos detalhes porque inicialmente teve somente uma aula expositiva e lembra-se de ter visto um vídeo sobre essas festas no curso que fez na Bélgica. Já no curso que fez no Brasil, nosso informante destacou que o português voltou a ser um idioma de “prática entre amigos” (mais uma estratégia de aprendizagem dele, queria aprender em grupo para poder praticar com os colegas). O contato com alguns brasileiros oriundos de Goiânia que foram trabalhar na Bélgica e o forró que escutavam juntos, também influenciaram no interesse de Johan pelo português brasileiro antes de vir ao Brasil, porém essa “prática entre amigos” no curso de português do PEPPFOL, enfatizada pelo nosso informante, demonstra mais do que uma estratégia para aprender uma língua. Aqui encontramos a evidência da relevância social e de como a amizade, como um dos fatores culturais, contribuiu para o processo de aprendizagem de Johan.

Almeida Filho (2011) afirma que o trabalho pela consciência cultural do outro e da própria L1 são fundamentais para a aquisição de uma língua. Verificamos que o nosso informante fez esse trabalho durante o seu processo de aprendizagem, percebeu que o lugar da cultura é o mesmo da língua ao se sensibilizar pela companhia e aprendizado com os seus colegas de sala, de como apreciava seus comportamentos e de como interagir com eles o encaminhou para encarar os limites da sua própria cultura. Tanto que ele tem vontade, por exemplo, de aprender a dançar forró e voltar para seu país e dançar com as pessoas de lá. Isso mostra que o ambiente de aprendizagem favoreceu o conhecimento das diferenças, da compreensão, da tolerância e da evolução da cultura-alvo do nosso informante.

Sobre as políticas para o PLE

O informante relata que queria estudar português do Brasil e aprender o sotaque brasileiro, mas em seu país, a Bélgica, as boas escolas ensinam português europeu e ele teve dificuldade em encontrar uma escola de português do Brasil. Portugal, apesar de ter somente 10 milhões de falantes de português, tem uma política de promoção do seu idioma muito mais estruturada e coerente, através do Instituto Camões (IC), do que o Brasil, sexta economia mundial em 2012, com quase 200 milhões de falantes de português. É uma questão de visão política e cultural ou da falta que ela faz. Como afirma Ana Filipa Teles: “em 2009 o IC tem uma rede de ensino em quatro continentes, em 66 países e em 274 universidades. Há 54 centros de língua portuguesa e 425 leitores de português que não só ensinam português como língua estrangeira ou segunda língua, mas também implementam projetos culturais para promover a cultura portuguesa contemporânea. O IC concede ainda centenas de bolsas de estudos para estudantes estrangeiros anualmente e coordena as iniciativas culturais das embaixadas e consulados de Portugal através de um Plano Plurianual de atividades que compreendeu 900 projetos em 2008”. Isso para ilustrar que não há nível de comparação em termos do que o Brasil e Portugal fazem para gerir sua política linguística e cultural no exterior, apesar das assimetrias no tamanho dos países, recursos disponíveis, além do número de falantes nativos. O amadorismo retratado por Johan não só no curso que ele fez na Casa da América Latina em Bruxelas como no curso da Embaixada do Brasil, ministrado por uma esposa de diplomata brasileiro, num único horário no final da manhã, reflete as consequências disparatadas da falta de uma estratégia oficial para o ensino de PLE no Brasil.

Considerações finais

Johan, nosso informante, revelou-se um aprendente muito consciente do processo de ensino e aprendizagem de português ao mencionar inclusive algumas de suas estratégias de aprendizagem. O fato de que o nosso idioma fosse a sexta língua que ele aprendeu talvez o tenha habilitado para perceber melhor como funciona esta operação mesmo sem ter estudado a OGEL. Neste caso, é possível até comparar como se aprende cada uma das línguas. Além disso, ele nasceu num país bilíngue (francês-flamengo) e isso certamente contribui também para sua cultura de aprender outros idiomas. Portanto, devemos considerar que o aluno de PLE-PL2 fala, muitas vezes, várias línguas até porque o português não é um dos 3 idiomas internacionais principais e isso naturalmente o torna mais crítico quanto ao professor, ao ritmo das aulas, aos métodos, aos materiais utilizados, aos conteúdos e às avaliações. Um aspecto importante que nosso informante nos traz é a constatação das contradições entre a abordagem comunicativa do CELPE-BRAS na teoria e a tarefa que exige a redação de um memorando na prática.

Convém ressaltar como a história oral contada por ele na interlíngua é perfeitamente compreensível, mostrando-nos mais uma vez que a comunicação efetiva, ou seja, a boa competência comunicativa, não depende da precisão gramatical. O relato oral de Johan foi entendido perfeitamente por nós, em nenhum momento o abordamos para esclarecer qualquer aspecto da forma. É claro que as afirmações dele não podem ser generalizadas e nem analisadas como verdades únicas, pois tratam de sua visão particular. Porém, isso não deixou de nos prover elementos para uma análise crítica à luz da teoria do ensino e aprendizagem de línguas, já que a história narrada por Johan muito provavelmente tem pontos em comum com a de outros aprendentes de PLE-PL2 e inclusive de outras línguas. Sua história é, sem dúvida, muito representativa no grande mosaico de experiências de aprendentes de português. 

Referências

  • ALMEIDA FILHO, José Carlos Paes. Língua além da cultura ou cultura além da língua? Aspectos do ensino da interculturalidade. Pontes Editores, Campinas, SP, 2011.
  • _______________________________. Fundamentos de Abordagem e Formação no ensino de PLE e de outras línguas, Pontes Editores, Campinas, SP, 2011.
  • _______________________________. Dimensões Comunicativas no Ensino de Línguas, Pontes Editores, Campinas, SP, 4ª edição, 2007.
  • BALTRA, A. My Acquisition of Portuguese. Cadernos PUC-SP, vol. 09. São Paulo: EDUC/Cortez Editora, 1981. Tradução de J. Carlos P. Almeida Filho, 2000.
  • DOMINICÉ, Pierre - A biografia educativa: instrumento de investigação para a educação de adultos. In: NÓVOA, António e FINGER, MathiasO método (auto)biográfico e a formação. Lisboa: MS/DRHS/CFAP, 1988.
  • EHRMAN, Madeline E. Understanding Second Language difficulties. London: Sage, 1996.
  • NÓVOA, António. Vidas de professores. Porto: Porto Editora, 2000.
  • Revista eletrônica REVISTA HISTÓRIA ORAL: UM AUTO-OLHAR. Volume 7, 2004. (consultado em 17. 01. 2012 às 16h50)
  • TELES, Ana Filipa (Mimeo) Portugal and Cultural Diplomacy
  • http://neho.vitis.uspnet.usp.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=5&Itemid=12( consultado em 17. 01. 2012 às 17h)

Anexo:

Relato do informante Johan

Texto transcrito da entrevista gravada:
Eu comecei a aprender português por causa de minha esposa, ela é diplomata e ela foi, ela aceitou trabalhar aqui no Brasil e por causa disso, eu começou, comecei na verdade na Bélgica estudando um pouco de português, mas eu queria aprender o português do Brasil com o sotaque brasileiro e isso é bem difícil encontrar na Bélgica, temos várias escolas de línguas que são boas, muito boas, só que sempre é o português de Portugal e eu teve que procurar uma outra professora e foi uma brasileira, do Espírito Santo e ela deu cursos privados mas sem muito estrutura, ela não era formada realmente...   em Bruxelas tem uma casa da América Latina e lá se organiza cursos e ela conheceu  alguma pessoa lá, entrou e começou a dar aulas, mas sem muita estrutura, de vez em quando ela falava muito, não era difícil mas é mais um conhecimento passivo que você assimila,  ela deu papéis mas não sei de que livro, eu me lembro que nós depois de três ou quatro meses aprendemos todos as partes do corpo, partes expostas, mas também esta parte (mostrando detalhe do dedo), sim  bem extenso e são conhecimentos eu não, eu tenho aqui numa parte de minha cabeça mas é mais conhecimento passivo, não é ativo... e só foi quando cheguei aqui no Brasil é que comecei realmente a aprender português de uma maneira mais dentro de uma estrutura...( mas voltando lá na Bélgica), na verdade foi um curso completo, só que ela deu uma parte de gramática mas nunca completo, ela, por exemplo, ela ensenhou o perfeito e o imperfeito, mas o perfeito tem muitas exceções e ela não deu essas coisas, acho que pra ela não foi uma coisa bem pensada, foi mais: ah! Temos falar, eu falei, você falou, depois a gente começou a utilizar trazer e foi: eu trazei,  você trazeu, uma coisa assim e como o curso não foi muito, não teve muita estrutura, de vez em quando nós nos perdemos dentro da aula, foi neste momento que ela começou a falar.  Nós éramos poucos na sala, o grupo também varia, o grupo mudou de vez em quando,  a maioria foi falante de francês eu acho que eu foi o único aluno com a língua materna flamengo, Bruxelas é uma cidade mais francês do que flamengo.  Se cometo um erro em português, para mim faz parte do processo de aprentizagem, emocionalmente não me afeta, depende do contexto, eu tô trabalhando na embaixada da Holanda em Brasília e faz um passo muito grande e lá eu tenho contatos profissionais, eu falo com procurador, com pessoas com cargos altos e lá se eles rissem, isso me afetaria, mais em contextos assim, porque lá eu tenho que obter um resultado, eu tem que, eles tem que fazer alguma coisa pra mim, eu tenho que convencer eles a fazer, lá é diferente, mas com amigos...  pra mim depende do dia também, depois de ser exposto durante um tempo longo, dentro do contexto português eu sou muito mais fluente.

(Sobre a professora) Ela tentou só falar em português só que quando a turma não entendia ela de vez em quando explicou em francês muitas vezes sim, como ela não, a turma com estudantes da universidade que encontrava uma brasileira ou uma brasileiro ou ia fazer um estágio no Brasil, pessoas com alto nível que já tinha estudado outras línguas, então acho que pessoas deste tipo seria mais útil de dar toda a gramática e ela só repetia as coisas, não foi uma professora profissional, ela tentou realmente, ela não sentia onde era a dificuldade, ela não entendia nossa dificuldade,  mas bom mas a gente deixou passar... (Sobre cultura brasileira) ela explicou assim um pouco sobre as festas, o carnaval, o reveillón...  assistimos uma vez um vídeo, de vez em quando, mas não foi nada de excepcional.  (Sobre o material didático e a professora) Acho que foi insuficiente, porque eu lendo os jornais sabia também sobre esses assuntos, ela não mostrou que ela é brasileira, não sabia realmente, mas foi uma menina que encontrou um belga que estava morando em Bruxelas, ela tinha uns 25 anos, eu tinha 30 anos... (Sobre o nível de escolaridade da professora) Não sabia. (Sobre níveis dos cursos) O curso tinha vários níveis, mas a professora era a mesma, ela realmente tentou arrumar uma turma e guardar a turma para que a turma continuasse com ela, só que isso introduzia uma dificuldade eu acho porque se  você tinha que fazer uma prova mas se eu não passar, não... (Sobre avaliações) Foram provas escritas, só que a professora tinha interesse de deixar passar todo mundo porque isso significaria que ela teria mais alunos no ano próximo, então dentro da prova teve uma contradição e ela deixou passar todo mundo, o mais importante foi quase chorar um pouco, você ia fazer melhor, estudar mais e tá bom então você passou... (Sobre custos do curso) Não me lembro quanto era o curso, uns 200 euros por seis meses, algo assim. (Instalações da escola) A escola na verdade foi uma casa cultural da América Latina, lá teve curso de salsa, curso de música brasileira, curso de espanhol e teve uma pessoa também que dava aulas, aula de português.  Teve em Bruxelas uma só outra oportunidade de estudar o português do Brasil, que foi na embaixada do Brasil em Bruxelas, mas eles tinham só uma turma de pessoas mais avançadas e foi durante o dia, das 11 ao meio-dia, acho que a professora foi uma esposa de diplomata brasileiro, eu não fiz esse curso porque o horário era impossível para mim, eu fiz só duas aulas. O curso terminou, só fiz um ano e oito meses e depois saiu e cheguei aqui no Brasil.

(Na chegada ao Brasil) Na verdade, o que eu tinha aprendido me servia para saludar as pessoas, para pedir um café, para ser turista dentro do Brasil e para poder mostrar que falava um pouco, ajudou, ajudou sobretudo para fazer a prova na UnB no PEPPFOL, com esses pequenos conhecimentos eu fiz a prova e entrou, entrei num nível bastante alto, acho que foi avançado I. Foi surpreendente sim, pra mim foi bom porque me esforçou a estudar mais (Como ficou sabendo do PEPPFOL)  Dentro da comunidade diplomática e depois pesquisei na internet, as pessoas lá em geral foram gentil, os cursos já tinham começado e mesmo assim eles aceitaram, eu fiz a prova e comecei no meio. (Experiência de aprender português no PEPPFOL-UNB) Acho em geral depende muito dos professores, eu fez 3 cursos e meio e em geral teve bons professores,  mas o material não é muito inteligente, muitos exercícios são mecânicos, é bem fácil e você mesmo sem entender o contexto, você pode preencher, você  você vê lá que tem, deve ser o imperfeito, então vamos fazer tudo no imperfeito, funciona, mas dependendo da professora, eu tive a professora X, ela não está mais e com ela nós visitamos o museu nacional, assistimos um concerto, um show, ela realmente tentou ampliar o conteúdo,  mas em geral a metodologia podia ser melhor, mas eu escolhi fazer o curso lá porque tem a turma e isso foi bom, você faz amigos e o português volta a ser um idioma prática entre amigos, não somente dentro de um contexto diplomático, dos amigos brasileiros,  mas também tem outras pessoas, eles falam italiano, teve um japonês, teve alguns da Colômbia, então o português é a língua comum. A aula é mais de gramática e eu acho que para aprender um idioma é necessário, só que como muitas pessoas já tinham aprendido também outros idiomas, a italiana falava espanhol, falava inglês, eu falo francês e inglês, a japonesa fala inglês... todo mundo já tinha estudado um idioma, neste contexto não é necessário realmente  pode dar um livro de gramática e pra aula seguinte temos que estudar de página 3 até 4 ou até 5. 

(Sobre a autonomia dos alunos) Sim, poderíamos ter mais autonomia  acho que a metodologia do PEPPFOL é como se fosse ensino médio, pessoas, o aluno mais jovem aprendendo um idioma.  Me lembro que o nível foi,  primeiro eles explicavam as cores, verde, azul e três meses depois foi azul claro, é a mesma coisa e ano próximo foi bordô, foi cores que vêm de outros substantivos, não me lembro tudo, mas branco de ovo, coisas que em qualquer idioma existe, você pode dar todas as cores de uma vez.  Para uma pessoa que está realmente aprendendo pela primeira vez o idioma isso pode ser um pouco estranho, que existe cores que vem de vinho, mas para alguém que já estudou outras línguas... (Sobre as avaliações do PEPPFOL)  Acho que a parte das avaliações é boa, tem uma parte, trabalho durante a turma, tem exercícios mecânicos também ou realmente pequenas entrevistas e depois teve a parte oral, falar sobre um assunto e uma prova bem ampla escrita com a parte gramática, com foi de vídeo, assistir um vídeo,  um áudio, fazer uma pequena redação.(Preparação para o CELPE-BRAS) Eu me preparei no PEPPFOL também, eles têm um curso especial pra isso, acho que foi bom, eles têm um padrão como tem que ser e acho que só pra passar no CELPE-BRAS o curso foi ótimo, mas não significa que você vai poder utilizar esse padrão  em outro contexto, mas, bom, qualquer prova é assim. (Sobre a experiência de fazer a prova do CELPE-BRAS) Foi um pouco mais difícil do que eu achava porque o áudio foi uma entrevista na rua, com muito barulho, como é na vida real. Então, eu acho que a prova foi boa mas para mim foi um pouco mais difícil. (Sobre as 4 tarefas do CELPE-BRAS)  Essas quatro tarefas são necessárias para que eu possa mostrar o padrão, não é só o idioma, a língua portuguesa, mas também o padrão de apresentar, eles fazem, uma das tarefas é um memorando dentro de uma empresa, lá é mais o estilo, pra mim isso não tem nada a ver com a língua portuguesa, é mais técnico, mas para poder avaliar os alunos, se os alunos sabem utilizar esses padrões quatro testes são necessários... assim é a prova, qualquer prova, mas o Ministério da Educação tem que mudar isso,  nós aprendemos como fazer uma carta, o espaço, os títulos, onde colocar o endereço, também em qualquer país é diferente. (Sobre satisfação com nível atual de português) Ainda cometo muitos erros.

(Voltando à contribuição dos estudos feitos na Bélgica para a aprendizagem). Ajudou um pouco mas não muito, um pouco sim, porque é muito diferente também de ter duas vezes, uma hora e meia por semana uma aula e depois chegar aqui no Brasil e de ter um bombardeamento, depois em horas, depois de 2 semanas eu já aprendi mais (Sobre contato com brasileiros na Bélgica) Tem muitos brasileiros em Bruxelas, só que a maioria é ilegal, 50.000, eles vêm tudo de Goiânia, na Bélgica todo mundo está trabalhando na construção, e onde eu estava morando tem muitos bares brasileiros e no sábado tocava música, o pessoal me chamou, eu escutava forró, não sabia que foi forró, mas do jeito que eles dançavam.... mas não aprendi, vou aprender agora e  posso voltar lá e dançar com as pessoas lá. Eu tenho que dizer ainda sobre o aprendizagem, eu depois de terminar o PEPPFOL e antes de fazer o CELPE-BRAS comecei a trabalhar e foi realmente lá onde aprendi a parte formal da língua. Acho que em qualquer, independente do público-alvo, mas se for um público-alvo como eu que estava procurando trabalho,  é necessário incluir esta parte formal porque é realmente um coisa diferente... coloco-me à disposição...,  foi  lá que realmente escrevendo, falando...  o mais fácil é ler, o mais difícil é atender o telefone. (Sobre o que busca num professor de português hoje em dia) Boa pergunta! Acho que eu precisaria de um professor que é bom pra corrigir redações, escrever e depois... e em geral uma pessoa com muito carinho, que tem o interesse também em ensinar, mas de forma técnica, uma pessoa que dentro de uma redação por exemplo, sabe dizer aqui você tem que usar uma outra palavra, um sinônimo...  na forma escrita porque sinto realmente a falta desta parte. Posso comunicar oficialmente com políticos, funcionários, oficiais, mas quando tem que escrever, neste contexto me sinto ainda um pouco, não... o que faço é tentar reduzir as cartas no máximo possível e isso especialmente no Brasil dentro do contexto formal  é difícil porque os brasileiros gostam de florear. 

 

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