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4. Celpe-Bras: Um Gênero Identitário Imprimir E-mail
Escrito por Rosana Salvini Conrado - Universidade de São Paulo - ISSN 2316-6894   

Resumo
Sob a teoria bakhtiniana, verifica-se que o Celpe-Bras coloca o examinando no papel de agente social, em processos comunicativos baseados na realidade do falante nativo. Por ser composto de textos autênticos, que circulam socialmente, o exame constitui-se como um gênero identitário, que contribui para o fortalecimento da língua portuguesa internacionalmente.

Palavras-chave: Celpe-Bras, PLE, identidade linguística, gêneros discursivos.

Abstract

Under thebakhtinian theory, it appears that the Celpe-Bras puts the candidate in the role of social worker in communicative processes based on the reality of the native speaker. Through the use of authentic texts that circulate socially, the test has an identitary genre, which contributes to the strengthening of the Portuguese language internationally.


Keywords: Celpe-Bras, PFL, linguistics identity, discursivegenres.

 

Introdução

O número de inscritos no exame Celpe-Bras, inclusive fora do Brasil, permite constatar um crescente interesse de estrangeiros pela língua portuguesa. Sob esse aspecto, cabe analisar de que forma o examinando entra em contato com a identidade linguística brasileira, a fim de oficializar seu conhecimento no idioma. Uma das bases que sustentam essa análise está associada à Teoria dos Gêneros do Discurso, de Bakhtin (2010). Recorremos ainda aos conceitos da abordagem comunicativa para o ensino de línguas estrangeiras, definida por Widdowson (1991), já que esta, assim como a teoria bakhtiniana, também direciona a elaboração do exame Celpe-Bras. 

Para Bakhtin (2010), o emprego da língua se materializa como atividade social, histórica e cognitiva, que privilegia a natureza funcional e interativa da linguagem (BAKHTIN, 2010, 261):

Todos os diversos campos da atividade humana estão ligados ao uso da linguagem. Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso sejam tão multiformes quanto os campos da atividade humana, o que, é claro, não contradiz a unidade nacional de uma língua.  O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana.

Widdowson (1991) indica que na abordagem comunicativa deve-se estabelecer como objetivo o desenvolvimento de competências que levem o aluno a progredir durante a sua formação. Não se espera apenas o aprendizado do sistema linguístico, mas principalmente o conhecimento sobre o que se pode fazer com a linguagem do mundo real, na prática. Assim como confirma Almeida Filho (2005, 81):

Aprender uma língua não é mais somente aprender outro sistema, nem só passar informações a um interlocutor, mas sim construir no discurso (a partir de contextos sociais concretos e experiências prévias) ações sociais (e culturais) apropriadas. Sempre que a compreensão e a produção desse discurso são obtidas através das bases sucintamente apresentadas acima, a linguagem resultante é comunicativa.

O exame Celpe-Bras é estruturado a partir dessas duas referências, conforme se pode observar em seu texto de orientação ao candidato (BRASIL, MEC. 2011, 6):

A avaliação envolve a compreensão e a produção de forma integral. A compreensão é avaliada considerando-se a adequação e a relevância da produção do candidato em resposta ao texto oral ou escrito. Quando se considera a proficiência como uso adequado da linguagem para praticar ações, o essencial para a avaliação da produção textual oral ou escrita é o aspecto comunicativo, isto é, a adequação ao contexto.

No que diz respeito aos aspectos discursivos, recorreremos a uma visão de discurso em que o sujeito é construtor de enunciados. De acordo com Bakhtin/Voloshinov (1992):

O locutor serve-se da língua para suas necessidades enunciativas concretas. Trata-se, para ele, de utilizar as formas normativas num dado contexto concreto. Para ele, o centro de gravidade da língua não reside na conformidade à norma da forma utilizada, mas na nova significação que essa forma adquire no contexto.

Os autores ainda defendem que um método eficaz de ensino de línguas deve familiarizar o aprendiz com cada forma da língua inserida num contexto e numa situação concretos. Assim, uma palavra nova só deve ser introduzida por meio de contextos em que ela figure como componente ideológico. A palavra isolada de seu contexto, um sinal, torna-se uma coisa única. Enquanto que, apresentada em suas aplicações, ela é compreendida como um signo flexível e variável, carregado de valores em determinado enunciado (BAKHTIN/VOLOSHINOV, 1992, 95):.

Na realidade, não são palavras o que pronunciamos ou escutamos, mas verdades ou mentiras, coisas boas ou más, importantes ou triviais, agradáveis ou desagradáveis, etc. A palavra está sempre carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial.

Quanto à materialidade do discurso, enunciados produzidos oralmente ou por escrito, analisa-se o conteúdo dos exames a partir da visão de que tais enunciados integram determinado campo da atividade humana e refletem suas condições específicas e finalidades por meio do conteúdo, do estilo da linguagem e de sua construção composicional.

A análise do corpus baseou-se nesses três aspectos: composição, tema e estilo, para que fosse possível classificar o Celpe-Bras como um gênero discursivo. Esse gênero (secundário) constitui-se de um conjunto de outros gêneros (primários), os quais atribuem, em conjunto, um caráter identitário ao exame, já que esse se compõe de representações sociais e ideológicas de uma comunidade linguística específica, a brasileira.

Análise do Corpus

Instituído pela PORTARIA N.º 1787, DE 26 DE DEZEMBRO DE 1994, publicada no DOU de 02 de Janeiro de 1995 - Pág. 39-Seção II, e aplicado pela primeira vez em 1998, o Exame certifica a proficiência em Língua Portuguesa para falantes de outras línguas. Internacionalmente reconhecido, trata-se de uma forma de legitimar o conhecimento do idioma em quatro diferentes níveis de proficiência: Intermediário, Intermediário Superior, Avançado e Avançado Superior. A aplicação ocorre duas vezes a cada ano, em edições distintas.

O Exame avalia a compreensão oral, a compreensão escrita, a produção oral e a produção escrita da Língua Portuguesa de forma integrada, ou seja, a partir da produção de textos (orais e escritos) motivados por outros que são recolhidos de portadores autênticos, que circulam socialmente em diferentes esferas.

Partindo da concepção de que a eficiência das ações caracteriza a habilidade comunicativa dos falantes, são propostas “tarefas” que envolvem basicamente uma ação, com um propósito e se direcionam a um ou mais interlocutores. Essa ação é contextualizada e direcionada. Por essa forma de apresentação, confirma-se o embasamento numa abordagem comunicativa, a qual também está expressa nos aspectos avaliados: adequação ao contexto, ao discurso e à estrutura linguística.

Aspectos composicionais

Utilizamos para essa análise seis modelos de exames já aplicados, os quais correspondem às edições de 2007 a 2010.  O exame é composto da Parte Individual (oral) e Parte Coletiva (escrita), composta pelas Tarefas I a IV, nas quais o aluno deve produzir textos a partir de outros.  As tarefas I e II são motivadas por gêneros registrados em diferentes mídias (áudio e vídeo), enquanto que as tarefas III e IV são orientadas a partir da leitura de gêneros impressos.

Uma vez que não tivemos acesso aos áudios e vídeos, utilizados nas Tarefas I e II, embora estes sejam mencionados nos enunciados, recorremos à analise das Tarefas III e IV, cujos textos motivadores fazem parte dos cadernos selecionados.

Para orientar nossa análise, construímos um quadro comparativo composto pelos gêneros discursivos que direcionam as Tarefas III e IV.

Edição

Tarefa

Gênero motivador (texto-base)

Gênero a ser produzido (texto-final)

Interlocutor

Propósito social discursivo

2007/1º

III

Crônica

Carta do leitor

Fernando Brant (autor da crônica)

Expressar opinião sobre o tema: escrita de cartas

 

IV

Entrevista

Artigo de opinião

Leitores da revista ISTOÉ

Argumentar favorável ou contrariamente ao ponto de vista do cirurgião Ivo Pitangui

2007/2º

III

Relato pessoal

Carta pessoal

Amigo

Encorajar o amigo a tomar uma decisão

 

IV

Reportagem

Artigo de opinião

Leitores de uma revista especializada em animais

Opinar sobre a questão da mistura de raças

2008/1º

III

Boletim informativo

Editorial

Leitores de um jornal do bairro

Alertar os moradores sobre os riscos da dengue

 

IV

Reportagem

Carta do leitor

Revista eletrônica Com Ciência

Expor a opinião sobre alimentos transgênicos

2008/2º

III

Reportagem

Informativo de divulgação

Diretores de escolas

Divulgar o lançamento de audiolivros

 

IV

Reportagem

Carta do leitor

Revista ISTOÉ

Questionar os argumentos da reportagem e posicionar-se favoravelmente ao uso do celular

2009/2ª

III

Reportagem

 Texto jornalístico                          (sem definição de gênero)

Alunos de uma escola

Orientar e alertar sobre os riscos do uso exagerado de torpedos

 

IV

Reportagem

e-mail

Vereador Alceu Brasinha, de Porto Alegre

Posicionar-se sobre o projeto de lei apresentado pelo vereador

2010/1º

III

Reportagem

Mensagem eletrônica (Blog)

Internautas

Incentivar a prática do banho de mar noturno

 

IV

Crônica

Carta do leitor                            

Jornal Estado de Minas (versão eletrônica)

Posicionar-se sobre o tema discutido: o uso da internet

Figura 2. Gêneros discursivos e contextos comunicativos

Segue um exemplo de apresentação das “tarefas”.


 

2.2 Aspectos verbo-visuais

As ilustrações das capas revelam, por meio de uma análise verbo-visual, uma progressão que conota um desvelar de identidades, que se dá pela gradual definição das imagens, antes representadas por um mapa e, em 2010, já caracterizadas por pessoas definidas. Assim como se pode observar nos exemplos abaixo:

Na primeira capa temos a ocorrência de um mapa do Brasil que se destaca num planisfério estático. Já na segunda, observamos que o Brasil continua em destaque, mas, ao mesmo tempo, faz parte de um mundo que circula pelo globo, denotando o reconhecimento de sua importância num cenário mundial e globalizado. Na terceira capa já podemos notar que o mapa do Brasil desaparece e dá lugar a vários globos que circulam sobre silhuetas de pessoas, de diferentes cores. Na capa mais recente, já é possível constatar o efeito de representação de uma identidade, constituída a partir desse Exame que, para certificar a proficiência em língua portuguesa exige que os estrangeiros sejam capazes de compreender e produzir modelos, próprios dessa comunidade. Nesse último modelo podemos observar que as silhuetas dão lugar a fotografias com imagens detalhadas.

Aspectos temáticos

O gênero “Exame Celpe-Bras” tem como tema o teste de proficiência, baseado na produção de enunciados orais e escritos. Todas as atividades do exame direcionam-se à produção do examinando a partir de um contexto simulado, que se configura por uma ação social, com determinado objetivo comunicativo. Portanto, para ser considerado proficiente, o examinando deve mostrar que é capaz de produzir discursos a partir da compreensão de enunciados, tendo consciência de que estes fazem parte de determinada esfera de circulação e de que seu discurso deverá atender a um objetivo específico, determinado pelo Exame, mas baseado em fatos sociais autênticos.

Aspectos Estilísticos

Quanto aos enunciados que direcionam a produção a partir da leitura, observamos que de 2007 até a edição de 2010 houve uma reformulação no que diz respeito à simulação do contexto discursivo, em que ficam explícitos os objetivos da comunicação e os elementos que a compõem. No exemplo de 2008, temos a informação antecipada sobre o texto que deverá ser lido e a indicação da ação “leia a entrevista”, o que não aparece mais no exemplo de 2010, que já se inicia com a enunciação do contexto. Assim como mostram os excertos:

Quanto aos assuntos dos textos selecionados para compor os Exames, notamos que estes são exemplos ideológicos, que retratam comportamentos individuais e questões sociais que representam, de forma legítima, o cotidiano dos brasileiros. Com o propósito de analisar e confrontar essas temáticas, organizamos a tabela que segue:

Pelos temas/assuntos escolhidos como motivadores para a produção do examinando, nota-se que o gênero Celpe-Bras é norteado pelo dia a dia do brasileiro, representado por discursos que circulam socialmente. Os textos originais foram publicados à época da edição dos exames, portanto são contemporâneos e, dessa forma, contribuem para manter a atualidade dos registros em relação ao cotidiano da comunidade linguística.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Celpe-Bras foi criado com a intenção não só de legitimar a proficiência em língua portuguesa, como também direcionar o seu ensino como língua estrangeira, tanto no Brasil como no exterior. A partir da análise dos modelos, pudemos constatar que, desde a sua implantação, o exame tem sido constituído como um instrumento avaliativo que utiliza a língua como instrumento de representação ideológica, com a qual seus falantes podem manifestar-se em diferentes contextos, materializando seus discursos de forma dialógica.

Os temas abordados pelos textos que compõem o gênero direcionam a produção de discursos em que o examinando deve posicionar-se, argumentando sobre o que ele acabou de ler, ouvir ou assistir. Para que o discurso possa ser materializado de forma a se aproximar de uma situação real, o examinando é levado a inserir-se num contexto como sujeito ativo, portanto sua voz é formulada em resposta a uma outra, assim como ocorre em situações concretas de comunicação. O Exame configura-se como plurilíngue, já que se constitui de múltiplas vozes: a do locutor-examinador (que elabora os enunciados), a do locutor-autor dos textos motivadores, a do locutor-examinando (que produzirá os discursos orientados pelos enunciados). Esses locutores ainda podem transformar-se em interlocutores, de acordo com o direcionamento da tarefa. Há que se considerar também que os enunciados, tanto os dos textos motivadores quanto os produzidos pelos examinandos, são direcionados a um auditório específico, o que os caracteriza como discursos sociais, em que ocorre um intercâmbio comunicativo.

Numa relação dialógica, as inúmeras possibilidades de respostas configuram o inacabamento dos gêneros discursivos (dos textos-base) e do próprio gênero Celpe-Bras, que é construído de acordo com a relevância temática da época em que é aplicado, assim como com o que é pertinente a um processo avaliativo em constante atualização.

Considerando-se que o Exame Celpe-Bras certifica a proficiência em língua portuguesa, na variedade brasileira, pudemos constatar que esse gênero configura-se como um instrumento representativo da identidade nacional, na medida em que é constituído de exemplos de discursos autênticos, os quais circulam socialmente sob a forma de gêneros, em variados portadores textuais. Esses discursos são difundidos internacionalmente por meio da aplicação do exame nos diversos países que o reconhecem como um instrumento oficial de legitimação do conhecimento linguístico.

REFERÊNCIAS

  • ALMEIDA FILHO, José C. P. de.  Dimensões comunicativas no ensino de línguas estrangeiras. 3.ed. Campinas: Pontes, 2002.
  • ______________________. Linguística Aplicada: Ensino de Línguas e Comunicação. Campinas: Pontes, 2005.
  • BAKHTIN, Mikhail. Estética da Criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
  • ________________/VOLOSHINOV. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec, 1999.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros: caderno de questões. Brasília, DF: MEC/SESu, 2007.
  • __________________________.Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros: caderno de questões. Brasília, DF: MEC/SESu, 2008.
  • __________________________. Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros: caderno de questões. Brasília, DF: MEC/SESu, 2009.
  • __________________________.Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros: caderno de questões. Brasília, DF: MEC/SESu, 2010.
  • __________________________. Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros: manual do candidato. Brasília, DF: MEC/SESu, 2011.
  • WIDDOWSON, H. G.  O ensino de línguas para a comunicação.   Campinas, SP: Pontes, 1991.
 

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