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7. A Implantação do PLE nas Instituições Imprimir E-mail
Escrito por José Carlos Paes de Almeida Filho - Universidade de Brasília - ISSN 2316-6894   

Resumo
A língua nacional de um grande país pós-colonial emergente pode não encontrar naturalmente sua natural rota de institucionalização nas universidades que precisam ofertá-la a um crescente número de estudantes estrangeiros em condições razoáveis de profissionalização. Esse parece ser o caso do Brasil na análise que empreendemos das situações frequentes registradas no país. Neste artigo algumas rotas já inauguradas por praticantes nas universidades brasileiras são trazidas para consideração dos potenciais agentes de institucionalização e outras são aventadas como sugestões na direção de um auxílio à política implícita e ocasional que ainda merecemos no cenário universitário.

Palavras-chave: Institucionalização do PLE, política de ensino de PLE

Abstract 

The national official language of a large emerging country may not find its natural route towards its institutionalization in the universities that must offer this language option to increasing numbers of foreign students in decent levels of professional standards. This seems to be the case of Brazil in the analysis we have conducted of the many frequent situations already detected in the country. In this article some practices introduced individually by different universities are brought to consideration by potential agents of institutionalization and other are thought out as possible new decisions towards the implicit and occasional language teaching policies for PFL in the university scene.

Keywords: institutionalization of PFL, PFL language teaching policy

 

Introdução

Este breve artigo pode conter, em parte, uma resposta para colegas em diferentes universidades e institutos federais que precisam convencer seus pares difíceis e superiores desconhecedores da importância estratégica do PLE de que é importante e urgente abrir a área de PLE em cada uma das instituições brasileiras de ensino superior. O texto pode, também, levantar questões em antecipação aos acontecimentos servindo nesse caso de recurso exploratório útil a potenciais líderes de PLE nas instituições.

Todo professor e/ou pesquisador que pretende implantar o PLE em sua instituição deve buscar conhecer primeiro quais as especificidades dessa área acadêmica e profissional de ensino propriamente dita. Ensinar a língua portuguesa requer uma sensibilidade específica para se compreender o que significa um aprendente falante de outra língua e participante em outra(s) cultura(s) buscar ingresso no Português PLE. Para uma discussão pormenorizada da definição do PLE, vide o artigo de Carvalho Batista e Lascar Alarcon na Revista SIPLE, vol. 03, 2011, acesso < www.siple.org.br>.

Há dois casos distintos de implantação do PLE na graduação em universidades ou faculdades tecnológicas: (a) como disciplina adicional num currículo de Letras/Linguagem, qualquer que seja o plano de estudos, e (b) como curso de graduação associado a outra língua estrangeira, à língua vernácula ou constituído em subáreas do PL2 (Português em contexto indígena, em contextos de surdez ou cegueira). A primeira tem o propósito de introduzir o formando de Letras à área de PLE abrindo-lhe a perspectiva de vir a atuar profissionalmente nesse campo no país e no exterior com continuado investimento formador em serviço. A segunda oferece ao graduando uma capacitação plena para atuar de imediato no âmbito profissional do PLE. Na pós-graduação, uma ou mais disciplinas de PLE que compuserem o programa de estudos voltado para a Aquisição e o Ensino de Línguas tem a função de preparar de modo intenso e focado o pós-graduando para a pesquisa em PLE, necessitando para isso de corpo docente adequado. Esses dois casos em nível de graduação é que são o foco deste texto.

Iniciativas de implante do PLE nas instituições

Começo por perguntar se quem está formado e preparado para ensinar uma LE, qualquer que seja ela, já não está próximo de atingir o perfil de professor de PLE que buscamos.  Entendo que sim, por viabilizarem tais cursos uma familiaridade ou uma preparação sistemática para ensinar e aprender uma nova língua iniciada na estrangeiridade.  E os professores de Português L1, estão eles igualmente prontos para se iniciarem na prática de ensino de PLE? Esses estão a princípio mais familiarizados com a estrutura e o funcionamento da língua portuguesa, mas precisam ainda vir a compreender bem o que é ensinar uma LE. Saber mais sobre o sistema de operação da língua portuguesa não lhes garante qualificação necessária e suficiente para o ensino do PLE.

É claro que em ambos os casos mais formação específica será necessária. Para se credenciar plenamente como professor de PLE, há um conjunto de requisitos que precisam ser cumpridos pelos aspirantes conforme apontei em outro artigo (Almeida Filho, 2007).

A questão que nos move neste ponto é a do protagonismo na abertura de uma disciplina ou mesmo de um curso de PLE.  Quem deve pedir a abertura de um novo curso, da nova disciplina, da nova área de PLE nas universidades? Em princípio qualquer docente pode tomar a iniciativa desde que a ele ou ela uma consciência da necessidade da instauração do PLE numa dada instituição tenha ocorrido. Esses cursos, conforme já afirmei na primeira seção, podem ser associados ao Português L1, como inovou a Universidade Federal da Bahia, ou podem ser abertos como licenciaturas duplas em conjunto com outras língua estrangeiras, conforme pretende inovar a Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, associando o PLE ao Francês LE. Nesses casos, como proceder? Além da justificativa para o PLE no projeto político-pedagógico, a pergunta de base é: quais disciplinas são indispensáveis para que estudantes brasileiros falantes nativos do Português possam lecionar o PLE profissionalmente?

Comecemos por quem deve tomar a iniciativa de solicitar a abertura de uma disciplina. A recomendação que faço de início é que toda universidade crie um núcleo de PLE e cultura brasileira junto às coordenações de curso e associadas às pró-reitorias de assuntos internacionais com conhecimento e engajamento da reitoria, preferencialmente. Um coordenador ou professor destacado de um curso de Letras em língua estrangeira ou um professor ou coordenador de Português Língua Vernácula também pode tomar a iniciativa e fazer os contatos iniciais antes da redação do projeto. Quando se tratar da abertura de um curso de PLE e ele estiver associado a outra língua ou ao PLM, deve-se tomar o cuidado de ofertar pelo menos as seguintes disciplinas:

  • História e Especificidades do Ensino de PLE
  • Planejamento de cursos de PLE
  • Seleção e Produção de Materiais para o Ensino de PLE
  • A aula de PLE e suas extensões
  • Avaliação de rendimento e proficiência em PLE
  • Gramática tradicional crítica do PB e seu ensino
  • Cultura brasileira no PLE

Se o curso for integralmente dedicado ao PLE, obviamente mais disciplinas poderão ser adicionadas: Linguística Aplicada na Formação do Professor de PLE, Pesquisa em PLE, Gramática Pedagógica do PLE, PLE em contextos de especialidade (crianças, hispanofalantes, fins específicos, herança etc), Mídia e circulação digital em português, fonologia do Português, entre outras.

Professores de PL1 e de LEs como iniciadores

Se forem professores de Português L1 os que conseguem a dianteira e o passe livre para organizar o projeto e abrir a nova área, seja como disciplina, seja como curso completo, esses devem saber que há especificidades importantes nela e considerar que o fato de serem falantes nativos formados para ensinar PLM não os qualifica de imediato, absolutamente.

Assim que o curso se abrir, ou obtiver luz verde, imediatamente a professora ou professor com liderança deve procurar iniciar sua formação específica para atuar no novo contexto sob novas condições. Os professores de outras línguas estrangeiras da instituição devem ter também a oportunidade de contribuir ensinando na nova área ou na nova disciplina de PLE. Com cuidado, o coordenador do projeto pode mostrar o perfil desejado e lançar uma chamada para candidaturas.

Uma estante de livros com referências acadêmicas sobre a nova especialidade deve ser imediatamente iniciada, se ainda não existir.

Mediante um novo projeto, um Centro ou Programa pode ter início com o intuito de agregar docentes, materiais, recursos outros, projetos de pesquisa e biblioteca específica para atender alunos regulares, especiais e de convênios que precisam do PLE.

Assim que tiver início a primeira turma da nova disciplina, divulgar amplamente esse feito junto ao Departamento, Faculdade ou Instituto, setor de Relações Internacionais e Reitoria (a reitora ou reitor deve ser informado mediante ofício, audiência ou ocasião acadêmico-festiva logo que possível).

Quando houver bloqueio do setor de PLM/PL1 mediante inércia ou oposição explícita (muitas vezes não apoiando, não tomando a iniciativa e não deixando fazer), apelar para um colega de grande prestígio, na ativa ou aposentado, pedir outros apoios e levar a petição com justificativas e propostas diretamente ao Diretor ou à Diretora e, depois, à Reitoria e setor de Relações Internacionais. A visita de especialistas e autores prestigiados à Instituição que pretende abrir o PLE pode ajudar um colega que esteja liderando a proposta ou equipe engajada. Os visitantes fazem asserções e propostas que podem servir de apoio inestimável na consecução da autorização para funcionamento do PLE, ainda que em caráter experimental.

De toda forma, a inclusão de uma disciplina de PLE no currículo como disciplina obrigatória (ou optativa, se o Colegiado não desejar assim) se justifica sempre pelo poder potencial dessa formação para eventuais oportunidades de se ensinar PLE no futuro promissor que guarda o PLE. Quando a disciplina for criada, a abertura de uma ou mais salas de ensino de PLE para estrangeiros será urgente. Ela servirá também para importantes observações e estágios de docentes, alunos de Letras e acadêmicos em projetos de iniciação científica.

A frequência a eventos acadêmicos do PLE está prevista para os professores em exercício antes e depois da instalação da disciplina de PLE e de salas para o ensino e estudo do PLE por alunos estrangeiros. Acompanhar e, eventualmente, associar-se à SIPLE será, certamente, uma ação acertada e necessária para orientação na área de EPLE.

Se for um docente da área de LE o iniciador, seja ela qual for, buscar imediatamente apoios entre professores de outras línguas e da Língua Portuguesa para compor a equipe ou Conselho Consultivo. Relações públicas bem feitas evitam ataques de ciúme acadêmico. Iniciar-se na área de PLE com gestos indicadores de credenciamento na nova área vizinha também será exigido de professores de línguas estrangeiras (vide Almeida Filho, 2007 para um tratamento explícito dos passos rumo a esse credenciamento necessário).

Concluindo

Neste artigo propus razões e argumentos para se iniciar a implantação do Ensino e a Pesquisa na área de PLE nas universidades, institutos federais e faculdades de Letras do país. O ensino de PLE hoje é praticado por profissionais formados nessa área, alguns, mas a maioria dos atuantes ainda provêm do ensino de outras línguas ou do Português Língua Materna (PLM ou PL1).

Todos devem se unir pelo PLE num Departamento ou Instituto ou Faculdade. Preparar-se para ensinar uma LE não é uma tarefa para ser resolvida num final de semana. Temos notícias de professores selecionados para lecionar PLE no exterior que se aproximam de especialistas e formadores de professores de PLE pedindo cinco minutos de tempo para uma conversa que os prepare com “dicas” para iniciar sua missão.  Recomendei aqui procedimentos que iniciam o trâmite de um projeto de implantação do PLE e enfatizei a atitude de formação deliberada nessa área com o propósito de atender aos requisitos para se ingressar e atuar a contento nela.

Referências

  • ALMEIDA FILHO, J.C.P.  Fundamentos de Abordagem e Formação no Ensino de PLE e Outras Línguas. Campinas: Pontes Editores, 2011.
  • ________  Credenciar-se para atuar na área de PLE. In ALMEIDA FILHO, JCP & CUNHA, MJ  Projetos iniciais na área de PLE. Campinas: Pontes Editores, 2007.
  • CARVALHO BATISTA, M. &  LASCAR ALARCON, Y. Especificidades do Ensino de PLE.
 

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