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8. Entrevista sobre Políticas Públicas para a Promoção do PLE no Século XXI Imprimir E-mail
Escrito por RevSIPLE - ISSN 2316-6894   

Esta 4ª edição da Revista SIPLE inova ao introduzir uma entrevista com o Prof. Dr. José Carlos Paes de Almeida Filho, da Universidade de Brasília (UnB) e editor desta revista, sobre políticas públicas para a promoção do PLE no Brasil e no mundo no século XXI. A entrevista aborda, entre outros aspectos, a visão institucional, a criação do Instituto Machado de Assis, especialidades do PLE, novas abordagens da formação e do profissional, além do perfil futuro de alunos e professores. A entrevista foi concebida e conduzida por Francisco Tomé de Castro no Laboratório de Linguística Aplicada da Universidade de Brasília.

RevSIPLE: Como o senhor vislumbra o futuro em termos de políticas públicas para a promoção do Português Língua Estrangeira (PLE)?

Prof. José Carlos: Uma função social maior das políticas públicas é a de transformar condições, transformar situações da prática, e eu reajo a isso, logo de início, dizendo que no nosso caso não se trata de mudar algo que já esteja construído, como uma política pública explícita vigente, porque praticamente não dispomos de uma política nessas condições. Então, no nosso caso, é mais realista colocarmos uma consciência das muitas iniciativas dispersas de uma possível política futura e até o reconhecimento de uma não-política e o que essa quase política de retalhos e uma não-política tem de significado pra nós. É mais uma construção inicial a partir de fragmentos ocasionais do que uma transformação de estruturas ou da base de uma política para que surja outro programa deliberado.

Eu mesmo sou um sujeito histórico no quadro do PLE. Quando voltei das minhas primeiras experiências profissionais no ensino de PLE numa universidade dos EUA, vi-me disposto a trabalhar nessa área, mas deparei-me com muitas iniciativas assistêmicas, dispersas e grandes ausências. Digamos que eu reconhecia com dificuldade uma moldura tênue de políticas de institucionalização do Português e quase nenhuma consciência de área nas instituições brasileiras. Em meados dos anos 80 não dispúnhamos de livros didáticos em variedade suficiente para atender o ensino crescente do PLE, não havia literatura teórica especializada no assunto para ler, não tínhamos eventos profissionais, não contávamos com uma associação de professores, não existia ainda um grande exame nacional.

RevSIPLE: Mas, atualmente, já temos livros sobre ensino∕aprendizagem, eventos, associações e o CELPE-BRAS. Avançamos o suficiente?

Prof. José Carlos: Claro, desde então houve muito progresso, mas não a instalação de uma verdadeira política consciente, proativa, uma política deliberada, um plano que desse um norte, uma direção à questão nacional da escolha das línguas e do modo de ofertar línguas no currículo das escolas e universidades.

Primeiro, para que uma política na área de PLE se constitua é preciso que haja uma consciência de área, que tem crescido muito em nosso meio nos últimos trinta anos, no meio de quem pratica o ensino de PLE no Brasil, de quem faz formação.  Embora um pouco errática e esporádica, ela existe no sentido de uma política não-deliberada e não-consistente. Temos muitas iniciativas isoladas. Então, precisaríamos ganhar essa consciência para ter a expectativa de contar com uma política. É bom frisar que estamos tratando de uma política para a oferta da língua nacional, do Português brasileiro principalmente, e da cultura brasileira que tem implicação estratégica especial para o país no conjunto de línguas estrangeiras ou segundas línguas.

O segundo ponto é que essa consciência não se restrinja apenas ao ambiente local de ensino e aprendizagem de línguas, mas que ela venha também da administração pública, que também é responsável pela área de Aprendizagem e Ensino de Línguas.  Entendo que a área é tanto prática quanto teórica.  A promulgação de uma política de ensino de línguas tem um vínculo importante com agentes terceiros (que não os aprendentes e professores de línguas) envolvidos na questão como, por exemplo, o Ministério da Educação, o Ministério da Cultura, o Ministério das Relações Exteriores (MRE), que tem grande potencial de desenvolver uma consciência nesta área e ajudar na consolidação de políticas adequadas no seu âmbito.

RevSIPLE: O senhor poderia explicar melhor o que quer dizer com “ganhar consciência”?

Prof. José Carlos: Ganhar consciência significa vir a compreender o que é a atividade de ensinar e ofertar o PLE a partir do significado estratégico que se abre para formadores de opinião, gestores e professores. Entendo que já começamos a fazer isso, por exemplo, quando o MRE, que é um ministério-chave na consolidação de políticas para o Português Língua Estrangeira (PLE), principalmente quanto à oferta da língua portuguesa e da cultura brasileira no exterior. O Itamaraty tem um papel muito importante na oferta do PLE no mundo, mas a consciência exata do que implica essa diplomacia cultural pelo ensino da língua ainda não parece suficiente. Além de uma consciência, é preciso buscar subsídios de princípios embasadores e capacidade profissional de ação nas universidades que têm pesquisa relevante, que tem movimento e iniciativas em favor do PLE. Os centros, escolas e universidades podem, então, recrutar profissionais desse meio, lançar concursos que buscam pessoas com certo perfil, começando por valorizar a formação.

Então, os problemas que se pode discernir são a falta de consciência e de um plano de ação a médio e longo prazos, são as iniciativas isoladas e esporádicas, é a falta de perspectiva que dificultam um crescimento da profissão e da oferta de oportunidades balizados por uma política que maximiza resultados com os recursos limitados de que dispomos.  Iniciativas isoladas (embora importantes) já as temos de sobejo. Por exemplo, temos um exame nacional de proficiência em PLE, embora sem a devida institucionalização que se traduz em implementação insegura e desuniforme. Vale dizer que o exame é foi muito bem-vindo, e tem sobrevivido, com resultados de grande impacto. Contudo, ele não é parte de nenhum pensamento maior, de um plano de ação, no qual opera como parte de uma engrenagem. Na verdade, não temos uma engrenagem, nós temos partes dela, temos roldanas que funcionam separadamente, mas não chegamos a ter o motor.

RevSIPLE: O que seria o motor?

Prof. José Carlos: O motor a que estou aludindo é a política de ensino de línguas propriamente dita editada e funcionando. No sentido de construir esse motor, eu comecei falando que é preciso ter uma consciência de área.  Ela já foi iniciada, tem um percurso, vai crescendo aos poucos, vai melhorando, mas ela é muito restrita, às vezes, à área, e eu falei que a primeira coisa que temos que fazer é expandir essa consciência de área para outros círculos da administração e do governo. Assim, poderemos ter expectativas quanto a uma política, um plano de política, que seja explicitado, permitindo que se possa interferir nele, participar dele, para que possamos até recusá-lo com argumentos objetivos. Isso já seria um grande avanço. Então, precisamos influenciar as instâncias governamentais, que são muitas vezes responsáveis por políticas maiores de institucionalização, para entenderem que essa área precisa ser priorizada, ter uma estratégia, ter um plano, um Parâmetro Curricular Nacional (PCN), um orçamento, uma secretaria com pessoas que tivessem um pensamento constantemente voltado para isso, que fosse organizando as partes que estão soltas, para virem a compor uma engrenagem que se comunicasse entre si. Então, isso tudo a gente pode trabalhar no plano das universidades, nas iniciativas no exterior, nas escolas que oferecem português como língua de herança no exterior, junto aos professores, nos centros culturais brasileiros binacionais, nas universidades onde temos postos de professores leitores, dentro do Itamaraty, dentro do MEC numa secretaria correspondente, numa vinculação ao Ministério da Cultura para iniciativas de adequação de uma diplomacia cultural frutífera.  Poderíamos manter espaços que no conjunto mostrassem a consciência, primeiro, da área, a importância estratégica dela para o país e depois consolidasse isso numa política, num plano de ação decenal, por exemplo, para começar. Um plano não só para o português como língua não-materna, mas também para outras línguas de oferta no sistema escolar regular.

RevSIPLE: Este plano incluiria a criação de um instituto oficial para a promoção do português brasileiro, algo como um aventado instituto difusor, nos moldes do Camões português, do Cervantes espanhol ou do Goethe alemão?

Prof. José Carlos: Mais uma das engrenagens da política vai ser a criação de um órgão especializado em formular e gerir uma política do idioma como língua de oferta a falantes de outras línguas. Um instituto brasileiro não precisaria estar marcado pelo nome de um autor, de um romancista, de culturalista literário. Podemos ser inovadores nesse quesito da denominação e natureza do órgão. Recentemente escrevi ao Ministro da Educação após ouvir uma entrevista dele na televisão dizendo que o ensino de PLE deve crescer muito na China e para isso um organismo tipo instituto deveria ser criado para coordenar os esforços de introdução do PLE naquela potência emergente asiática. A gente sabe que qualquer iniciativa, mesmo que pequena, na China envolve milhões. Então, para controlar e organizar a introdução do português nos centros e universidades chineses vamos precisar de um instituto só para a China. Essa solução para a China precisaria de uma medida que nunca foi tomada, que é a criação de um instituto dessa natureza para gerir o PLE no mundo e no Brasil. Eu sugeri a ele na minha carta que o nosso instituto talvez não devesse ter o nome de uma pessoa, mas aproveitando a imagem do Brasil hoje como país com enorme vocação para o meio ambiente, num contexto de valorização do meio ambiente numa escala planetária, poderíamos ter um Instituto Brasil para Língua e Cultura. O nome do país é um nome de árvore, um nome ligado à natureza. Talvez seja hora de inovarmos no conjunto de iniciativas de organismos culturais assumindo que o Brasil é diferente e único. Nós não somos um país no qual um grande romancista do século 19 precisa ser posto ao lado do panteão europeu. Nossa cultura é mais vibrante, mais oral, mais popular, então poderíamos fazer valer essas qualidades e dar um nome originário de uma árvore, do pau brasil, do qual derivou-se o nome de nosso país e que hoje significa uma esperança para o planeta. Fica tácito que concordo com que precisamos de um instituto, de um organismo encarregado de políticas dessa natureza. Mas que seja inovador, diferente dos institutos que temos para outros idiomas. É preciso cuidar mais e rapidamente da língua portuguesa no Brasil e no mundo.

RevSIPLE: E para o português ensinado aos estrangeiros no Brasil, o português como segunda língua, qual seria a política?

Prof. José Carlos: Quanto ao PL2, nós temos aí mais uma atribuição para o Instituto Brasil, que se ocuparia também da questão do português no Brasil como língua nacional, língua materna de uma grande maioria dos brasileiros, e por outro lado cuidaria de outro grande segmento do português quando ele é chamado para ser outra língua de comunicação na cultura e na ciência, complementar e multiplicadora de oportunidades para pessoas que escolhem o português e a cultura brasileira. Então, poderíamos estabelecer aqui uma divisão de trabalho entre segmentos de estudo da língua que, num dado momento, conversam entre si. Isto seria uma novidade, uma iniciativa sinergética, com um âmbito específico para cada uma delas. Com o PL2, primeiro, nós temos de preparar a recepção de estrangeiros que chegam às nossas escolas regulares sem nenhum tipo de apoio, nós temos notícias disso, e a outra questão é a oferta de PLE nas universidades nas quais já existem Centros de Estudos Brasileiros (CEBs) e nas escolas particulares que ensinam PLE, espécies de CEBs privados. Eles estão caminhando apesar de não terem diretivas claras, sem parâmetros, mas eles estão agindo e fazendo um trabalho de alta relevância. É claro que eles precisam de ajuda para crescer ordenadamente, precisam preparar os seus professores, equipar suas bibliotecas, manter suas páginas eletrônicas. Nós precisamos disso e também acudir as comunidades brasileiras que não param de crescer no exterior, cujos filhos não recebem o cuidado, a antecipada proteção oficial, para que eles mantenham o português. É o português como língua de herança, cuja demanda tem crescido no exterior. O que fazemos com crianças que se alfabetizam e já têm uma vivência escolar no exterior? Como é que elas podem se integrar ao nosso sistema brasileiro, se quiserem? Os sistemas teriam de conversar entre si para que essas crianças tenham um estímulo de língua, de integração, de intercâmbio, e possam fazer parte da educação formal no Brasil, receber um certificado por isso. Temos que pensar nisso e para isso precisamos de uma estrutura. Hoje essas necessidades não são atendidas com provisões de fundos, com sistematicidade, para um máximo de benefícios para todos os envolvidos.

RevSIPLE: E qual seria o papel das universidades brasileiras neste projeto de um futuro mais estruturado para o PLE?

Prof. José Carlos: O futuro é uma coisa que nos interessa muito no Brasil. O Brasil é um país que olha muito para o futuro. Nós olhamos para o futuro, mas às vezes não temos o cuidado de nos prepararmos para ele. Precisamos mostrar que o nosso futuro é um presente novo, o futuro é esse presente com o que Brasil sonha. Então, o que nós projetamos? Nós projetamos um organismo que nos ajude a pensar o português de maneira cuidadosa no exterior e aqui dentro, nas ofertas de cursos para estrangeiros que vêm pra cá. Nós precisamos de uma estrutura que ajude as universidades a se instalarem de modo adequado, por exemplo, implantando cursos para a formação de profissionais que vão cuidar desse futuro que queremos. Precisamos de um futuro melhor de formação para os nossos professores e alunos aqui dentro nas universidades brasileiras. No exterior, precisamos de uma estrutura que valorize a especialidade de professores em PLE para que tenhamos profissionais de boa qualidade ensinando no mundo, os melhores possíveis. Precisamos cuidar para que haja centros de pesquisa em número suficiente para dar conta disso no Brasil. Por exemplo, se acharmos que numa região norte não há centros dedicados à pesquisa em PLE em número adequado para as necessidades, temos de criar ali mais dessas unidades, nós temos de induzi a criação de centros nas regiões e estados, para que as pessoas  desses lugares possam ir em busca de especialidade. Isso é indução e essa indução é papel da política. Isto também é tema de pesquisa.

RevSIPLE: Na sua visão, qual seria o primeiro passo a partir de agora para implementar uma política pública consistente para o PLE?

Prof. José Carlos: Poderíamos pensar em estabelecer uma Comissão de Alto Nível no Brasil para políticas do português e a cultura brasileira. Há iniciativas bissextas na área de português com a convocação de críticos literários, gramáticos e linguistas. Mas as pessoas que trabalham de fato com o ensino do PLE não têm sido chamadas a opinar e contribuir. Essas comissões grandes com gramáticos pensam em fazer gramáticas para serem distribuídas, pensam em fazer um programa de literatura para o mundo e já foram criadas comissões para elaboração de materiais para uso unificado deles ao redor do mundo ao arrepio dos melhores juízos sobre isso de que pesquisa e ensina na área. Muitas dessas comissões não têm êxito como se antevê. Fracassam em criar consensualmente um instituto internacional para a Língua Portuguesa também.

RevSIPLE: Sem contar as especialidades do PLE independentemente da questão linguística ou cultural em nível internacional.

Prof. José Carlos: Claro, entre as especialidades do PLE, já falamos do bilinguismo com o Português-LE nas escolas públicas brasileiras (PL2), do português como língua de herança, o ensino do português para fins específicos (EPFE), que é uma área antiga que ainda tem muito valor, Outra modalidade que temos pensado é a oferta de português para grupos de trabalhadores imigrantes urbanos, que estão crescendo no Brasil, a exemplo dos bolivianos e os haitianos em épocas mais recentes. Temos um leque de especialidades de que cuidar. Temos ainda a oferta de português para os brasileiros indígenas, o português como língua estrangeira mediada por LIBRAS, estas especialidades novas que vamos ver cada vez mais presentes no futuro. Agora, se tivéssemos mais cuidado de não prescindirmos de uma política que já fosse pensando tudo isso, teríamos hoje uma ordenação do nosso futuro. O nosso futuro não precisa ser errático.

RevSIPLE: E a projeção do português no contexto da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016 no Brasil? Poderíamos pensar em alguma política específica?

Prof. José Carlos: Temos ainda os grandes eventos sazonais como a Copa do Mundo e as Olimpíadas que o Brasil vai sediar nesta década, e que servem para criar essa consciência, um sentido de emergência, mas cuja solução não se esgota nessa noção das coisas. Se tivéssemos uma política e um organismo que se ocupassem dessas coisas, ficaríamos preparados naturalmente para esses eventos, não teríamos com que nos preocupar. O que acontece aqui é que como temos um despreparo acumulado, esses eventos acabam acirrando algumas das nossas deficiências e limitações. E, então, queremos acudir com a emergência, fazendo tapa-buracos. Ações de emergência não dão longevidade para aquilo que queremos. Mas, claro, temos de ser realistas e em função desses dois grandes eventos internacionais que acontecerão no Brasil, talvez possamos contar com uma secretaria temporária que se encarregue deles, mas se dermos força para o temporário sem pensar no perene, não estaremos atuando de maneira racional.

RevSIPLE: Qual é o futuro dos alunos de PLE no Brasil e no mundo? Que desafios eles trazem para os professores e enfrentarão como alunos?

Prof. José Carlos: O futuro dos alunos de PLE começou com a abordagem comunicativa. A abordagem comunicativa diz que pra começar tudo temos de ouvir o aluno. O aprendiz deve nos dizer uma boa parte daquilo que precisa ser feito.  Não temos ouvido suficientemente os nossos alunos. Há muita iniciativa, muita consulta feita pessoalmente, esporadicamente, por um professor mais perceptivo, mais preparado, em escolas específicas, em universidades onde existe um nível de consciência de pesquisa maior, mas como uma prática planetária, mais global, disseminada, nós não temos essa prática. Só sabemos de maneira esporádica, por exemplo, sobre o perfil dos alunos de PLE. Aqui na América do Sul, por exemplo, temos estudos que mostram quem são os nossos alunos nos institutos e nos centros culturais e quantos meses, em média, eles querem estudar. São 11 meses no máximo, em média. E que essas pessoas são geralmente estudantes, universitários, profissionais liberais, são alunos com uma educação entre média e universitária, esse é o nosso público nos países sul-americanos. Mas podemos aperfeiçoar isso, precisamos dispor desse tipo de informação de forma mais completa, regular, consistente, de forma que possamos citá-los e nos apoiar neles em nossas decisões nas instituições. Temos de tornar esses dados públicos e fazer com que circulem nas revistas ou publicações especializadas, às quais muitos tenham acesso. Um segundo aspecto em relação aos alunos: que eles saibam em que consiste o processo de adquirir uma língua e que se formem, se preparem para tirar o máximo proveito das boas iniciativas que os professores, que os livros e as escolas lhes propiciam. Para isso, será preciso elaborar materiais específicos para a leitura para que os alunos tenham em mãos ou na internet estes textos que os ajudem a ser mais autônomos, a terem boas práticas neste sentido. Então, teremos que colocar material teórico numa linguagem acessível, os professores também precisam disso. Mas os alunos precisam de um material muito mais acessível, numa linguagem não técnica que eles possam ir aproveitando nas suas práticas individuais, incorporando isso num protagonismo crescente que aumenta a autonomia para aprender bem. Esta é uma segunda grande questão do futuro em relação aos alunos.

Temos de pensar também na formação de terceiros agentes, na formação de pessoas do governo, em postos de decisão, formadores de opinião. Todos esses agentes deverão ser formados para nos ajudar em boas políticas e boas práticas de ensino e aprendizagem de línguas. Mas esta perspectiva está num futuro mais longínquo.

RevSIPLE: Qual é o papel das novas tecnologias da informação e comunicação no futuro do PLE?

Prof. José Carlos: As tecnologias que estávamos chamando de novas, mas que não são tão novas assim, e que reconhecemos como tecnologias digitais, não são meramente uma pequena transformação da era anterior. A era do livro, a era letramentada, inaugurada pela imprensa de Gutemberg nos anos 1.400 passa agora por uma mudança de paradigma. As ditas novas tecnologias que achamos que são só novos recursos, na verdade têm o potencial para mudar a nossa era cultural. É possível que estejamos entrando numa nova era cultural, com uma maneira nova de arrumar o conhecimento, de fazer com que as interações sejam mundiais e simultâneas e que o conhecimento se construa nessa teia nova. Isso vai mudar a sala de aula de língua estrangeira. Em primeiro lugar, a língua estrangeira transforma-se num bem precioso do qual precisaremos a todo momento para poder entrar e circular nas grandes redes planetárias de comunicação. Isso vai certamente impactar a sala de aula, vai transformar as formas como as aproximações, as interações e as trocas acontecem, vai acentuar a urgência de adquirirmos línguas para o uso e não só essa dimensão que tínhamos no passado colonial e mais recente no Brasil de aprender uma língua como decoração cultural. Aprender uma língua como um objeto que se vestia quando precisávamos ir a um baile tradicional ou à fantasia. Mas agora não, as novas tecnologias estão trazendo uma urgência das línguas estrangeiras de novo, na minha percepção, e com ela a revalorização de uma oralidade transformada e agonização no sentido de efervescência, de um pico de necessidade e de urgência. Então a agonização que estamos imaginando para o uso das línguas vai afetar fortemente o ensino e a aprendizagem das línguas, a formação de professores e alunos para o futuro.

RevSIPLE: E em termos da urgência em aprender, a tecnologia pode ajudar? Muitos alunos querem aprender português em tempo recorde.

Prof. José Carlos: Quanto ao ritmo de aprendizagem em face da urgência contemporânea, é certo que a natureza humana não se transformou tão fortemente, o que não nos impede de admitir que a nossa cognição é transformável, mas com limites e eu não estou imaginando que poderemos instalar um chip subcutaneamente para aprender mais rápido uma língua. Mas a realidade é que no momento temos uma natureza humana, temos uma natureza cognitiva que também está em transformação porque o livro já nos transformou cognitivamente (isso é o letramento), a transformação da cognição pelo livro e pela cultura, o livro, a sala de aula, as bibliotecas, as livrarias, tudo isso é parte do que a gente chama de letramento. É a transformação cognitiva da nossa mente pelo livro, pela escrita. A escrita não vai acabar, vamos continuar vivendo no mundo da escrita, mas nós vamos ver o fortalecimento da oralidade.  Em breve, não vamos mais precisar digitar um texto. Bastará falar e ele sairá escrito.  Vamos lidar com uma escrita muito reatada, muito religada, à fala, à oralidade, mas também ao ouvir, uma nova oralidade pode renascer agora junto com uma escrita que está terminando uma fase, que vai continuar, de uma certa maneira acoplada a uma certa realidade, num mundo de comunicação simultânea. De toda forma, a natureza humana precisa ser reconhecida, por exemplo, na aquisição. Expor os alunos ao português, por exemplo, numa imersão controlada, fazer com que nossos alunos entrem em imersão internética, tudo isso vai acelerar a capacidade de aquisição. Vamos ficar mais cansados e irritados com o andamento gramatical e estruturalista, porque ele, sim, precisa da passagem gradual, pelas comportinhas da progressão cuidadosa e repetitiva. Em outras palavras, vamos ficar mais impacientes com isso e vamos ficar mais abertos a um tipo de aquisição que depende de movimentação da língua, porque, então, trata-se de uma aquisição que cresce geometricamente, você vai adquirindo a nova língua num modo mais criativo, começando mais cedo na aprendizagem a criar exponencialmente. A aquisição tem uma capacidade de acelerar uma competência comunicativa nova que a gente deseja para os nossos alunos. Mesmo nos limites humanos vai haver uma aceleração, da mesma forma, por exemplo, como as línguas se aceleraram na Europa depois do Renascimento por causa do advento da escola, dos meios de comunicação, das relações de compra e venda, da instauração das cidades.  Nós temos notícia disso na linguística histórica, de que a linguagem foi acelerada. Será que vamos também passar por um período de aceleração dentro do possível humano?  Porque podemos estar funcionando na aprendizagem de línguas ainda na era do livro impresso: ouve-se e lê-se o texto, decora-se, aprende-se a gramática, aplica-se e volta-se a fazer um pouquinho mais, esse era o ciclo mais lento que se consagrou no estruturalimo gramaticalista. Talvez tenhamos que fazer uma coisa mais acelerada, mais adquirida, onde o ambiente faz a língua circular com compreensão de uma maneira um pouco mais ágil e à medida que as pessoas vão adquirindo mais competência comunicativa essa circulação de língua pode ser ainda mais forte, então você vê que isso acelera geometricamente as possibilidades de aquisição. As novas tecnologias vão possivelmente nos soprar nessa direção.

RevSIPLE: Qual é a visão de futuro para o professor de PLE? Como devemos vislumbrar o profissional do PLE do século XXI?

Prof. José Carlos: Vejo o professor ou o aluno como diplomatas da língua, em primeiro lugar, e depois os terceiros que trabalham pelo português, os próprios diplomatas tradicionais são esses terceiros que trabalham às vezes para a língua, mas de maneira marginal, modesta. È isso o que ocorre quando um diretor de escola no exterior ou um diretor de programa de estudo de uma escola ou faculdade agem de algum modo em favor do PLE. Esses são agentes terceiros, mas os grandes diplomatas que estou vendo são os professores mesmo porque facilitam e implantam essa visão e, em segundo lugar, muito próximo do primeiro, os alunos por se tornarem diplomatas práticos dessa nova língua e dessa nova cultura nos seus países. Então, essa ideia tem um lugar importante na constituição da abordagem porque ela é o lugar de convivência das ideias. Imaginar um aprendiz, um aprendente e um professor, um ensinante, um facilitador, com essas características diplomáticas, da diplomacia cultural, significa conceber o trabalho de outra maneira, muito diferente, que corresponde a trabalhar com a cultura, com a compreensão, a trabalhar na interlocução, no entendimento, que em última instância vai acabar na democracia e na paz lá na frente. Quando você trabalha cultivando um aluno diplomata cultural, não é só para aquele momento em que ele está aprendendo o português, é para a vida dele, ele aprende a ser isso com o português e até com outras línguas novas que ele porventura venha a aprender.  Então, essa é uma atitude que se faz componente da abordagem, uma preparação de ideias e de atitudes que vão funcionar para a vida e isso não é só pra ele, é pra vida dele e para a descendência dele. Muitas vezes os filhos, a família, são contaminados por uma simpatia no sentido pleno da palavra, uma simpatia que aproxima, que compreende, que vai se estender para outras gerações de amigos do Brasil e amigos da cultura brasileira. É maravilhosa essa capacidade de multiplicação, o ensino de línguas como uma coisa multiplicadora, não adicional como está se falando agora. É fantástico porque criamos amigos, pessoas que querem se relacionar com o Brasil de uma forma adulta e não de uma forma vencida, submetida ou colonizada, mas de uma forma madura de compreender e lidar com conflitos e com o país, que nós podemos cultivar da mesma maneira como já estamos trabalhando, mas incorporando algumas ideias ao nível da abordagem, trabalhando a formação, o material didático, a avaliação para que todos assumam uma perspectiva de diplomacia cultural e com isso os frutos mais tarde sejam duradouros e multiplicadores.

RevSIPLE: Em termos práticos, o que precisaria ser mudado para implementar esta visão do professor de PLE como diplomata cultural?

Prof. José Carlos: Eu penso que o professor que trabalha tanto no Brasil quanto no exterior deveria ter uma passaporte específico com uma cor específica. E ser tratado de uma outra maneira porque ele é um aproximador, um agente da compreensão e, com sorte, da paz.  Essa pessoa precisaria ter a chancela da ONU num passaporte com uma cor específica, para que ele seja reconhecido como um agente que trabalha para a paz e para o entendimento, e essa pode uma aspiração legítima da profissão. No momento, precisamos, sim, explicitar novas dimensões da carreira da modernidade, que começou nos anos 30 do século passado com a Reforma Francisco de Campos no primeiro mandato obtido à força por Getúlio Vargas. A área não conta com profissionais em abundância na perspectiva que delineamos antes nesta entrevista. Na verdade, não dispomos ainda de uma carreira plena e reconhecida para professores de PLE. Quando o professor de PLE está numa carreira de professor universitário é um pouco melhor. Mas nós estamos pensando numa carreira que tenha algumas especialidades do professor de PLE, até porque se ele é esse agente importante como acabamos de dizer, ele precisaria de uma formação adequada, de um controle adequado dessa profissão para ele ter direito a passaporte, a chancela da ONU e a ser reconhecido como agente da paz. Uma capacidade de atuação boa é, portanto, resultado de uma formação sólida e adequada, Há, sim, uma agudização da necessidade de implantação de uma carreira que contemple o professor de PLE de uma maneira específica e que o leve a esse patamar de formação especializada e que o credencie para ter esse passaporte específico, essa chancela, esse selo da ONU, um professor que se ocupa das relações internacionais de maneira direta, importantíssima, de um modo que, às vezes, até a diplomacia tradicional não esteja podendo trabalhar. É incrível que o Itamaraty tenha incorporado o PLE imaginando que se tratasse do ensino de umas aulas de português, de um trabalho de ensino de gramática e vocabulário de uma língua, com algumas notas esparsas de cultura e arte brasileira. Nunca imaginaram que o trabalho de ensinar português e cultura brasileira estava entre os mais refinados e elevados de sua categoria. Os professores de PLE, por exemplo, ganham uma fração do que ganham os diplomatas de carreira e fazem um trabalho que é muitas vezes tão valorizador da amizade e da compreensão quanto o dos diplomatas de carreira.  Muitos trazem em quantidade e em profundidade, uma aproximação do Brasil com estrangeiros que a diplomacia pode não ter atingido com suas iniciativas convencionais.

Mas para mudar isso precisamos de um legislador avançado, com uma sensibilidade e uma cabeça futurista para poder antecipar. Nós estamos na subida, nós estamos tomando fôlego para deslanchar, mas se nós não tivermos boas asas, nós não conseguiremos alçar voo ou vamos ter tão somente um voo de galinha. Se tivermos pessoas no Senado ou na Câmara, no nosso Congresso, que possam sonhar com isso junto conosco, nós teremos a chance de implantar algumas dessas medidas e não perder o bonde da história.

RevSIPLE: O senhor gostaria de dizer algo mais à guisa de conclusão?

Prof. José Carlos: Eu sinto que com esta entrevista conseguimos tocar em alguns dos nervos mais delicados e centrais da nossa profissão, da nossa área, e vejo que consegui expressar partes dos meus sonhos e das minhas ideias nas análises que arrisquei neste diálogo tão rico. 

 

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