Skip to content

Green color

    Increase font size  Decrease font size  Default font size  Skip to content
8. Ensino de Português LE/SL em Comunidades de Trabalhadores Transplantados Imprimir E-mail
Escrito por Maria Eta VIEIRA - ISSN 2316-6894   

Resumo

Inserido em um contexto mais amplo de relações sociais, econômicas, políticas, trabalhistas e culturais, o ensino e aprendizado de Português Língua Estrangeira (doravante PLE) a imigrantes em São Paulo encontra-se, em alguns casos, atrelado a questões ligadas à inclusão, seja por meio de iniciativas de instituições públicas, entidades religiosas ou organizações não governamentais. Nos últimos anos, acompanhamos algumas iniciativas de instituições que buscam atender a população socialmente vulnerável, na qual está inserida parte da comunidade de imigrantes bolivianos, grupo que acompanhamos mais atentamente. Pretendemos com este texto contribuir para a ampliação de discussões que congreguem essas iniciativas sob uma perspectiva que leve em consideração, não apenas os documentos e as propostas inclusivas oficiais, mas também as características dos imigrantes e suas capacidades de escolha e reorganização de sua existência no novo espaço.

Palavras-chave: Ensino e aprendizagem de PLE, inclusão de imigrantes bolivianos em São Paulo

ABSTRACT

Insertedin a broader context of social, economic, political, labor and culture relations, teaching and learning of Portuguese Language (hereafter PLE) to immigrants in São Paulo is, in some cases, coupled up on inclusion issues, through initiatives of public institutions, religious organizations, or non-governmental organizations. In recent years, we have followed some of the initiatives of institutions that seek attending the socially vulnerable people, which is part of the community of Bolivian immigrants, a group that was followed more closely. The intent of this text contribute to expansion of discussions that bring together these initiatives from a perspective that takes into account not only the documents and official inclusive proposals, but also the characteristics of immigrants and their capacities for choice and reorganization of their existence into the new environment.

Key Words: teaching and learning of PLE, inclusion of Bolivian immigrants in São Paulo

 

Introdução

O trabalho com imigrantes tem demandado a busca de novos caminhos metodológicos e reflexões sobre ensino e aprendizado de português, uma vez que apresenta situações também inusitadas de negociação de informações, conhecimentos e experiências que extrapolam o exclusivamente linguístico. Para entender a complexidade da questão da imigração e do ensino e aprendizado de PLE para a comunidade boliviana em São Paulo é necessário um olhar que esteja atento às especificidades do lugar social que ocupam no momento atual, mas que também leve em conta suas trajetórias e perspectivas, permeadas pelas relações socioculturais que se estabelecem, ou não, com a comunidade local. Para tanto, faz-se necessário que, entre outras medidas, os cursos de formação de professores enfatizem em seus currículos as especificidades do encontro entre culturas.

1. Migrações, trabalho e convivência

Pode-se observar que nos últimos anos a questão cultural e ashabilidades de um indivíduo interculturalmente competente têm feito parte das preocupações de formação de profissionais de diferentes setores. Isso tem ocorrido, por exemplo, em áreas ligadas às Ciências Econômicas, à Administração e às Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação. A formação e/ou seleção de profissionais interculturalmente competentes tem sido um desafio para as grandes empresas, como podemos verificar pelas afirmações constantesna pesquisa realizada na Fundação Getúlio Vargas por Freitas (2000, p. 12):

[...] administrar o intercultural envolve lidar com a alteridade, a familiaridade e a estranheza; é sair do etnocentrismo e buscar desenvolver uma sensibilidade que contemple o outro. Entretanto, não basta entender o indivíduo como um ser isolado, é preciso compreender outros aspectos como cultura, representações sociais e nacionais que formam o contexto em que ele está inserido na sociedade. Estes aspectos vêm recebendo grande atenção nos estudos sobre interculturalidade. Não apenas para a investigação e o entendimento de determinados povos, raças, etnias ou tribos, mas para a aplicação prática em negócios. Já que a ampliação das práticas de gestão globais tem convivido com ambientes de trabalho culturalmente diversificados.

No momento de selecionar os profissionais mais adequados para serem enviados a outros países ou a outras comunidades com modelos culturais e comportamentais diferentes, os gestores empresariais não centram suas preocupações e atenções apenas na competência na área específica de atuação, mas também buscam a competência nas áreas relacionadas ao convívio e à capacidade de adaptação ao novo, ao desconhecido, ao outro. Isso se deve, como tem sido comprovado na prática, ao fato de que muitos projetos fracassam e acarretamgrandes danos tanto econômicos como à imagem da empresa pela incapacidade ou inabilidade do profissional indicado para “desenraizar-se de sua cultura e adaptar-se, rapidamente, a um novo contexto.” (HOMEM, 2005, p. 22).

Segundo Pereira, Pimentel e Kato (2004), essa falta de habilidade ou incapacidade dos profissionais para se ajustarem às novas condutas culturais e sociais e ao novo ambiente nos países para os quais são enviados ocasiona altos custos e pode ter considerável relevância, uma vez que, além de prejudicar a produtividade das operações e as relações com os clientes, pode causar prejuízos econômicos e até mesmo perda de prestígio para o grupo empresarial. Consequentemente, em muitos casos, também resulta em perdas para o profissional que, ao não realizar a contento suas funções, pode sentir-se frustrado e ter sua autoestima diminuída. Além disso, as repercussões emocionais podem afetar os relacionamentos pessoais e familiares e levar até mesmo à interrupção de carreira:

Um expatriado que fica na posição, mas com problemas de adaptação, pode incorrer em custos diretos e indiretos para as companhias, e para o próprio indivíduo e seus familiares. Os custos diretos anuais, decorrentes do processo de repatriação por conta de retorno prematuro de profissionais é de aproximadamente US$ 2 bilhões (BLACK; GREGERSEN, 1999). Os custos indiretos incluem a redução de produtividade, perda de market share e posição competitiva, destruição da equipe de trabalho da empresa, prejuízos nas relações com clientes e fornecedores, e perda de imagem e reputação da empresa no mercado (BLACK; GREGERSEN; MENDENHALL, 1992; NAUMANN, 1992). (PEREIRA; PIMENTEL; KATO, 2004, p. 5-6).

Pereira, Pimentel e Kato (2004, p. 6) comentam ainda os dados de uma pesquisa realizada com gestores de recursos humanos responsáveis pela seleção de candidatos para trabalhar como representantes em negócios internacionais. Nesse estudo constata-se que a adaptabilidade intercultural aparece em primeiro lugar como um dos fatores fundamentais para o êxito profissional; em seguida estão as habilidades técnicas para a tarefa e para gestão e, em terceiro, a estabilidade e adaptabilidade da família.

Esses estudos reforçam a importância do aprendizado de língua enquanto principal veículo de aprendizado cultural e que, além de revelar um desejo de integração, como afirma García (1999), é instrumento de uso e principalmente um direito.

Se esse aprendizado é fundamental e objeto de preocupação para empresários e gestores de grandes empresas, também deve fazer parte da formação de pequenos empresários e de imigrantes com ou sem preparo profissional e formação acadêmica. De acordo com García (1999, p. 116):

Conocer la lengua del país de acogida es un indicador del deseo de integración, un instrumento de uso y un derecho. Para los que se encuentran en una situación de inferioridad es mucho más indispensable que para el que se encuentra en una situación más acomodada. Por ello es importante potenciar el componente cultural y captar la dimensión de los aspectos etnolingüísticos de los mundos cognoscitivos diversos[1].

Esses pressupostos aparecem já em 1996, na Declaração Universal dos Direitos Linguísticos que considera:

[…] que las personas que se trasladan y se establecen en el territorio de una comunidad linguística diferente de la propia tienen el derecho y el deber de mantener con ella una relación de integración. La integración se entiende como una socialización adicional de estas personas de manera que puedan conservar sus características culturales de origen, pero compartan con la sociedad que las acoge las referencias, los valores y los comportamientos suficientes para permitir un funcionamiento social global sin más dificultades que las de los miembros de la comunidad receptora[2].

2. Processos migratórios, ensino e aprendizado de línguas

A não adaptação a ambientes e culturas diferentes pode causar, como vimos, transtornos e frustrações no âmbito emocional e até mesmo prejuízos financeiros e sociais, com consequências que afetam a esfera empresarial. Mesmo que os deslocamentos sejam provocados ou motivados por fatos ou razões aceitáveis tanto na comunidade de partida quanto na que recebe o estrangeiro, como é o caso de uma transferência por motivo de trabalho, estudo ou turismo, o estranhamento é inevitável e, muitas vezes, requer de ambas as partes uma adequação a novos hábitos e comportamentos.

Pode-se supor que, além do apoio por parte da família e das comunidades envolvidas, os indivíduos que saem de seus países por motivos profissionais ou acadêmicos normalmente contam também com a proteção e/ou auxílio do Estado ou da instituição à qual se vinculam. Esse amparo pode ocorrer, por exemplo, sob a forma de seguro de vida, incentivos financeiros, bolsas de estudo, facilidades e subsídios oriundos de compromissos e acordos diplomáticos entre os países de origem e de destino. Além disso, o fato de esses imigrantes portarem documentos que comprovem a permissão de entrada, de permanência e que os autorizem a exercer uma atividade produtiva no país acolhedor converte-se em grande vantagem e contribui para uma melhor adaptação e integração na comunidade receptora.

Essas modalidades (profissional, estudos, turismo) são, entretanto, apenas três das possíveis causas que levam indivíduos a transferir-se de um lugar a outro. Contudo, nem sempre as migrações são voluntárias, nem sempre há a possibilidade de escolher o local para onde se deseja ir, o tipo de atividade a ser desenvolvida nesse lugar ou, ainda, a relação que se estabelecerá com os habitantes desse novo destino.  Existem também as migrações forçadas pelas guerras, por questões políticas, por fatores climáticos, assim como as provocadas pela busca de melhores condições de vida ou, em alguns casos, para garantir a própria sobrevivência.  

A migração voluntária é sempre menos complicada que uma saída forçada. As condições e adversidades pelas quais passa um diplomata, um professor convidado ou um estudante em um país estrangeiro são muito diferentes das geralmente encontradas por um refugiado político ou um indocumentado[3]. Ainda assim, como afirmam Grinberg e Grinberg (1984, p. 28), podem ser identificados traços comportamentais e elementos comuns em algumas das reações emocionais dos sujeitos implicados nessas migrações. A maneira como algumas pessoas lidam com sentimentos de perda e desapego ou com sensações de saudade, tristeza e desamparo pode estar, muitas vezes, vinculada mais diretamente à formação de caráter do que aos próprios motivos pelos quais estão sendo privadas da presença dos entes queridos ou da terra natal.

Movimentos migratórios foram e continuam sendo responsáveis por profundas transformações e reconfiguração de cenários e culturas, uma vez que promovem a recriação e inovação de crenças, estilos de vida e modos de pensar. Há ondas migratórias de diferentes países em determinadas épocas e o Brasil tem sido destino de muitos imigrantes.

Uma das características mais destacadas do povo brasileiro deve-se exatamente a essa diversidade de estilos de vida e formas de conceber o mundo que marca a variedade de imigrantes presentes no Brasil. Tradicionalmente tido como um país hospitaleiro, receptivo ao extremo e que valoriza - às vezes até de forma exagerada - o que é estrangeiro, algumas atitudes observadas com relação a imigrantes de determinados países causam estranheza. Como exemplo, poderíamos apontar relatórios de instituições internacionais, como o referente à pesquisa realizada, em 2008, pela GMAC Global Relocation Services[4] com executivos expatriados em 110 países. Esse informe indica o Brasil como um dos países mais difíceis para adaptação, atrás apenas da China, Índia e Rússia[5].

Se para executivos a situação não é das mais fáceis, podemos inferir que para imigrantes com baixo poder aquisitivo e menor conhecimento, formação e/ou estratégias de interação, o estranhamento e o comportamento pouco amigável por parte do brasileiro sejam ainda piores. Isso pode ser percebido até mesmo nas ruas e em transportes públicos. A reação de alguns desses brasileirosao perceberem a presença de um estrangeiro, falando outra língua e com traços físicos diferentes é, muitas vezes, de repulsa e de redobrar os cuidados com os pertences. Vemos hoje a mesma reação descrita por Ianni (1992) com relação à figura do estrangeiro:

O que se observa, em geral, é a transformação da diferença em estereótipos, estigmas, racismos, xenofobia e até mesmo em atitudes extremas como o etnocídio e o genocídio, em que o outro, geralmente o (i)migrante, é transformado em perigo, e muitas vezes é responsabilizado pelos problemas existentes na sociedade que o recebe. (IANNI, 1992, apud SILVA, 2008, p. 79).

Infelizmente, para algumas pessoas, a condição de estrangeiro e pobre está diretamente ligada a crimes, a desordem, escassez de empregos e de moradias etc. São algumas ideias preconcebidas com relação aos estrangeiros que não têm sustentabilidade e podem ser desmentidas facilmente com dados estatísticos. Porém, nem sempre essas estatísticas ou estudos fazem parte do cotidiano das pessoas que convivem diretamente com esses imigrantes.

O indivíduo, ao deixar seu país, leva consigo uma história, uma cultura e, principalmente, muitos sonhos, expectativas e desejos e que, invariavelmente, ao entrar em contato com a realidade do país estrangeiro terá que adequá-los ao novo cenário. Esse encontro pode dar-se de diferentes maneiras, provocando desde uma coexistência e convivência pacíficas entre os valores e costumes das comunidades envolvidas, até repulsa e marginalização do estrangeiro. De qualquer forma, haverá sempre um rearranjo de valores e comportamentos, uma negociação de sentidos entre os indivíduos que participam da experiência.

Independentemente das causas que provocam as migrações (se essas são voluntárias ou forçadas), é de se esperar que se dê a interação dos indivíduos em todos os âmbitos: cultural, social, profissional, familiar. Essa interação, entretanto, nem sempre será sinônimo de integração.

Como afirmamos, muitas vezes, na tentativa de aproximar o aluno de nossa cultura e de nossas formas comportamentais, favorecemos o surgimento de equívocos e malentendidos ou, empenhados em fazê-lo conhecer nossa forma de ser, pensar e agir, damos informações nem sempre pertinentes para que o aluno tenha um desempenho adequado em determinadas situações em que de fato ele precisa usar o idioma nacional. Tal atitude pode, em vez de contribuir para um entendimento, reforçar uma imagem caricatural do estrangeiro,como alguém que desconhece nosso cotidiano ou ainda, incentivar preconceitos e aumentar a distância social e psicológica entre os estudantes e os brasileiros que vivem em São Paulo.

Na rede social constituída por esses laços criam-se as condições que vêm justificar formas próprias de entendimento do mundo, que são diferentes das nossas, e que incluem outras formas também de atribuir valor e significado ao trabalho. São essas diferentes formas de atribuir valor ao trabalho, engendradas nas suas relações familiares e comunitárias, que muitas vezes vão entrar em choque com o entendimento próprio do que significa um trabalho regulamentado nos parâmetros de uma sociedade democrática liberal, estabelecido em leis e convenções internacionais. (DORNELAS, 2010, s.n.p.)

3. Ensinar português a trabalhadores falantes de espanhol

O ensino de PLE para falantes de espanhol apresenta características e nuances muito específicas, tanto no que se refere a aspectos linguísticos quanto no tocante às expressões comportamentais desses falantes e, principalmente, como eles veem e atuam diante da possibilidade ou necessidade de ensinar e/ou aprender a língua do outro.

O fato de serem línguas muitopróximas[6], aliado ao contexto, à afinidade e ao grau de predisposição dos falantes para aproximar-se à língua e cultura do outro garante certo grau de compreensão mútua, ao menos nas relações mais imediatas e superficiais. Referimo-nos, por exemplo, às interações nas quais há uma elevada propensão à tolerância e ao entendimento, como em situações em que o conteúdo das informações é previsível e uma compreensão global é suficiente. Essas situações variam desde a compra de objetos ou produtos em lojas e supermercados, até indicações ou instruções pontuais sobre como desempenhar um trabalho ou uma tarefa específica, sendo possível, inclusive, valer-se de gestos e demonstrações de como se devem realizar determinadas atividades e que funcionariam como recursos facilitadores da compreensão.

Na verdade, a comunicação nem sempre é tão efetiva quanto se supõe; contudo, ela se estabelece e pode gerar, por sua vez, uma excessiva confiança por parte dos envolvidos a ponto de encobrir desentendimentos que, por serem considerados insignificantes naquele momento, não são explicitados.

Provavelmente, alguns esclarecimentos e possíveis soluções para problemas de ensino e aprendizado de PLE por falantes de espanhol situem-se na fronteira, às vezes, bastante tênue, que separa e/ou aproxima tais idiomas, como os decorrentes da ausência total ou parcial de clareza, por parte de um falante, daquilo que é específico da língua portuguesa ou da espanhola, ou ainda, do que é compartilhado pelas duas. Essas diferenças, semelhanças e/ou oposições podem dar-se tanto em relação a fatores estritamente linguísticos (português - espanhol) quanto em relação às características culturais (brasileiros - bolivianos). A falta de consciência sobre elas pode gerar, por sua vez, um uso indiscriminado, excessivo ou inadequado de termos da língua materna nas produções em língua estrangeira por parte dos alunos.

O contato com esses imigrantes à época da realização de nossa pesquisa revelou que nas relações formais[7]a predisposição ao entendimento é menor e evidenciam-se mais efetivamente as dificuldades enfrentadas pelo estrangeiro, o que gera, por sua vez, frustração ao tentarem estabelecer uma conversa mais formal ou prolongada (LLOBERA, 1995, p. 7). Existem fatores como os códigos de comportamento e as formas de atuação intrínsecas a cada instituição e contexto em que erros, dúvidas e falta de habilidade do estrangeiro com a nova língua e cultura têm consequências sociais negativas. Em muitos casos, essas dificuldades de comunicação podem provocar um comportamento de intolerância e de conflito, gerando preconceitos e submissão de um indivíduo ao outro. Os problemas de entendimento da língua se confundem, em ocasiões, com os problemas acerca do entendimento do entorno de comportamento e do ambiente formal das instituições brasileiras.

Torna-se necessário, portanto, refletir profundamente sobre a importância de um ensino e de um aprendizado mais comprometidos com a inserção desse grupo – e de outros grupos, evidentemente – na sociedade, que centre forças na superação das dificuldades e proporcione um tratamento mais eficaz com relação a possíveis interferências, erros e desentendimentos interculturais para a sua superação e eliminação gradativas. No caso específico do trabalho gerador de nossa pesquisa, espera-se que o aprendizado de PLE funcione como facilitador do acesso a setores pelos quais os imigrantes bolivianos precisam transitar, entendendo e se fazendo entender, e que também contribua para uma melhor percepção de modos comportamentais característicos de nossa sociedade, em especial a paulistana – foco de nosso estudo – que lhes permita uma maior interação com os brasileiros e, principalmente, uma integração social adequada, o que nem sempre tem ocorrido de forma espontânea e natural, como veremos a seguir.

4.Aimigração boliviana para o Brasil

A imigração boliviana para o Brasil teve início em meados do século XX, especialmente nos anos 40, quando se deu a vinda do primeiro contingente de estudantes bolivianos devido à intensificação das relações culturais entre os dois países. Passados cerca de 60 anos as condições dessa imigração mudaram consideravelmente. Se aquele primeiro grupo veio por motivos acadêmicos, na condição de convidados, com bolsa de estudos do governo brasileiro e em número bastante reduzido, hoje os imigrantes são trazidos por “coiotes”[8]ou por “parentes”[9]e amigos que lhes prometem trabalho, alimentação, moradia e melhores condições de vida. Um dos aspectos que expressa mais enfaticamente as diferenças entre as duas épocas, além da formação acadêmico-profissional, é o que se refere à quantidade de imigrantes vindos naquele momento e os que vêm agora. Estima-se que o número de bolivianos que entram mensalmente no Brasil em busca de trabalho oscile entre 1.200 e 1.500, a maioria sem documentação e/ou em situação irregular, segundo dados divulgados em registros do Memorial do Imigrante[10], também apresentados pela Rede Social de Justiça e Direitos Humanos no Relatório 2008 - Direitos Humanos no Brasil[11].

Os imigrantes bolivianos buscam em outros países como Brasil e Argentina, por exemplo, melhores condições de vida, mas na verdade, muitas vezes se deparam com problemas como preconceitos, regime de trabalho quase escravo e dificuldades de sair da ilegalidade. No caso específico dos que estão em nosso país, o que se pode observar é que mesmo com o Acordo firmado entre Brasil e Bolívia em 2005 para a legalização da situação dos imigrantes irregulares, poucos se beneficiaram dele, seja por falta de conhecimento, de interesse ou, ainda, por dificuldades econômicas (os custos para a regularização não estavam ao alcance da maioria dos bolivianos - multa de R$ 848,00 e despesas com os trâmites legais em 2006). Vale lembrar que com a redução desses custos a pouco menos de R$ 100,00 como ocorreu em 2009 com a Anistia Internacional, o número de imigrantes que solicitou regularização no país superou os 40 mil. Dos inscritos no período de vigência do acordo, 02 de julho a 30 de dezembro de 2009, a maioria foi de imigrantes bolivianos - cerca de 17 mil -, sendo que 16,3 mil no estado de São Paulo. Segundo informações publicadas no site do Ministério da Justiça, em 07 de janeiro de 2010, houve ainda solicitações por parte de imigrantes chineses (5,5 mil), peruanos (4,6 mil), paraguaios (4,1 mil), coreanos (1,1 mil) e europeus (2,4 mil)[12].

Muitos dos bolivianos em situação ilegal chegam e/ou permanecem aqui por meio de uma espécie de rede de contatos formada por familiares, amigos e empregadores, e não veem necessidade de regularizar sua documentação, pois para atingirem seus objetivos é o bastante estar no Brasil, independentemente da situação de ilegalidade. Para muitos, o objetivo principal é trabalhar e ganhar dinheiro, mesmo que esse trabalho se configure como uma forma de exploração e o dinheiro que ganhem não seja o suficiente para que se mantenham ou sequer para custear os gastos da viagem ao Brasil. Mesmo com muitas privações, aqui eles têm confiança em seu trabalho, esperança de prosperar e acreditam em dias melhores. Trabalham o máximo de horas possível nas oficinas de costura, não apenas para produzir e ganhar mais, mas também para manter o status de trabalhador, de empregado que, de certa forma, mantém viva a dignidade e dá sentido à vida do imigrante, como aponta Sayad (1998, p. 55):

Afinal, um imigrante só tem razão de ser no modo do provisório e com a condição de que se conforme ao que se espera dele; ele só está aqui e só tem sua razão de ser pelo trabalho e no trabalho; porque se precisa dele, enquanto se precisa dele, para aquilo que se precisa dele e lá onde se precisa dele.

Se, por um lado, a situação de ilegalidade pode parecer cômoda ou não se apresentar como problema para alguns bolivianos em São Paulo, por outro será adequada e muito favorável para os empregadores desses imigrantes, uma vez que inibe qualquer reclamação ou reivindicação trabalhista legal. Esse tipo de comportamento e de atitude tem gerado abusos e desrespeito aos direitos desses imigrantes, não apenas por parte de seus empregadores, mas também de outros setores da sociedade paulistana: “Todos nos olham do pé pra cima, do pé pra baixo”[13]. Depoimentos de imigrantes relatam esse tipo de prática e de preconceitos por parte de funcionários de algumas empresas e instituições públicas ou privadas, como postos de saúde e transportes públicos.

Por se encontrarem em situação irregular, com visto inadequado (de turismo), vencido ou sem visto algum, os bolivianos temem sair à rua e serem detidos – um risco que é ressaltado e exagerado pelos patrões, que chegam a ameaçar entregá-los à polícia caso decidam deixar o trabalho. (CÂMARA MUNICIPAL, 2006, p. 25)

A modo de conclusão - o (não) espaço do imigrante boliviano em São Paulo

Em uma pesquisa publicada em artigo de 2007, (p. 1) Cymbalista e Xavier afirmam haver certa invisibilidade dos imigrantes bolivianos em ambientes públicos paulistanos devido a uma “[...] hipertrofia do espaço de trabalho de grande parte da comunidade, a oficina de costura, que é também espaço de moradia [...]”. Mesmo sem havermos realizado uma pesquisa exaustiva sobre esse aspecto e sem a comprovação por meio de estatísticas oficiais, pode-se observar informalmente que esse fato tem sofrido alterações nos últimos tempos, pois a presença de bolivianos nos espaços públicos tem aumentado consideravelmente. E, infelizmente, talvez na mesma proporção, também estão crescendo os níveis de intolerância e os atritos entre a comunidade local e a de imigrantes, confirmando o que parecia improvável, mas que já pontuávamos em 2006:

Esa idea de que la aceptación (o tolerancia) a lo indio está fortaleciéndose a partir de la presencia de Evo Morales en el escenario político mundial está bien para el discurso políticamente correcto y las fotografías de la prensa internacional, []en la vida cotidiana la discriminación hacia los bolivianos pobres que migran al Brasil no sólo se mantiene sino que va en aumento[14].

Fazia-se necessário, portanto, buscar o que Cymbalista e Xavier (2007, p. 122) chamaram de “primeiro passo para a construção de uma interface adequada entre São Paulo e os bolivianos”. Esse “primeiro passo” consiste em conhecer os padrões de inserção da comunidade em seu próprio contexto e realidade, uma vez que possuem características muito especiais e únicas que não permitem enquadrá-los em outros modelos de imigração já ocorridos em São Paulo. Transposto ao âmbito do ensino e aprendizagem de PLE, tal caminho ou estratégia de aproximação permitiu-nos constatar a interferência que alguns fatores exercem sobre esse ensino e aprendizado, já que incidem sobre a forma de aceitar, apreender ou rechaçar a cultura e a língua do outro.

Em termos de prática em sala de aula, uma das primeiras grandes mudanças que foram necessárias deveu-se ao fato de que ao contrário do que pensávamos inicialmente, os imigrantes bolivianos com os quais realizamos nossa pesquisa não estavam em contato direto com os brasileiros, ou seja, o contexto de imersão não era nem tão frequente como supúnhamos, nem possuía a qualidade necessária para que houvesse um progresso efetivo no domínio da nova língua. Ao iniciarmos o curso em 2005, por acreditarmos que eles estivessem muito inseridos na sociedade paulistana, os conteúdos programados, os materiais, a metodologia e as estratégias de ensino que utilizávamos exigiam deles um conhecimento da realidade brasileira que eles não compartilhavam o que, por sua vez, dificultava o entendimento e os desmotivava a seguir o curso. Ao mesmo tempo, sentiam uma urgência em ver resultados aplicáveis à sua vida cotidiana e às suas necessidades mais imediatas. Dessa forma, vimo-nos impelidos a repensar objetivos e estratégias para conseguir aproximar-nos e apresentar conteúdos mais significativos aos alunos que os motivassem a aprender o português.

O (novo) caminho nos foi proporcionado pelo Acordo Bilateral Brasil–Bolívia para regularização da situação de ilegalidade na qual vivem muitos desses bolivianos. Uma vez que eles tinham a necessidade de entender as normas do Acordo, providenciar e preencher documentos e formulários além de cumprir determinações burocráticas, decidimos fazer um acompanhamento mais direto dos caminhos a serem trilhados para a obtenção do visto de residência permanente no Brasil. Para isso, buscamos auxílio em órgãos oficiais como Polícia Federal e Promotoria da Justiça, com o intuito de conseguirmos o máximo de informações possível sobre os procedimentos a serem seguidos por aqueles estrangeiros que desejavam regularizar sua situação no Brasil.

De posse desses dados, pudemos reformular com mais precisão os objetivos das aulas para o primeiro semestre de 2006. Dessa forma, estabelecemos como prioridade esclarecer os principais pontos do Acordo e capacitá-los para providenciar e realizar a entrega da documentação necessária. A partir de então, os conteúdos abordados nas aulas vincularam-se diretamente a esses objetivos. Assim, foram enfocados o texto da lei, o preenchimento dos formulários necessários a serem entregues à Polícia Federal, os comprovantes de endereço e de chegada ao Brasil, as declarações solicitadas pelos órgãos oficiais e o mapa da cidade de São Paulo com a localização das principais instituições às quais teriam necessidade de ir: o Consulado da Bolívia, que naquele momento foi transferido do bairro de Pinheiros para a Avenida Paulista, e a sede da Polícia Federal, situada no bairro da Lapa (zona oeste). Além disso, dedicamos atenção especial às normas interpessoais no trato com os funcionários dessas instituições.

Foram necessárias mudanças em nossos procedimentos e também na busca por adequar as atitudes dos alunos às regras em sala de aula. Outra mudançafundamental foi ver o aluno não apenas como alguém que não sabe falar português e sim como um cidadão com um potencial de aprendizagem, com atitudes, afinidades e aversões com o lugar e as pessoas que os rodeiam. O que significa, no final das contas:

[...] “ver o trabalhador não só como “força de trabalho”, nem só como “vítima” de processos coercitivos, nem apenas como um “fator de produção”, “capital humano”, ou como “indivíduo”, unidade que se poderia isolar, passiva, a que se aplicaria o Direito. Significa respeitar o trabalhador na inteireza de sua pessoa, na ampla gama de suas relações sociais. (...) estar atento ao seu modo de entendimento do mundo que o cerca, às formas como se organiza como família e comunidade, como organiza o seu cotidiano, e sobretudo não menosprezar sua capacidade de optar e reorganizar sua existência, mesmo que isso não corresponda exatamente com as nossas expectativas. (DORNELAS, 2010, s.n.p.)

 

Referências bibliográficas

ALMEIDA FILHO, J. C. P. de. Linguística Aplicada - ensino de línguas e comunicação. Campinas: Pontes/Arte línguas, 2005. 112p.

CÂMARA MUNICIPAL de São Paulo. Relatório Final da Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar a Exploração de Trabalho Análogo ao de Escravo nas Empresas, Regular ou Irregularmente Instaladas em São Paulo. Processo n° 0024/2005. São Paulo, 2006. 61p.

CYMBALISTA, R.; XAVIER, I. A comunidade boliviana em São Paulo: definindo padrões de territorialidade. Cadernos Metrópole, nº 17, 1ºsem. 2007, p. 119-133.

DECLARACIÓN Universal de los derechos lingüísticos. Comité de seguimiento. / Institut d´Edicions de la Diputació de Barcelona, Barcelona: Inresa, 1998. Disponível em: . Acesso em: 25 nov. 2010)

<

DORNELAS, Pe. Sidnei Marco. Como promover o trabalho decente face à diversidade cultural. Centro de Estudos Migratórios. I Fórum Estadual de Combate ao Trabalho Escravo. SRTE. São Paulo, 28 e 29 de jan. de 2010. Disponível em: . Acesso em: 22 set. 2010.

FREITAS, M. E. Como vivem os executivos expatriados e suas famílias? Relatório de Pesquisa nº 7, EAESP/FGV/NPP – Núcleo de Pesquisas e Publicações, 2000. Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2008.GRINBERG, L; GRINBERG, R. Psicoanálisis de la migración y del exilio. Madri: Alianza, 1984. 274p.

GARCÍA, P. El enfoque intercultural en la enseñanza de español a inmigrantes. In: Carabela, 45. Madrid. feb. 1999. p. 107-124.

HOMEM, I. D. O processo de expatriação em uma multinacional brasileira do Estado de Santa Catarina: um estudo de caso. Dissertação (Mestrado), Universidade Federal de Santa Catarina, Centro Sócio-Econômico. Programa de Pós-Graduação em Administração. Florianópolis, 2005. Disponível em: . Acesso em: 27 jan. 2008.

LLOBERA, M. et al. Competencia comunicativa. Documentos básicos en la enseñanza de lenguas extranjeras. Madri: Edelsa, 1995. 159p.

PAIVA, O. da C. Imigração de Latino-Americanos para São Paulo (Brasil): dois tempos de uma mesma história. Disponível em: . Acesso em: 15 set. 2009.

PEREIRA, N. A. F.; PIMENTEL, R.; KATO, H. T. Expatriação e Estratégia Internacional: o Papel da Família como Fator de Equilíbrio na Adaptação do Expatriado. Anais do XXVIII Encontro da ANPAD, 2004. Curitiba. CD-ROM. Disponível em: . Acesso em: 15 dez. 2008.

SAYAD, A. A imigração ou os paradoxos da alteridade. São Paulo: EDUSP, 1998. 299p.

SILVA, S. A. da. Costurando sonhos: trajetória de um grupo de imigrantes bolivianos em São Paulo. São Paulo: Paulinas, 1997. (Estudos e debates). 294p.

________. O Imigrante boliviano e o papel da cultura em suas trajetórias. In: Ciberteologia-Revista de Teologia & Cultura. Ano II, n. 16, mar/abr 2008, p. 79.

VIEIRA, M. E. Ensino e aprendizagem de português língua estrangeira: os imigrantes bolivianos em São Paulo. Uma aproximação sociocultural. (Tese Doutorado - Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo), São Paulo, 2010. 179p. Disponível em: Acesso em: 15 nov. 2010).

________. Entrevista para o jornal La Prensa - Editores Asociados. La Paz – Bolívia.Edición de enero, 2006. Disponível em: . Acesso em: 09 mar. 2009.

 



[1]
“Conhecer a língua do país de acolhida é um indicador do desejo de integração, um instrumento de uso e um direito. Para os que se encontram em situação de inferioridade é muito mais indispensável que para quem se encontra em uma situação mais confortável. Por isso, é importante potencializar o componente cultural e captar a dimensão dos aspectos etnolinguísticos dos mundos cognitivos diversos.” (Tradução livre nossa).

[2][...] que as pessoas que se deslocam e fixam residência no território de uma comunidade linguística diferente da sua,têm o direito e o dever de manter com ela uma relação de integração. Por integração entende-se uma socialização adicional destas pessoas de forma a poderem conservar as suas características culturais de origem, ao mesmo tempo em que compartilham com a sociedade que asacolhe as referências, os valores e os comportamentos que permitirão um funcionamento social global, sem maiores dificuldades que as experimentadas pelos membros da sociedade de acolhimento. (Declaración Universal de los derechos lingüísticos, p. 21. Disponível em: . Acesso em: 25 nov. 2010) (Tradução livre nossa).

[3]Termo usado, ultimamente, em substituição a “ilegal”, devido ao teor pejorativo e discriminatório deste vocábulo.

[4]Grupo empresarial pertencente à General Motors (GM), que atua em treinamento intercultural, incluindo gestão e execução de processos de expatriação.

[5]Disponível em: <www.gmacglobalrelocation.com/survey.html>. Acesso em: 25 jan. 2009.

Pesquisar