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1. O ABC do Português: Ensino do Português Como Língua de Herança nos Estados Unidos Imprimir E-mail
Escrito por Vivaldo Andrade dos Santos - ISSN 2316-6894   

Resumo
O artigo versa sobre novos contextos do Ensino do Português como Língua Estrangeira, primordialmente sobre o ensino de Português como Língua de Herança (PLH), focando no projeto “O ABC do Português: o ensino do Português como Língua de Herança”, desenvolvido na região de Washington DC (Estados Unidos) desde 2009. “O ABC do Português” é um projeto de extensão iniciado pela Universidade de Georgetown que busca pensar o ensino de PLE além do contexto universitário norte-americano, envolvendo a universidade, a comunidade brasileira (nesse caso, a Associação Brasileira de Cultura e Educação/ABRACE), e em parte, o governo brasileiro. No centro das discussões do projeto estão o treinamento e capacitação de professores de PLH, metodologia para o ensino de PLH, surgimento de um novo campo de saber linguístico para o PLE em contexto de Língua Inglesa, preparação de material didático de PLH, bem como a política linguística do governo brasileiro junto às comunidades brasileiras no exterior. São estas algumas das questões destacadas neste artigo.

Palavras-chave: Português como Língua de Herança (PLH), Português como segunda língua (PLE), comunidade brasileira no exterior, Ensino de Português Língua Segunda (PL2) em contextos norte-americano, bilinguismo, comunidade e língua.

ABSTRACT

This article examines the new contexts of the teaching of Portuguese as a Foreign Language, primarily the teaching of Portuguese as Heritage Language (PLH), focusing on the project "O ABC do Português: o ensino do Português como Língua de Herança”/The ABC of Portuguese: the teaching of Portuguese as a heritage language". The ABC is a project developed since 2009 in the Washington DC area of the United States. This project is part of an initiative by Georgetown University, the Brazilian community (more specifically, the Associação Brasileira de Cultura e Educação/ABRACE), and in part, the Brazilian government. The focus of the project's discussions are centered on: the training of teachers of PLH, teaching methodology for PLH, the new field of Portuguese linguistics for Portuguese as a foreign language in an English context, the preparation of pedagogical material for PLH, as well the role of the Brazilian government in establishing and leading a linguistic policy for the Brazilian communities living abroad.

Key-words:Portuguese as Heritage Language, Portuguese as second language, Brazilian communities abroad, Teaching of Portuguese as a second language in United States context, bilingualism, community and language.

 

A História do ensino de Português na Universidade de Georgetown em Washington, DC

A Universidade de Georgetown tem uma história de mais de 80 anos dedicados ao ensino da Língua Portuguesa e Cultura Luso-Brasileira[1].  Nos anos 1930, o Professor Joaquim da Siqueira Coutinho, na época Professor de Geopolítica na School of Foreign Services, começou a oferecer aulas particulares de Português, implementando, mais tarde, o ensino de Português no Institute of Languages and Linguistics (ILL). O ILL, eventualmente, tornar-se-ia independente dentro da universidade, com autonomia para formar especialistas nas áreas de ensino de língua. O primeiro decano do Instituto, o Dr. Robert Lado, assumiu a direção do ILL para expandir o campo do ensino de língua e linguística ao criar os departamentos individuais e, em 1961, nomeou a Professora Dra. Maria Isabel Abreu para criar o Programa de Português. Com o crescimento do programa e o crescimento da universidade, aquilo que se caracterizava pelo mero ensino de aulas particulares, tornou-se o Departamento de Português dirigido pela Professora Dra. Abreu até 1979, e finalmente, pela Professora Dra Cléa Rameh, por cerca de 30 anos. Com a reestruturação dos departamentos de língua em 1994, o departamento veio a unir-se, a partir de 1995, ao Departamento de Espanhol, formando agora o Departamento de Espanhol e Português dentro do Georgetown College (Faculdade de Humanidades), a maior faculdade do campus.[2]

Atualmente, o Programa de Português (PLE) da Universidade de Georgetown tem em torno de 250 alunos por ano, desde aulas de Português Básico até aulas em nível de pós-graduação. O programa caracteriza-se por estudar e valorizar a língua, a cultura e a política dos países do mundo lusófono. A área integra no seu quadro docente os professores Dr. Michael Ferreira (Filologia e Linguística),  Dra. Patrícia Vieira (Literatura Luso-Africana e Brasileira e Estudos Culturais), e o Dr. Vivaldo Andrade dos Santos (Literatura Brasileira e Estudos Culturais) oferecendo agora uma variedade de disciplinas na graduação para os alunos cuja especialização é Português (“major” e “minor”) ou apenas como disciplina eletiva, bem como disciplinas na pós-graduação para os alunos com interesse na Península Ibérica e/ou na América Latina.[3]Há dois anos, foi criado uma nova área de especialização em “Spanish and Portuguese Studies”, aproveitando a potencialidade da maioria dos alunos que normalmente se matricula nas aulas de português da Universidade de Georgetown, i.e., alunos com conhecimento de espanhol como segunda língua.

O programa de PLE na Universidade de Georgetown

O programa de PLE na graduação consiste de, em média, seis matérias: Português Básico (aula intensiva, 5 dias/60 minutos-aula, 1o semestre), Português Intermediário (aula intensiva, 5 dias/60 minutos-aula, 2o semestre), Português para Hispanofalantes (aula de conteúdo acelerado para alunos com, pelo menos três anos de espanhol, 3 dias/50 minutos-aula, 1o semestre, equivalente a Português Básico + Português Intermediário), Português Avançado I (3 dias/50 minutos-aula, 2o ou 3o semestre, dependendo da linha de formação (track) seguida pelo aluno, Português Avançado II (3 dias/50 minutos-aula), Escrita Acadêmica (3 dias/50 minutos-aula).

Tipicamente, a maioria dos alunos de PLE da Universidade de Georgetown é composta por estadunidenses, sul-americanos, hispano-americanos, europeus, luso-brasileiros ou brasileiro-americanos. Desse grupo, interessou-nos os alunos de descendência lusófona ou brasileira. Ao matricularem-se nas aulas de PLE esses alunos impuseram-nos um desafio até então não contemplado pela realidade da área: em que aula matricular esses alunos que chegavam com certa competência linguística oral e escrita, superior ao aluno que aprende PLE pela primeira vez?

Foi a partir desse desafio que ocorreu-nos a ideia de buscar compreender, não somente na sala de aula, espaço da prática e produção do PLE desses jovens mas, sim, na infância, onde se deu pela primeira vez o contato com a Língua Portuguesa, num espaço-outro, diferente da nação de origem deles, dos pais ou dos familiares. Nesse caso, nos Estados Unidos, especificamente na região de Washington D.C. Com o apoio do Centro de Estudos Latino-americanos, do Departamento de Espanhol e Português e do Programa de Estudos Brasileiros da Universidade de Georgetown (através de fundos do Title VI Grant  e The Reflective Engagement, iniciativas de apoio a projetos de extensão envolvendo a comunidade não-acadêmica), e da Embaixada do Brasil em Washington D.C., através do apoio financeiro para desenvolver o projeto, construiu-se uma parceria com o grupo de Mães Brasileiras de Virginia (MVB) e com a Associação Brasileira de Cultura e Educação (ABRACE), responsável maior pelo ensino de PLE na comunidade na região, especialmente para proporcionar uma capacitação em nível de extensão aos professores e pais dessas crianças que estavam tendo o primeiro contato com o ensino formal do português como PLE. Daí nasceu o projeto “O ABC do Português”, do qual fazem parte as oficinas de capacitação de professores. Para um histórico do Projeto ABRACE proveniente do MBV, vide artigo de Ana Lucia Lico neste mesmo volume.

Projeto “O ABC do Português”

A primeira oficina foi realizada em janeiro de 2009, a segunda em novembro de 2009 e a terceira em maio de 2010.[4]Há três princípios norteadores do projeto “ABC do Português”: primeiro, a carência de pesquisas sobre o ensino e aprendizagem de PLH; segundo, a limitada e rara oportunidade de treinamento dos professores que trabalham diretamente com PLH; e terceiro, a tentativa de estreitamento dos laços entre a universidade, a comunidade (sociedade civil) e o governo brasileiro, no que diz respeito à necessidade de se pensar uma política linguística séria e ativa, dado o lugar de importância política e econômica que o Brasil ocupa no plano mundial hoje.

Uma das maiores dificuldades tem sido encontrar especialistas para tratar dessa nova modalidade do ensino de PLE, o Português para Falantes de Língua de Herança (PLH). Esse fato nos fez pensar em especialistas com grande experiência com PLE, área mais próxima do PLH, e que de alguma forma poderiam dar um suporte teórico aos participantes. Entre os palestrantes, participaram os pesquisadores Professor Dr. José Carlos Paes de Almeida Filho (Universidade de Brasília/UnB), Professor Dr. Ataliba de Castilho (USP/ Unicamp), Professora Dra.Clémence Jouët-Pastré  (Universidade de Harvard), e a Professora Mestre Célia Bianconi (Universidade de Tufts).

As oficinas aconteceram aos sábados, dia favorável à participação dos professores que vieram de Washington DC, e dos estados de Maryland, Virginia, New Jersey, New York, Flórida, Califórnia, Indiana, e Oregon. O perfil desses participantes, caracterizou-se como o de profissionais de áreas variadas como Letras, Educação, Marketing, sociologia, pedagogia, psicologia, administração, odontologia, matemática, história, linguistica e jornalismo, com escolaridade ao nível da graduação, mestrado ou doutoramento

A escolha dos temas abordados nas oficinas foi diretamente decidido em consulta direta com as três partes envolvidas: a comunidade, a universidade e o professor palestrante. Vale salientar que esse aspecto na organização das oficinas tem sido de importância fundamental, pois a prática e os desafios reais de sala-de-aula se dão dentro da comunidade, no seu dia a-dia. Entre esses temas, destaca-se a definição de biliguismo, português como língua segunda, português como língua de herança, variantes linguísticas, língua e identidade, abordagens metodológicas, preparação e elaboração de materiais, planejamento de aula e curricular.

De um modo geral, as primeiras oficinas foram úteis para se conhecer o público participante e a sua realidade com PLH, fazer um levantamento dos problemas mais imediatos, bem como de criar uma rede de profissionais na área de educação que estejam trabalhando com o tema. A partir da terceira oficina, ficou claro para os participantes a necessidade de um projeto de longo prazo e contínuo de metodologia e prática. Dentre os temas mais específicos para as futuras oficinas, sugeriu-se oficinas específicas e voltadas para planejamento de plano de aula, elaboração de materiais didáticos (de conteúdo linguístico e cultural), manejo da aula e avaliação de rendimento dos aprendizes.

Concluindo

A importância do projeto “O ABC do Português” está, sobretudo, na sua condição de espaço de troca de saberes entre a Universidade e a comunidade. Por um lado, a universidade proporciona o saber teórico e a comunidade o saber prático, complementando-se ambos, de forma a implementar ou trazer para suas realidades próprias os resultados nascidos dessa interação. O impacto das ações do projeto é observado, primeiro, na implementação teórica nas salas de aulas, por parte dos professores e, segundo, no surgimento de uma nova especialidade do campo da Linguística Aplicada que trata da Aquisição e Ensino das Línguas, de investigação no campo de PLE.

No que diz respeito aos desafios futuros, o projeto “O ABC do Português”, primeiro, luta para conseguir apoio financeiro, visto que até o momento, a sua realização somente tem sido possível graças ao apoio de fundos limitados e da universidade e trabalho sem compensação monetária por parte dos organizadores. Segundo, com esforço para garantir a participação da comunidade, uma vez que a questão de ensino e manutenção da Língua Portuguesa é, apenas, uma batalha a mais para sobreviver num país estrangeiro e numa outra cultura.

Referências Bibliográficas Básicas Sobre Português como Língua de Herança

Ferreira, Fernanda. “That’s Not How My Grandmother Says It: Portuguese Heritage

Learners in Southeastern Massachusetts.” Hispania 88 (2005): 848-862.

Ferreira, Fernanda. “Portuguese Heritage Language Learners: Proficiency Levels and

Sociolinguistic Profiles.” Portuguese Language Journal 2 Fall 2007. 15 November 2007. http://www.latam.ufl.edu/portugueselanguagejournal/index.html.

Jouët-Pastré, Clémence. “Community-Based Learning: A Window into the Portuguese-

Speaking Communities of New England.” Hispania 88 (2005): 863-872. Lunn, Patricia. “Spanish Mood and the Prototype of Assertability.” Linguistics 27 (1989): 687-702.

Silva, Gláucia V. “Heritage Language Learning and the Portuguese Subjunctive”

http://www.latam.ufl.edu/portugueselanguagejournal/Content/2008/HLSubjunctivePLJSilva.pdf

Stephens, Thomas. “Language Maintenance and Ethnic Survival: The Portuguese in New

Jersey.” Hispania 72 (1989): 716-720.



[1]
 Agradecemos a Professora Dra. Cléa Rameh por esses valiosíssimos dados históricos.

[2]A Universidade de Georgetown é composta de três faculdades em nível de pós-graduação e profissionalizante (Direito, Medicina, e Escola de Pós-Graduação), e quatro faculdades de graduação (Faculdade de Humanidades/Georgetown College, Escola de Relações Internacionais, Escola de Negócios, e Escola de Enfermagem e Estudos da Saúde).

[3]O Programa de Português possui ainda um leitor enviado pelo Instituto Camões e três professores contratados por tempo parcial para o ensino de língua.

[4]Modelo de Convocatória: Vocêensina Portuguêspara seus filhos ou planeja fazê-lo?

Se a resposta éSIM, venha participar da “1aOficina de Capacitação de Professores de PortuguêsComo 2a Língua Para Filhos de Brasileiros. Vocêquer saber da importância do ensino do ensino do Portuguêscomo 2aLíngua? Como écrescer sendo bilíngue? Quer saber sobre a questão da identidade e a auto-estima na aprendizagem do Portuguêscomo 2alíngua? Como montar um curso de PortuguêsComo 2alíngua? A oficina abordaráestes temas e outros, e constaráde uma parte teórica e uma parte prática, com especialistas da área e pessoas da comunidade envolvidas com o projeto do ensino do Portuguêscomo 2alíngua para filhos de brasileiros.

 

Vivaldo Andrade dos Santos
Georgetown University, Washington DC

 

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