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3. O Português e as Línguas nas Fronteiras – Desafios para a Escola Imprimir E-mail
Escrito por Maria Ceres Pereira - ISSN 2316-6894   

Resumo
Este artigo foi inicialmente uma discussão apresentada na mesa de especialidades de PLE no Congresso da SIPLE/Brasília, 2010. Na ocasião, discutiu-se particularmente sobre a complexidade de ensinar português em cenários sociolinguisticamente complexos como é o caso das regiões de fronteiras (étnicas, no caso de populações indígenas e a proximidade com áreas urbanas) e geopolíticas – no caso das fronteiras com países hispano-falantes com as fronteiras brasileiras. O fio condutor se materializa nas perguntas – quais os desafios de ensinar português nestas situações? O português para estas populações é segunda língua? É língua estrangeira? Mato Grosso do Sul é o lócus destas discussões.

Palavras-chave: fronteiras, ensino de PLE, contextos complexos.

ABSTRACT

This article is a result of a debate which took place in a Congress of Portuguese as a Foreign Language in Brasilia 2010. In this Congress the subject was the complexity of Portuguese Teaching in Sociolinguistic Complex Scenario, as borderline regions such as ethnic borders, (the case of indigenous populations and the proximity of urban areas) and geopolitical borders such as  frontier with Hispanic speaking country, which is the case of Mato Grosso do Sul. The guideline of this article is to try to answer these following questions: 1)What is the challenge of teaching Portuguese in this scenario? The Portuguese Language is the mother tongue ou second language

Key words: Foreign Language, Brazilian indigenous, Complex Scenario

 

Para Situar a Discussão

Como dito no resumo, este artigo é resultante de participação em mesa de especialidade no Congresso da SIPLE/Brasília 2010. A debatedora foi a Profª Drª Jandira Cunha que gerou reflexões pertinentes no tocante as questões das fronteiras e seus respectivos conceitos. Todavia, as possibilidades destas reflexões tornaram-se plausíveis em decorrência da pesquisa em andamento Investigaçõesem Linguística Aplicada – Entre Política Linguística à Educação Bilingue (Grupo de pesquisa LIET/CNPq). O Caso dos Tekohá Kuera no MS, aprovada e financiada pela CAPES/MEC/INEP pelo edital do Observatório da Educação Escolar Indígena.

O projeto citado reúne estudos que focalizam impacto da escolarização de alunos em cenários que categorizamos como sociolinguisticamente complexos que são aqueles das regiões de fronteira, no caso, com países hispano-falantes, cenários bilíngües indígenas.

Estudar essas situações faz sentido quando levamos em consideração dados como os seguintes. O estado de Mato Grosso do Sul tem a segunda maior população indígena brasileira e somente no município de Dourados, segundo dados da FUNAI/FUNASA, há uma população entre 13.000 a 13.500 indígenas das etnias Guarani/Kaiowá e Terena, sendo estes em numero menor. Sete são as escolas dentro das aldeias Jaguapiru, Bororó e no distrito de Panambizinho. Destas, apenas uma escola oferece ensino médio. Os professores e gestores escolares são indígenas.   Os estudos vinculados ao projeto de pesquisa citado têm voltado preocupações em relação ao impacto na escolarização de alunos oriundos das especificidades lingüísticas referidas. Não há nos estudos a preocupação em fortalecer o monolinguismo, mas entender que as línguas envolvidas têm seu valor ou como língua de família, ou língua de herança. Esta é uma discussão nova para os estudiosos brasileiros, contudo, se reconhece a relevância visto que, em cenários como o deste artigo, muitos não falam a língua de seus antepassados. Apesar disto a língua pode, em princípio, ser vista como uma língua herdada. Assim, o trabalho exige a consciência de que vivemos em um país que se assume politicamente monolíngüe, todavia, em suas distintas regiões há “ilhas lingüísticas” como prefere chamar Damke, 2011. Nestas ilhas, línguas minoritárias coexistem com o português em maior ou menor intensidade, mas sempre desafiando a escola e os sujeitos que vivem, muitas vezes, identidades fragmentadas cf Moita Lopes, 2002.

A Propósito das Fronteiras

Conforme se vem argumentando, as fronteiras no caso das discussões do grupo, tanto podem ser entendidas como a divisa seca que permite, em tese, maior ir e vir dos moradores que, na maioria das vezes, se autodenominam fronteiriços como podem ser as fronteiras culturais e étnicas.

Em relação as fronteiras geopolíticas, de acordo com dados do IBGE (2000) há dez países, onze estados e cento e vinte municípios. Nas cinco mil e quinhentas escolas existentes no território fronteiriço, há quinhentos e oitenta e cinco mil alunos e vinte e oito mil professores. Estes números, certamente, justificam o olhar investigativo na relação língua/cultura e escola.

Fronteiras aqui são entendidas por aquelas áreas onde determinados grupos étnicos se reúnem/vivem, preservando suas culturas e, em muitos casos, suas línguas de “berço” para usar a categoria do RCNEI (Referencial Curricular Nacional para Escola Indígenas/MEC, 2005.

A capital de Mato Grosso do Sul tem uma comunidade indígena Terena, Marçal de Souza, que vive a questão da fronteira étnica. Por ser um bairro da cidade, é próxima do centro e o translado de seus moradores é feito, principalmente, pelos ônibus urbanos denominados de interbairros. Neste local não há as chamadas casas tradicionais, são, todavia, casas de certa forma padronizadas por se tratar de um conjunto habitacional subsidiado pelo Governo. Crianças e jovens estudam em escolas públicas. Contudo, no intuito de preservar de alguma forma a cultura e a língua de seus antepassados, fazem um artesanato tradicional e alguns mantêm a língua oral.Ao centro da aldeia há uma construção em alvenaria cuja arquitetura lembra uma ave típica do pantanal – o tuiuiú. Em seu interior os artesãos expõem seus produtos enriquecidos com produções de outras etnias, como do povo Kadiwel que trabalha com jarros em cerâmica com pinturas típicas.  Tudo é comercializado juntamente com camisetas com frases e ou pinturas dos povos indígenas das etnias: Terena, Kadiwel e Guarani.

Trata-se de um ponto explorado pelo turismo local e quando chegam os turistas, são encaminhados a esta exposição permanente. Antes de apreciarem a exposição, os visitantes recebem uma breve palestra versando sobre o artesanato e da história de estarem em área urbana. Isto é feito em terena e depois em português.         Em Dourados, cerca de 230 km da capital, há duas aldeias consideradas rurais, todavia, com o crescimento da cidade a distancia se reduziu para 5 km somente. Não há um marco físico que estabeleça a separação entre cidade e as aldeias. O mudus vivendi dos moradores não se difere dos moradores urbanos. Poucas são as casas tradicionais, há seis escolas indígenas mantidas pelo poder público municipal, as casas têm o conforto da cidade: geladeira, televisão e celulares. Apesar disto, a tradição da cozinha de fogo de chão é mantida. O que lembra a área rural são as ruas sem nenhum tipo de pavimentação e sem iluminação externa, não há placas de ruas, não há número nas casas.

A proximidade com a área urbana gera problemas de toda ordem. Em conversa informal com um professor indígena, morador na aldeia, disse que percebe um conflito entre seu povo. Isto porque, não é mais possível viver como viviam os antepassados. Não há mais rios para a pesca, não há mata para a caça, para a retirada de matéria prima para a produção do artesanato, para retirada de medicamentos naturais. Assim, não é mais possível viver do modo tradicional. O emprego passa a ser na cidade, aos homens, prioritariamente o trabalho nas usinas de cana de açúcar e, às mulheres o trabalho do plantio de mandioca, milho e a criação de galinha. Os produtos são vendidos na cidade para onde se deslocam em carroças juntamente com seus filhos. Com este quadro criado, diz o professor que o conflito é tamanho que a maioria muda do guarani para o português quando chega ao limite da cidade. Quando retorna, muda do português para o guarani novamente. Sentem-se pressionados a agir como não índios para serem aceitos, pois experimentam forte preconceito na cidade. Sua língua não é aceita. Seu modo de viver, igualmente não. Em relação ao preconceito sofrido, o texto escolar de um aluno indígena revela com exatidão esse sentimento quando diz:

(...) quando queremos enchergar o preconceito e faciomente Reconhecerlo. Quando se diz “Preconceito” as pessoas não vão diretamente ao que quer dizer e vez de chingar com palavras simplesmente impedem o acesso em certos lugos na maioria das vezes é isso que acontece na sociedade não indígena(...). (Autor desconhecido – dissertação de mestrado de Viana, 2011)

O conflito se instala e muitos se entregam a bebida alcoólica, jovens se entregam as drogas. O suicído passa a ser uma prática desde a pré-adolescência aos mais velhos. A FUNASA (Fundação Nacional da Saúde) tem registros e esta prática tem sido tão freqüente que passou a ser tema de filme gravado parcialmente nas aldeias de Dourados. Este drama é apontado com excelência no filme Terra Vermelha produzido pela Paris Filmes cujo lançamento nacional foi em 2008.

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Capa do Filme Terra Vermelha 2008

Estudar estas questões relacionadas à língua, identidade e ensino regular é sempre extremamente desafiador, pois, para os sujeitos envolvidos isto representa reviver pertencimentos, conflitos de identidades fragmentadas, o não lugar. Mas, é na escola que estes conflitos se estabelecem nas relações professor/aluno, aluno/aluno, pois, ensinar e aprender em um cenário complexo desta natureza traz o sentimento crucial em relação às línguas envolvidas. Preconceitos lingüísticos de certa forma se revelam e a aprendizagem gera situações de dificuldade não somente para as crianças como para os docentes. A seguir passarei a abordar algumas das dificuldades levantadas em cenário escolar.

2. Desafios da Escola em Cenário Complexo 

Nos cenários em questão há tanto situações de bilingüismo como de bidialetalismo. Para contextos indígenas na maior parte dos casos, bilíngües, o RCNEI busca orientar docentes no sentido da manutenção das línguas de berço. E quanto aos cenários bidialetais de acordo com Bortoni-Ricardo é possível desenvolver uma proposta de ensino do português também contemplando as variedades lingüísticas locais. Tanto as situações de bilingüismo como de bidialetalismo são presentes nas fronteiras étnicas referidas como nas fronteiras físicas. Nesta direção, Dalinghaus, 2008 pesquisou a realidade de uma escola brasileira localizada a uma quadra e meia do Paraguai. Em relação às fronteiras étnicas, pesquisas de Pereira e grupo, 2009/2010 refletem os desafios lingüísticos vivenciados pelos sujeitos – professores, gestores e alunos.

Pelo fato de a escola ter clareza da realidade lingüística ali presente, faz ajustes para melhor atender sua demanda. Desta forma, a coordenação distribui as turmas com alunos bilíngües e monolíngües. Para aquelas onde estão a maioria bilíngüe, professores bilíngües são alocados. Esta é a forma encontrada para melhorar o desempenho escolar dos alunos.

Dalinghaus dedicou-se a estudar situações de escrita em momentos de avaliação escolar e, seu estudo detectou que há alunos cuja escrita é adequada para aluno da série em que se encontra. Mas, há casos de alunos que sentem maior dificuldade.  No caso apresentado a seguir como representativo o aluno traz palavras do espanhol e emprega em seu texto escrito em português como – bén – demonstrando que o aluno, neste excerto, não atinge nem a escrita do espanhol e nem do português. Ele teria que escrever bien ou bem; nosa – não escreve em espanhol em que deveria ser nostra e nem em português que seria nossa.

Encontrou também aspectos referentes ao verbo em texto do aluno:

Melhorarón – por melhoraram;

Mudarón – por mudaram

Em texto de alunos indígenas encontramos casos como se seguem:

Pra mim. É difícil a violência dos Indígenas, mas aqui na minha aldeia não. Mas as vezes acontece, quando bebe alcoolismo fica cabeça variável (...)

(...) As vezes jovens de hoje não se preocupava esse doenças de AIDS e HIV mesma doenças que contaminar ao nosso corpo e jovens de hoje acham que isso acontecer ao Brasil.

Parece não haver noção de oração e de período, pois o aluno inicia a argumentação com um tópico introdutório e a encerra sem que tenha sentido. As demais orações não têm elementos de ligação, são orações justapostas somente. Finalmente, há inadequação vocabular: “bebe alcoolismo” e cabeça variável.

No segundo texto há problemas de construção semântica, pois no mesmo período em que usa o advérbio hoje e, na mesma oração o verbo no pretérito perfeito imperfeito preocupava.

É comum encontrarmos o marcador de plural somente no primeiro elemento de um sintagma oracional – as casa de minha rua é branca. Pessoas de baixa escolarização ou mesmo de áreas rurais podem fazer este tipo de construção sintática. Contudo, nenhum desses grupos - rurais ou de pouca escolaridade - marcam segundo segmento. Em textos escritos por indígenas encontramos com certa freqüência construções desta natureza. Neste fragmento isto acontece, exemplo: esse doenças. Neste trecho, o problema não está somente em o aluno ter marcado o plural no segundo elemento do sintagma, está também em não estabelecer adequadamente também a concordância de gênero. Vários são os registros em nosso acervo de textos, focalizando estas inadequações ou erros gramaticais.

Os fragmentos apresentados até então são de alunos do ensino fundamental. Todavia, levantamos textos produzidos por indígenas em seleção para ingresso à Licenciatura Indígena Intercultural Teko Arandu da Universidade Federal – UFGD, 2010. Alguns dos textos produzidos nesta situação de avaliação foram escritos adequadamente considerando a situação avaliativa, outros, contudo, escreveram textos com sentido comprometido. Abaixo seguem alguns exemplos:

Na reserva (x) ensinando aluno próprio na língua materna, porque o pai e a comunidade aceitamo ensinar na língua. A partir de pré e segundo ano ensina na língua, após o terceiro ano ensina na língua portuguesa, La na Escola tem implantação sobre tecnologia, agrícola, prática culturais, quadra do Esporte (...) (Sem nome, seleção 2010-UFGD)

Este texto foi produzido por um candidato a vaga na Licenciatura referida e ao longo de sua escrita se apresenta como professor. Não se tem informação de sua formação anterior, onde estudou o ensino médio. Sabe-se que é docente em escola indígena porque seu texto traz pistas. Muitos dos candidatos fizeram o ensino médio pelo magistério superior Ará Verá – Projeto de formação docente mantido pela Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul.

A parte transcrita é a parte inicial do texto e o candidato apresenta problemas de inadequação vocabular, emprego verbal, igualmente impróprio. As construções oracionais não seguem o padrão de quem tem o português como L1. Exemplo: ensinando aluno próprio na língua; La na escola tem implantação sobre tecnologia.

Como no fragmento de texto apresentado anteriormente, este candidato também marca o plural no segundo elemento do sintagma como no exemplo: prática culturais. Muitos são os textos com problemas de escrita semelhantes a estes apresentados. Contudo, encontramos textos adequados a situação de avaliação para o que foram produzidos. A seguir encontra-se outro fragmento representando um texto adequado à situação:

Como fontes informam, o índice de indígenas analfabetos diminuiu razoavelmente, isso porque houve mais investimento na Educação Escolar Indígena. Mas além de diminuir esse índice, devemos nos preocupar com a qualidade de ensino oferecido para a comunidade indígena, e que alguns lugares deixam a desejar (...) Não só nas aldeias, mas na sociedade em geral, vemos que a Educação na maioria das vezes se coloca apenas como cabide de emprego, e isso deve acabar, pois já somos tão discriminados, então devemos exigir o melhor em tudo, principalmente o melhor na Educação Escolar Indígena. (Sem nome, seleção para Licenciatura, 2010)

         O autor deste texto não traz marcas de que quem o escreveu é um professor(a), trata-se de uma produção com boa argumentação, há uma concepção de oração e período. Há adequação vocabular, os verbos estão adequados bem como a concordância. Textos como este não foram freqüentes e, nesse sentido podemos levantar algumas hipóteses. Primeira, que seu autor foi aluno da escola da Missão Evangélica. Esta escola tem na região uma tradição de ensino secular de qualidade. Em segundo lugar, pode-se pensar que o autor estudou em escola fora da aldeia como muitos o fazem porque acreditam que a escola fora da aldeia é melhor.

Algumas Considerações Finais

         Este artigo traz reflexões pontuais que serão ampliadas pelo grupo de pesquisa. Os estudos estão em andamento bem como as análises dos materiais levantados. Vale destacar que do grupo de pesquisa, participam também professores indígenas e eles têm se envolvido com propriedade e dedicação.

         Apesar de apresentar uma breve introdução de análise, é possível perceber que, de fato estudar a escrita de Língua Portuguesa produzida em condição de avaliação aponta para a necessidade de investir esforços para desvendar as dificuldades destes sujeitos. Por outro lado, que há particularidades no ensino do português que vão além da discussão do ensino desta língua como 2ª língua ou mesmo como língua estrangeira. É possível pensar em um português étnico em relação a determinadas populações indígenas? Por certo é preciso ampliar os estudos no sentido de responder esta pergunta. Por outro lado, como cursos de formação docente têm qualificado profissionais ao trabalho em fronteiras complexas. Este artigo objetivou levantar o debate acerca das especificidades regionais onde o ensino de português traz, provavelmente, novos desafios. 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DAMKE, C. Políticas Linguísticas e a Conservação da Língua Alemã no Brasil. Unioeste. Mal. Candido Rondom. PR. www.ucm.es Consultado em março de 2011

MEC – Referencial Curricular Nacional para Escolas Indígenas [RCNEI]. Brasília. 2005

MOITA LOPES, L. C. Identidades Fragmentadas a Construção de Raça, Gênero em Sala de Aula. Mercado de Letras. Campinas. SP. 2002

PEREIRA, M.C. Projeto Investigações em Linguística Aplicada. Entre Política Linguística à Educação Bilingue – O Caso dos Tekohá Kuera no MS. CAPES/DEB/INEP 2009-2011

VIANA, O.S. C. Preconceito e Intolerancia: Uma análise semiótica de textos produzidos por alunos indígenas. Programa de Mestrado em Letras. UFGD. Dourados/MS. 2011

Filme Terra Vermelha. Consultado em março de 2011. Disponível em:  http://www.interfilmes.com

 

Maria Ceres Pereira
Docente UFGD
Pesquisadora CAPES

 

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