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Apresentação: A complexificação da área acadêmica e profissional de PLE Imprimir E-mail
Escrito por José Carlos Paes de Almeida Filho   

A área profissional e científica da Aquisição/Aprendizagem e Ensino de Línguas, articulada teoricamente à pesquisa aplicada no âmbito da Linguística Aplicada, vivencia crescimento e complexificação conforme se expande a oferta das línguas mais frequentemente ensinadas ao redor do mundo. O ensino de uma língua como estrangeira, segunda ou como língua não materna, é pautado pelo desempenho profissional e organizacional dessa língua no mercado global e pela posição dos países parceiros globais em que é falada,na produção cultural de ciência e cultura nas sociedades do conhecimento. Depois que Portugal desempenhou o papel de potência poderosa no início do século 16, com claros índices de disseminação de sua cultura e idioma pelos quatro cantos do mundo nessa época, retornamos ao desempenho do Português como candidato a língua internacional, pela revitalização do capital cultural e econômico de Portugal e pela ascensão do Brasil falante de Português a um patamar de potência emergente do globo. Essas posições ainda não conferem à língua portuguesa de novo o status de língua hegemônica global, mas já refletem a expansão significativa de sua oferta e, consequentemente, expectativas pulsantes de complexificação da oferta do PLE ao redor do planeta. É dessa nova condição de difração do PLE, por conta de seus novos desafios com a oferta crescente dessa língua no mundo, que vai tratar esta coleção de artigos especializados reunidos neste segundo número da Revista da SIPLE. Trata-se de um número temáticoreunindo a produção sobre as especialidades do PLE a partir do 9º. Congresso Internacional de Ensino do Português Língua Estrangeira realizado pela Sociedade Internacional para o Português Língua Estrangeira (SIPLE) na Universidade de Brasília entre 06 e 08 de outubro de 2010.

A área profissional e acadêmica de AELin (Aquisição,aprendizagem e Ensino de Línguas) pertence à área maior da Linguagem, da qual fazem parte também a Linguística e Letras, esta última reconhecidamente uma antiga cepa da Linguagem que veio, por tradição, a ser utilizada como sinônimo de Literatura(s) na tradição brasileira. Os estudos de gramática, principalmente os de tradição filológica, são igualmente antigos e em alguns países da Europa passaram a denominar por esse nome a área maior da Linguagem. A AELin se aninha com várias outras disciplinas aplicadas como a tradução e lexicografia aplicada (por se ocuparem de fenômenos de superfície da prática social envolvendo linguagem) na área de maior abrangência da Linguística Aplicada. Poderíamos argumentar que as literaturas poderiam se reunir com Artes, o Ensino de Línguas com a Pedagogia ou Educação e a linguística com as ciências sociais, esvaziando, assim, a grande área da Linguagem. Mas essa solução contraria a percepção generalizada e correta, na minha análise, de que a construção epistemológica que vingou no Brasil, até certo ponto, foi a de valorizar a reunião de todas essas disciplinas de linguagem num só tronco, maximizando a convergência da teorização, via pesquisa pela manutenção das irmãs da área da Linguagem, juntas departamentalmente em faculdades ou institutos anacronicamente ainda chamados de Letras.

A institucionalização das disciplinas e ciências não obedece inicialmente a critérios orgânicos epistemológicos como esses que utilizei no parágrafo anterior. Prevalece na formalização dos departamentos, institutos e centros critérios de senioridade na estrutura universitária. Quem chegou primeiro e estabeleceu seu território acadêmico tem o direito de nomear o território a sua maneira ou à maneira de ver da época em que se instalaram. É claro que muitas dessas soluções institucionais prejudicam as disciplinas porignorarsuas identidades e por retardarem o usufruto de seus plenos benefícios outorgados pela pesquisa e ensino bem definidos.

No caso do PLE no próprio Brasil, assim como a Linguística Aplicada, a sua entrada nos departamentos não poderia ser diferente. Tem lhe cabido a lateralidade de centros ou núcleos, a precariedade dos projetos temporários de extensão, a instrumentalidade das disciplinas de serviço e a baixíssima percepção de sua relevância estratégica por parte dos capitães de herdades. A realidade já quase escancara a nova posição do Português na sua oferta a falantes de outras línguas e participantes de outras culturasindicando que um novo tratamento e planejamento do ensino do PLE já é tardio. Contudo, nem os departamentos, nem a política dos oficiais míopes nos escalões dos partidos e governos enxergaas novas demandas com clareza para traduzir a resposta em políticas de ensino de línguas e do PLE em particular. O trabalho em favor da melhor posição para o PLE tem de ser mantido, então, nas dobras, falhas e entrelugares dos contextos de oferta.

Quando retornei da viagem de estudos que culminou com o meu doutorado no exterior em 1985, não havia senão vestígios esparsos e quase invisíveis da instalação do PLE nas instituições. Tendo ensinado PLE durante alguns anos fora do Brasil, percebi na volta o tamanho do potencial que se abria a profissionais dessa quase área à época. Havia algumas classes de ensino a estrangeiros, alguns materiais escassos publicados por editoras e outros domésticos para certas situações e nada mais. Não havia um lugar formal para pesquisadores em PLE nas instituições com raras exceções, não havia livros sobre o PLE para formação de professores, não havia uma associação de praticantes, não havia eventos, não havia exames de proficiência, não era praxe atender com iniciativas formadoras os mestres isolados no exterior. Em pouco mais de 25 anos, o cenário não está sanado, mas é sensivelmente melhor e prossegue promissor. Temos hoje indicadores de atividade em todas essas frentes. Para uma análise pormenorizada do panorama de ensino de PLE no Brasil, vide ALMEIDA FILHO, 2007.

         A coletânea que ofertamos neste número se converte em testemunho inequívoco da difração da área, sinal de evolução representada pelos vários trabalhos aqui publicados retratando a inovação, o avanço para novos patamares de consciência, e a diversidade de contextos em que se oferta o PLE hoje no Brasil e no mundo. Outros trabalhos ainda nesta vertente deverão fazer parte dos próximos números da Revista da SIPLE. Relembremos, ainda, a hierarquia acadêmica ou de constituição científica da área de PLE.

Figura 1. Hierarquia de pertencimento do PLE

Grande área da Linguagem

Linguística Aplicada

Aquisição e Ensino de Línguas

Ensino de PLE

Especialidades do PLE:

PLE instrumental, língua de herança, comunidades transplantadas de trabalhadores, fronteiras, bilinguismo escolar, contextos indígenas, falantes de espanhol, falantes de outra língua específica

São essas especialidades do PLE que nos ocuparam neste volume pioneiro no tratamento do tema. As especialidades não requerem cada qual uma teoria distinta, assim como não é possível produzirmos uma teoria de ensino e aquisição para cada novo idioma que se coloca para ensino a falantes de outras línguas. As especialidades possuem especificidades da mesma teoria básica e é o conhecimento crítico delas que nos aproxima da excelência no exercício profissional de ensinar PLE.

 

Referência

ALMEIDA FILHO, JCP & CUNHA, MJC Projetos iniciais no ensino de Português a falantes de outras línguas. Campinas e Brasília: Pontes Editores e Editora da UnB, 2007.

José Carlos Paes de Almeida Filho
Universidade de Brasília
Brasília, 25 de março de 2011.

 

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