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9. Professores brasileiros de PLE entre a inferioridade e o ufanismo Imprimir E-mail

Entrevista com GEORGE PELLEGRINI e CESÁRIO ALVIM, professores de PLE na UESC, em Ilhéus, Bahia.

Especial para a Revista da SIPLE

No profícuo e chuvoso I Seminário de Português como Língua Estrangeira realizado em 26 e 27 de junho de 2008, no doce cenário de estórias inesquecíveis de Jorge Amado em Ilhéus, na Bahia, dois comunicadores trataram separadamente de um inusitado tema atitudinal envolvendo professores brasileiros de PLE no exterior e no próprio Brasil - o da relação extremada de ufanismo ou retração frente ao Brasil nas suas aulas. Perguntei aos professores George Pellegrini e Cesário Alvim, com experiências de ensino de PLE na Espanha (Sevilha) e no Brasil(Vitória, principalmente), quais os sintomas por eles observados e qual a origem possível de cada uma dessas posições. Leiam o que disseram meus interlocutores sobre esse palpitante assunto.

Pellegrini: Só vim a perceber o ufanismo do brasileiro quando estive vivendo no exterior: a bandeira verde amarela na parede, recortes do jornal El País informando as vitórias do Brasil junto à OMC afixada na porta do guarda-roupa, e no discurso, a imagem de um país gigante, de belezas indizíveis, clima invejável, mulheres e homens de beleza e sensualidade ímpar. Um povo solidário, que tem a bossa nova, o carnaval, o futebol. O brasileiro fora do seu país é um convencido.

Surge, então, uma pergunta lógica: de onde vem tanta brasilidade?  Para respondê-la, precisamos falar, antes, das origens do termo ufanismo.

Originário do espanhol, o termo significa jactância, basófia, ostentação.  No seu sentido nacionalista, significa o vangloriar-se das potencialidades de determinado país, sobrevalorizando sua cultura, monumentos, riquezas.  No Brasil, está muito vinculado ao período da ditadura (1964 – 1985), fruto da propaganda nacionalista promovida pelos militares para encobrir as barbaridades praticadas pelo regime. Entretanto, há registros de textos ufanistas já na literatura colonial e no barroco brasileiro.  No romantismo, com Gonçalves Dias e José de Alencar, ganha contornos de identidade cultural: “minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”.  O índio é posto como herói nacional.  Mas é com Afonso Celso, com o livro “Por que me ufano do meu país”, publicado no início do século XX, que o termo ufanismo se consolida como sinônimo de brasilidade plena de orgulho.

Acredito que só me dei conta do ufanismo exagerado do brasileiro por estar vivendo em Sevilha. Cidade de impressionante patrimônio cultural, Sevilha tem uma população que se destaca no cenário espanhol pelo seu ufanismo. Ao perceber e criticar o sevilhanismo, comecei a “escutar” o ufanismo desmedido do brasileiro. Comecei, também, a “ouvir” o meu próprio ufanismo.  Meu discurso também se impregnava de uma brasilidade desmesurada.  Nós, brasileiros, estávamos nos vangloriando, cometendo o pecado capital da vaidade.

Percebi, assim, que o meu material didático de PLE estava visivelmente influenciado pelo ufanismo. Buscando retificar o problema, foi fácil descobrir que este não era um problema só meu. Meus colegas professores de PLE em Sevilha padeciam do mesmo problema.

Em verdade não sei se há alguma solução para o ufanismo, já que é algo entranhado no imaginário do brasileiro. E que se aflora, a meu ver, quando se está no exterior. Tampouco vejo problema mais grave se esse ufanismo permanece nos liames da “normalidade”. Quando ele passa dos limites, que é o estágio onde o ufanista está ou exagerando as nossas grandezas ou encadeando, discurso após de discurso, dia após dia, em todo encontro, em todas as aulas, em toda conversa, as maravilhas do Brasil. Nesse momento é preciso “puxar o freio”, fazer uma autocrítica, reconsiderar.

O fato de se ter uma falsa impressão do primeiro mundo faz brotar um sentimento de patriotismo que não se vê quando se está no seu país. Saímos daqui achando que no “primeiro mundo” tudo funciona, tudo é perfeito, todos são solidários, etc. Ao chegar ali, percebemos que muita coisa funciona mal, há desorganização, há desrespeito com o consumidor, há tratamento diferenciado, há filas, há roubos, periferias, bairros marginais, etc. Há muitos problemas em que o Brasil está muito à frente. Isso faz com que o brasileiro vá incorporando no seu discurso frases do tipo: “isso não acontece no Brasil”, “isso no Brasil seria impensável”, “se fosse no Brasil esse sujeito estaria preso”, “essa empresa não funcionaria no Brasil”, etc.

O choque cultural que enfrenta muitos brasileiros no exterior, aliado à saudade e a xenofobia por parte de muitos estrangeiros também concorre para isso. O próprio ato de descobrir o ufanismo no seu discurso é difícil, porque implica um olhar para dentro de si mesmo. Talvez um bom conselho fosse o de alertar aos ufanistas exagerados que eles o estão sendo. E que isso cria em torno ao discurso um ar de ceticismo e de antipatia.

Com relação à prática no ensino de PLE, é preciso passar um discurso mais condizente com a realidade do país. Eu prefiro ficar com o discurso de Tom Jobim: “O Brasil não é para principiantes”. Ele queria dizer que tudo no Brasil é muito intenso, tanto nas alegrias e nas tristezas, nas soluções e nos problemas. O Brasil não é terceiro mundo, nem segundo, nem primeiro, o Brasil tem todos esses mundos dentro. É preciso informar que aqui se pode encontrar uma Bélgica, uma Cuba ou uma Somália... Um país que tem avanços impressionantes e atrasos vergonhosos. Acredito, então, que no nosso discurso, principalmente na nossa elaboração de planos de aula ou módulos didáticos, devamos passar este contraste, para que o aluno tenha uma visão muito mais aproximada da nossa cultura e da nossa identidade.

Alvim: Em minha experiência passada, durante cinco anos no Centro de Línguas para a Comunidade, na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), na preparação de material didático e de aulas de Português/LE, especificamente para estudantes de língua inglesa, sempre notei em determinadas falas de alguns colegas da equipe e de outros, fora da equipe, um expressar-se sobre a nossa língua que revelava, de certo modo, uma maneira de ver o outro em um plano superior. Isso aparecia em frases como: “a língua portuguesa não é tão precisa quanto a língua inglesa”, “a nossa língua não possui uma palavra “x” para expressar com exatidão o que quero, como a língua inglesa possui” etc. De minha parte, vejo nisso, um olhar que nos distancia da nossa própria língua, e se volta para a língua do outro, que passa a adquirir lugar e espaço de privilégio.

Em minha interpretação, tais frases revelariam um falante (o professor de PLE neste caso) que se coloca num patamar inferior, ao atribuir traços de precisão, eficiência, clareza e coerência à língua do outro em detrimento da sua. Parece ser que, inconscientemente, há uma transplantação do status quo social do nosso país, da nossa falta de avanço tecnológico, da falta de infra-estrutura e de questões sociais que se amalgamam no modus pensandi e se revelam no discurso. Essa visão de uma língua “lacunosa”, por parte de alguns profissionais, esse modo de pensar, por sua vez, determina sua atuação profissional, o que culmina em atividades didáticas e, possivelmente, no momento de abordar a língua/cultura (PLE), em que esse profissional, sem se dar conta, apresentaria ao outro uma língua não “precisa”, “não eficiente” etc, e ao fazê-lo, proporcionaria ao outro uma mostra de “cultura fragmentada”, uma “cultura estereotipada” e não daria ao outro de fato a mostra da nossa pluralidade e diversidade cultural.

Esse modo de pensar, de um idioma “impreciso”, não propicia ao profissional atuar com orgulho e estabelecer um diálogo de troca com o outro. É como se ainda houvesse para esse profissional a noção de corte e colônia, que nos dias atuais se transfere para a língua inglesa, como língua “mais precisa”. Isso, ao meu modo de ver é um pensamento falacioso e uma negação do ser brasileiro, uma ocultação da face.

Ressalto que isso parte de minhas observações e de crenças presentes no consciente coletivo e que se expressam de uma forma ou de outra no campo do ensino-aprendizagem de PLE.

Nos textos de meus entrevistados, creio estarem presentes duas instâncias de uma categoria de variável do processo interconectado de ensino e de aquisição de uma nova língua, neste caso, o Português Língua Estrangeira. Essas instâncias eu reconheço como distorções da percepção sociocultural (Vide Glossário de Linguística Aplicada citado abaixo) de professores ou de seus alunos aprendentes.  Dessa categoria indicativa de um viés negativo de percepção de uma nova língua e de seus países, suas culturas e falantes por não ajudar o processo aquisitivo da língua-alvo, constam posturas como essas duas precisamente ilustradas nesta entrevista. Seja o inferiorismo em que se coloca o professor brasileiro mesmerizado pela cultura do outro por ele julgada como superior, seja o ufanismo que exacerba o valor do país onde se fala a língua nativa (neste caso, o Brasil) em detrimento do país de acolhida, essas atitudes ou percepções militam contra o bom entendimento, contra a flexibilidade e a tolerância e contra qualquer esperança de integração que possa facilitar o processo aquisitório da nova língua. Nesses casos, resta a consolação de que poderá a língua-alvo ser aprendida com sistematicidade racional e consciente. Consolação de curto alcance ela será, contudo, pois o aprendizado consciente ou monitorado de regras tem duração limitada e enfrenta muita dificuldade em tornar-se adquirido por não ocorrer em interação comunicacional aberta e envolvida. O caminho para solucionar esses desafios será reequilibrar um e outro agente mediante reflexão, a mediação de um outro experiente e ações de encurtamento da distância atitudinal que separa os aprendentes das línguas e culturas que precisam adquirir ou em que precisam viver.

Referência

GLOSSÁRIO DE LINGUÍSTICA APLICADA. Projeto GLOSSA do PPGLA/UnB acessável em www.sala.org.br. Acesso em 29 de setembro de 2010.

 

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