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7. Aprendizagem de leitura em PLE/PL2 Imprimir E-mail

Resumo:
O objeto do estudo desse trabalho diz respeito ao funcionamento das atividades de leitura e escrita no ensino e aprendizagem de língua portuguesa. Pretende-se resenhar criticamente as teorias referentes à escrita e à leitura para aprimorar a compreensão do processo de ensino e aprendizagem da língua portuguesa para estrangeiros.

Palavras-chave: ensino da língua escrita em PLE, leitura e escrita no ensino de PLE

Abstract: The aim of this study is to describe and explain the impact of reading and writing activities in the teaching and learning of Portuguese as a Foreign Language. In order to accomplish that purpose theories of the processes of reading and writing are critically reviewed in order to yeld a better comprehension of the processes of teaching and learning  Portuguese as a Foreign Language.

Key words: teaching of the written language in PLE, reading and writing in the teaching of Portuguese as a Foreign Language

 

Introdução

Os professores devem estimular a leitura na sala de aula de uma forma que os alunos leiam por prazer e não por obrigação. Para tanto, o educador precisa ver que tipo de leitura apraz ao aprendiz.

Hoje em dia, dado o papel fundamental da escola e da escolarização no letramento, na aprendizagem e no letramento, na aprendizagem e no desenvolvimento da criança, ninguém admite que o professor, figura central nessa escola, não tem aí um papel a assumir. Entretanto, esse papel se reduz muitas vezes ao de fornecedor de estímulos para a elicitação de automatismos, dentro das mais pobres das concepções behavioristas. (KLEIMAN, 2008, p. 8)

Nós, professores, devemos pensar na leitura como uma interação entre o autor e o leitor do texto. O bom leitor é aquele que sabe dialogar com o autor do texto. A coerência entre fundamentação teórica e a ação prática no ensino de leitura, o reconhecimento do aluno enquanto sujeito leitor, e não como mero decodificador são fundamentais para esse processo. Assim, para um bom trabalho, o ensino da leitura deve ser coerente com essa postura interacionista e crítica.

Muitos educadores dizem que acreditam nesse processo interacionista entre o leitor e o autor do texto. Mas, poucos ensinam o aprendiz a ouvir o autor nessa interação. No material didático, a leitura, segundo Kleiman (2008, p.18), fica reduzida, geralmente, a atividades de leitura com exercícios de compreensão e interpretação de texto e à manipulação mecanicista de sentenças. Nesse contexto, não há preocupação com o significado global do texto. Se o professor não nota a complexidade do processo de leitura e de interação, ele não consegue implementar essa visão na leitura do texto que está sendo trabalhado na aula.

Modelos de leitura e de leitor

Os modelos de percepção visual e de processamentos das letras mostram um esboço do modelo interacionista. O professor pode implementar, também, nesse modelo interacionista, a análise do discurso. Na Perspectiva Interacionista da Leitura, Kleiman (2008 p.19) ressalta que o leitor passa a ser um sujeito cognitivo, que deixa de ser receptor de conhecimento apenas e passar a ser um (re)criador de significado. As relações instituídas no processo de leitura não mudaram, uma vez que ainda há relação entre o leitor e o autor do texto. Desse modo, na caracterização de leitura como interlocutação, não temos uma relação entre o objeto e o leitor, mas entre o leitor e o autor, sujeitos sociais, num processo que será necessariamente dinâmico e mutável.

O papel do professor não é só receptivo, ao fazer uma atividade de leitura. É importante que ele verifique o conhecimento prévio do aluno sobre o que vai ser lido, uma vez que essa ação estimula o aluno para descobrir que ele vai ler. Faça perguntas orientadoras para a leitura. Formule hipóteses e contextualize o texto. Assim, deve-se estudar o texto todo e não dividi-lo em unidades menores. Com relação a estas condições de produção de leitura, Kleiman (2008) afirma

Numa prespectiva social, o papel do interlocutor se esvazia toda vez que o leitor aceita o texto como objeto acabado, toda vez que ele não exerce seu direito de interlocução, privilegiando com isso o autor no processo. (KLEIMAN, 2008, p. 37)

Há, nesse contexto, um paradoxo no ensino da leitura, porque o leitor recuperar a sua condição de interlocutor através do professor quando este seleciona aspectos relevantes do texto e usa o seu conjunto de leitura e o seu conhecimento de mundo para destacar traços intertextuais importantes. Kleiman (2008, p. 37) destaca que o papel do professor pode não ser o de mediador entre o autor e o leitor, mas de fornecedor de condições para que essa relação de interlocução entre o autor e o leitor se estabeleça.

É a combinação de práticas manipulativas com estratégias de leitura a que conduz o aluno a adotar a manipulação, a identificação de informações para retenção como um tipo de leitura, a leitura como sinônimo de recepção passiva. (KLEIMAN, 2008, p.41)

Para ensinar leitura e escrita

Para ensinar a leitura, o educador de língua portuguesa não deve impor uma leitura única, ou melhor, a sua leitura, como a única leitura do texto.

Ensinar a ler, é criar uma atitude de expectativa prévia com relação ao conteúdo referencial do texto, isto é, mostrar à criança que quanto mais ela previr o conteúdo, maior será sua compreensão: é ensinar a criança a se auto-avaliar constantemente durante o processo para detectar quando perde o seu fio; é ensinar a utilização de múltiplas fontes de conhecimento (…). Isso implica em ensinar não apenas um conjunto de estratégias, mas criar uma atitude que faz da leitura a procura da coerência. (KLEIMAN, 2008, p. 151)

As estratégias de leitura provêma interação entre o leitor e o autor através do texto. É importante que o professor facilite essa interação e promova autonomia no aprendiz para que ele possa andar sozinho quando o educador não estiver presente.

Se o profissional apresenta um comportamento tradicional, em que o aluno não lê com interação, mas só faz receber informação no ato da leitura, não vai ocorrer inferências nem integração com o autor do texto. Existe apenas a identificação do que é óbvio e o estabelecimento de correspondências formais.

Kleiman (2008, p. 152) ressalta que esse tipo de leitura provoca um comportamento passivo no aluno por ser uma atividade operacional. Ele não consegue desvendar o implícito. Só apresenta o que está evidente. Dessa forma, o papel do educador é ensinar o aluno a ler, a desvendar o implícito, a fazer questionamentos sobre o texto, a interagir com o autor.

Segundo Koch e Elias (2007, p. 12), o texto é lugar de interação de sujeitos sociais, que, se constituem nele com diálogos, e são constituídos. Assim, formam-se o auto e o leitor do texto.

A leitura, com o foco no autor, é considerada como uma atividade de captação das ideias do autor, sem considerar as experiências e os conhecimentos do leitor, a interação autor-texto—leitor com propósitos constituídos socio-cognitivo-interacionalmente. O leitor só faz apenas captar as intenções.

A leitura, com o foco no texto, é uma atividade que exige do leitor uma atividade de reconhecimento e de reprodução. Nessa linearidade do texto, “tudo está dito no dito”. Nesse foco, cabe ao leitor reconhecer o sentido das palavras e estrutura do texto.

Com o foco na interação autor-texto-leitor, a leitura apresenta uma concepção interacional (dialógica) da língua. Os sujeitos são vistos como atores, sujeitos ativos que se constituem dialogicamente e constroem-se no texto, considerado o lugar da interação e da constituição dos interlocutores. Nesse contexto, o sentido é construído na interação entre o texto e os sujeitos (o autor e o leitor). Koch e Elias (2007, p.12) afirmam que o sentido “se realiza evidentemente com base nos elementos linguísticos presentes na superfície textual e na sua forma de organização”.

Leia o texto a seguir: Cascão



Cascão

Na tirinha, Cascão foge da água para não se molhar e Cebolinha acha que ele está comemorando de uma forma diferente. Maurício de Sousa (autor) passa para o leitor as informações explicitamente constituídas, como também as que estão implicitamente sugeridas. A interação do leitor com o texto constrói-se quando ele dá o sentido ao que é lido.

A leitura é uma atividade na qual se leva em conta as experiências e os conhecimentos do leitor. Se o leitor não conhece o perfil de Cascão, não vai entender porque ele não quer se molhar. A leitura, segundo Koch e Elias (2007, 13), a leitura de um texto exige do leitor bem mais que o conhecimento do código linguístico. O papel do leitor enquanto construtor de sentido é desempenhar as estratégias de seleção, antecipação, inferência e verificação.

Após ler essa tira de Cascão, pode-se concluir que a leitura é realmente uma atividade de construção do sentido que pressupõe a interação entre o autor, o texto e o leitor. É relevante destacar que, nesse contexto, o conhecimento do leitor entra em jogo além das pistas que o texto oferece.

A leitura de um texto curto, como essa tira em quadrinhos, como contos, crônicas, não exerce a função aleatória na sala de aula, porque o professor poderá exercer a sua função de ruptura no processo de compreensão da realidade. Para Geraldi (2006, p. 59), é relevante que o professor escolha as temáticas desses textos de acordo com os interesses dos alunos, para que essa atividade modifique a sua realidade.

Nas aulas de língua portuguesa, o professor pode fazer tarefas de produção escrita. Estas podem acontecer a partir de leitura e discussões de textos orais e escritos. Nas aulas de PLE/PL2, todas as habilidades devem ser desenvolvidas de forma interligada, uma vez que as competências comunicativas não são estanques. Para a produção escrita, o planejamentos deve prever a prática da leitura, da compreensão oral, como atividades que deveriam anteceder a produção textual escrita.

A leitura e a escrita, de acordo com Widdowson (2005, p. 88), não podem tão facilmente ser consideradas como atividades interligadas. Em grande parte do discurso escrito, não há sempre um inter-relacionamento estreito dessas atividades. Esse fato é diferente das habilidades de falar e ouvir, porque elas sempre estão inter-relacionadas. Ler e escrever não são atividades tipicamente recíprocas da mesma forma que o dizer e o ouvir.

Nesse trabalho, é importante que todas as atividades de produção escrita sejam realizadas a partir da leitura de textos escritos e áudio-visuais, permitindo o interrelacionamento entre essas habilidades. Souza (2009) afirma que tanto a leitura quanto a escrita são atividades construídas. A concepção de leitura é feita a partir da atribuição de sentidos aos textos. O leitor utiliza o seu conhecimento de mundo para dialogar com o autor do texto que está sendo lido. Ao escrever, o aluno também assume o papel de leitor. Escrever enquanto uso (comunicativo) é o contrário de compor (escrita como forma). A escrita pode ser considerada como uma atividade dialogal. O sujeito que escreve já realizou uma leitura de textos conhecidos antes, bem como a leitura de mundo produzida a partir de suas experiências. Além disso, ao escrever, o produtor do texto dirige-se a um leitor virtual, que age sobre ele mesmo antes de o texto estar produzido. O sujeito, autor do texto, escreve a partir do que ele conhece do seu leitor ou leitores virtuais.

Moita Lopes (2002) afirma que, para estudar os modelos de leitura, é importante vê-los a partir da questão da direção do fluxo da informação no ato de ler. Dessa maneira, esses modelos podem ser classificados em três tipos: modelo de fluxo ascendente, descendente e ascendente/descendente simultaneamente.

O processamento ascendente acontece com teorias de decodificação de leitura. O leitor só utiliza os dados apresentados no texto lido na tarefa, se o compreender. Tendo em vista a estreita relação entre ler e escrever, já apontada acima, busca-se, na investigação aqui descrita, entender melhor o processo da leitura, recorrendo-se a contribuições de pesquisadores que se voltaram para tal atividade. Assim, nesse processo ascendente, a informação flui do texto para o leitor. E, no processamento descendente, o foco é colocado na contribuição do leitor para o ato de ler. O significado do texto está na mente do leitor. Dessa maneira, a informação flui do leitor para o texto.O terceiro tipo desses modelos é caracterizado pela visão de que o processamento do texto ocorre nas duas direções – ascendente e descendente – ao mesmo tempo.

As teorias interacionistas de leitura oferecem um arcabouço teórico adequado para dar conta do uso do pré-conhecimento na compreensão em geral. Nessa teoria, a compreensão escrita é realizada quando um leitor, ao deparar-se com um enunciado escrito – em um processamento ascendente – ativa o seu pré-conhecimento. Assim, através de um processamento descendente, criam-se expectativas no leitor quanto ao possível significado a ser negociado com o escritor.

No ato da leitura, o sujeito usa sua competência como leitor e interage com o escritor através de procedimentos interpretativos. Esses procedimentos são os meios através dos quais os esquemas do leitor e escritor são negociados. Desse modo, o leitor negocia o significado do texto com o escritor através de um processamento ascendente-descendente da informação mediado no texto.

Segundo Cornaire e Raymond (1999, p. 12), ensinar a escrita não consiste em pensar sobre o funcionamento da língua ou produzir enunciados fora do contexto conforme o modelo da sintaxe. Ensinar o aluno a escrever é ensinar a comunicar-se através da escrita, sendo importante que o aprendiz tenha estratégias de leitura que contribuam para a sua produção escrita. Assim, é essencial trabalhar atividades de produção escrita a partir de leitura, para que o aprendiz aumente o seu vocabulário e aproveite-o no seu texto.

Conforme Krashen (1984), um bom texto escrito ocorre quando há uma boa interação entre o escritor e o leitor. A comunicação é verdadeiramente eficaz, quando o aprendiz escreve de maneira clara, coerente e coesa. Além disso, ao desenvolver atividades de leitura sobre aspectos sociais e interculturais, o professor contribui para que o texto dos seus alunos seja mais consistente. Tal atitude do educador faz com que ocorra uma boa aprendizagem da escrita, ao ter desenvolvido uma boa leitura com o aprendiz.

As atividades de produção escrita são importantes por possibilitarem uma tomada de posição do sujeito produtor frente à realidade. Essa ação estimula o senso crítico do aprendiz durante as aulas de português para estrangeiros. Viana (2007, p. 233) sugere que o professor verifique a relação pessoal dos alunos com a escrita para identificar quais são as concepções de cada um sobre o ato de escrever. A conscientização dos alunos sobre os processos que fazem parte da escrita, como o planejamento, a execução e a revisão revela-se da maior importância. Dessa forma, Geraldi (2000, p. 88) destaca que há três práticas a considerar no ensino: a leitura, a produção de textos e a análise linguística. A leitura é um processo de interlocução entre leitor e autor mediado pelo texto. Esse encontro não é passivo, visto que requer do leitor um posicionamento ativo que se traduz em diversas leituras.

Grande parte da produção de texto escrito feita pelos alunos nas escolas não menciona a interlocução. O aprendiz não sabe para quem ele dirige o seu texto. Além disso, a tarefa que lhe é prescrita costuma tratar de um assunto que ele desconhece ou do qual ele possui um conhecimento superficial:

Normalmente, nos exercícios e nas provas de redação, a linguagem deixa de cumprir qualquer função real, construindo-se uma situação artificial, na qual o estudante, à revelia de sua vontade, é obrigado a escrever sobre um assunto em que não havia pensado antes, no momento em que não se propôs e, acima de tudo, tendo que demonstrar (esta é a prova) que sabe. E sabe o quê? Escrever. (BRITTO, 2000, p. 59)

Assim, as atividades de produção escrita são realizadas de modo mais efetivo, quando precedidas de leitura e discussão sobre o tema proposto ao aluno pelo professor, através de atividades de leitura e de discussão em sala de aula, para que o aprendiz possa ter informações suficientes para colocar no seu texto. Desse modo, a avaliação do texto do aprendiz irá considerar a pertinência das informações apresentadas no texto, bem como os aspectos linguísticos de que faz uso.

Para entender plenamente o que é a escrita, é essencial saber o que caracteriza o texto, tanto o escrito como o oral, uma vez que o que as pessoas usam para se comunicar são textos e não palavras isoladas. De acordo Costa Val (1999, p. 03), o texto será bem aceito e bem compreendido, quando ele é avaliado sob três aspectos:

  1. o pragmático, que tem a ver com seu funcionamento enquanto atuação informacional e comunicativa,
  2. o semântico-conceitual, de que depende sua coerência;
  3. o formal, que diz respeito à sua coesão. (COSTA VAL, 1999, p. 05)

O que faz um texto ser um texto é o cumprimento dos aspectos da textualidade. Ele não é uma sequência de frases. Para que ele se firme, é preciso haver essas características da textualidade:

  • a coesão e a coerência: material conceitual e linguístico do texto;
  • a intecionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade: material relacionado com os fatores pragmáticos do texto e envolvido com o seu processo sócio-comunicativo.

Costa Val (1999, p. 05) menciona que a coerência provém da configuração que assumem os conteitos e relações subjacentes à superfície textual. É fundamental para a textualidade, visto que é responsável pelo sentido do texto. Abarca aspectos semânticos e cognitivos e depende do partilhar conhecimentos entre os interlocutores. Um discurso é aceito como coerente quando mostra configuração conceitual compatível com o conhecimento de mundo do receptor.

Já utilizei tiras de Cascão nas minhas aulas de Português para estrangeiros. Os aprendizes não tinham conhecimento sobre as características das personagens da Turma da Mônica. Então, para eles, essa tira que vocês acabaram de ler não é coerente. Ou melhor, passa a ter coerência, depois que eu fiz o papel de intermediação no diálogo entre o autor e o leitor da tira de Cascão.

Segundo Koch (2007), a coerência está relacionada com a possibilidade de estabelecer sentido para o texto. É ela que quer fazer com que o texto faça sentido para os leitores.

A coesão, de acordo com Costa Val (1999, p. 06), é a manifestação linguística da coerência. É responsável pela unidade formal do texto e constrói-se através de mecanismos gramaticais e lexicais.

  • Os mecanismos gramaticais são os pronomes anafóricos, artigos, elipse, concordância, a correlação entre os tempos verbais, as conjunções.
  • Os mecanismos lexicais: reiteração, substituição e associação. A reiteração é a repetição de um item lexical e também por processo de nominalização (adiar/adiamento). A substituição abarca a sinonímia, a antonímia, a hiponímia (carroça – veículo), a hiperonímia (objeto – caneta), associação (aniversário – bolo, vela, presentes).

Por meio desses mecanismos, segundo Koch (2003, p. 13), o texto é construído. Essa autora compara o texto ao tecido. Assim, esses mecanismos vão tecendo o tecido do texto.

A coesão e a coerência apresentam em comum o aspecto de promover a inter-relação semântica entre os elementos do discurso, chamada de conectividade textual. Para um texto apresentar sentido, ele precisa ser coeso e coerente.

Muitos teóricos poderiam considerar esse texto circuito fechado como um não-texto, porque ele é todo segmentado. Todavia, isso não impede que ele funcione como um texto perfeitamente inteligível. Acabamos de ler e percebemos os fatores pragmáticos. Eles não apresentam coesão, mas tem coerência.

Os fatores pragmáticos do texto – a intecionalidade, a aceitabilidade, a situacionalidade, a informatividade e a intertextualidade – são, também, extremamente, relevantes para firmar o sentido do texto. Os protagonistas do ato da comunicação são a aceitabilidade e a intencionalidade.

A intecionalidade está relacionada como o empenho do autor paraconstruir um discurso coerente, coeso e capaz de satisfazer os objetivos do leitor. Essas metas acontecem numa determinada situação comunicativa. Elas podem informar, impressionar, alarmar convencer, pedir, ou ofender o leitor. É ela que vai orientar a produção do texto.

A aceitabilidade refere-se à expectativa do recebedor, ou seja, o leitor. Este espera que o texto seja coerente, coeso, útil, relevante, capaz de levá-lo a adquirir conhecimentos ou a cooperar com os objetivos do produtor (o autor).

A situacionalidade refere-se aos elementos responsáveis pela pertinência e relevância do texto quanto ao contexto em que ocorre. É a adequação do texto à situação comunicativa.

A informatividade está relacionada com as ocorrências de um texto. Estes acontecimentos podem ser esperados ou não, conhecidos ou não e podem ocorrer no plano conceitual e no formal. Segundo Costa Val (1999, p. 19), um texto para ter um bom índice de informatividade precisas ter uma suficiência de dados.

A intertextualidade concerne aos fatores que fazem a utilização de um texto dependente do conhecimento de outros textos. Costa Val (1999, p. 20) ressalta que vários textos só fazem sentido quando entendidos em relação a outros textos, que funcionam como o contexto.

Dessa maneira, a unidade textual é construída pelo aspecto sociocomunicativo e pelo aspecto semântico. O aspecto sociocomunicativo ocorre através de fatores pragmáticos, com a situacionalidade, intecionalidade, aceitabilidade, informatividade e intertextualidade. O aspecto semântico acontece através da coerência e o aspecto formal acontece através da coesão.

A Intertextualidade acontece quando ocorre diálogo entre os textos. Kleiman e Moraes (1999, p. 61) afirmam que os textos incorporam modelos, vestígios e até estilos (paródias) de outros textos e de outros gêneros. Um texto faz referências explícitas ou implícitas a outros textos.

Leiam os textos seguintes:

Texto 1: A raposa e as uvas

Uma raposa estava com muita fome. Foi quando viu uma parreira cheia de lindos cachos de uva. Imediatamente começou a dar pulos para ver se pegava as uvas. Mas a latada era muito alta e, por mais que pulasse, a raposa não as alcançava.

- Estão verdes – disse, com ar de desprezo.

E já ia seguindo o seu caminho, quando ouviu um pequeno ruído.

Pensando que era uma uva caindo, deu um pulo para abocanhá-la. Era apenas uma folha e a raposa foi-se embora, olhando disfarçadamente para os lados. Precisava ter certeza de que ninguém percebera que queria as uvas.

Também é assim com as pessoas: quando não podem ter o que desejam, fingem que não o desejam.

Texto 2: A raposa e as uvas

De repente a raposa, esfomeada e gulosa, fome de quatro dias e gula de todos os tempos, saiu do areal do deserto e caiu na sombra deliciosa do parreiral que descia por um precipício a perder de vista. Olhou e viu, além de tudo, à altura de um salto, cachos de uva maravilhosos, uvas grandes, tentadoras. Armou o salto, retesou o corpo, saltou, o focinho passou a um palmo das uvas. Caiu, tentou de novo, não conseguiu. Descansou, encolheu mais o corpo, deu tudo o que tinha, não conseguiu nem roçar as uvas gordas e redondas. Desistiu, dizendo entre os dentes, com raiva: “Ah!, também não tem importância. Estão muito verdes.” E foi descendo, com cuidado, quando viu à sua frente uma pedra enorme. Com esforço empurrou a pedra até o local em que estavam os cachos de uva, trepou na pedra, perigosamente, pois o terreno era irregular, e havia o risco de despencar, esticou a pata e... conseguiu! Com avidez, colocou na boca quase o cacho inteiro. E cuspiu. Realmente as uvas estavam muito verdes!

Moral: a frustração é uma forma de julgamento como qualquer outra.

A intertextualidade ocorre quando, em texto, está inserido outro texto (intertexto) anteriormente produzido, que faz parte da memória social de uma coletividade ou da memória discursiva dos interlocutores. Nesse contexto, é essencial que o texto remeta a outros textos ou fragmentos de textos efetivamente produzidos com os quais estabelece algum tipo de relação. No exemplo citado anteriormente, vimos que Millôr Fernandes escreveu intertexto da Raposa e as Uvas de Esopo. Para que o leitor tenha pela compreensão do texto “A raposa e as uvas” de Millôr Fernandes, é preciso que ele já tenha lido a fábula “A raposa e as uvas” de Esopo.

Concluindo

O professor, na aula de língua português L2/LE, precisa trabalhar todas habilidades de forma interligada. Quando um aluno fala, tem que ter alguém para ouvi-lo e quando ele escreve tem que ter alguém para lê-lo. Enfim, uma habilidade sempre vai ter relação com as outras.

Nós temos o papel de mediar no momento de desenvolver essas habilidades nas nossas aulas. Quando trabalhamos textos que são intertextos de outros, precisamos fazer essa mediação ao mostrar o texto de base. Quando se mostra o texto A raposa e as uvas, de Esopo, há um entendimento do aluno com a ironia do texto A raposa e as uvas, de Millôr Fernandes. Assim, um embasamento teórico sobre as habilidades de leitura e escrita faz com que a aula de PLE/PL2 possa vir a ser mais produtiva e mobilizadora de estratégias que levam à aquisição dessas habilidades integradas em Português.

 

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